À primeira vista eles parecem idênticos.
Como irmãos gêmeos, têm a mesma procedência, a mesma cor clara, as mesmas características.
Estão sempre juntos, no trabalho e no lazer. Caminham lado a lado, e provavelmente terão o mesmo fim.
Com um pouco mais de convivência e atenção, porém, as diferenças começam a ser notadas.
A mais evidente delas é a postura permanentemente à direita de um e radicalmente à esquerda do outro.
Observando-se bem, outras distinções ressaltam
O da direita se mantém firme e impecável o tempo todo. Impassível, jamais perde a linha, conservando o mesmo posicionamento.
O da esquerda, ao contrário, vive destrambelhado. Tem uma língua de trapo, incompatível com a mínima elegância que se deve manter em quaisquer circunstâncias.
Gosto deles, e como saio frequentemente com ambos, faço de tudo para controlar o da esquerda, impor-lhe boas maneiras, mas não consigo vencer sua rebeldia.
Como último e desesperado recurso, chego a atá-lo o mais fortemente que consigo, mas mesmo assim escapa e quando me dou conta está com a língua destravada e desaviada à esquerda.
Desisto!
A língua do pé esquerdo do meu caro tênis de passeio, por mais que eu faça, insiste em deslizar adentro e para o lado, a me tirar o conforto e o sossego de pequeno burguês.