Posts from novembro, 2011

Vendem-se

 

 

 

            “Você compraria um carro usado dele?”

            A importância que os brasileiros damos ao automóvel já se tornou proverbial, e é tamanha que até mesmo se alçou a critério de aferição da idoneidade de alguém ou do grau de confiança que uma pessoa nos merece.

            Você compraria um carro usado dos nossos políticos e governantes?

            Com licença de Terêncio, sou brasileiro, e nada do que seja brasileiro é alheio a mim. Também gosto de automóvel, bem menos atualmente, mas ainda gosto.

            Nunca me esquece a ansiedade dos meus verdes 18 anos pelo primeiro carro, um fusca azul atlântico que meu pai me repassou ao comprar um novo, e que aos poucos incrementei com talas largas, rádio e cassete separados (o cassete ficava numa bandeja, abaixo do painel), volante pequeno de couro (que apenas dificultava ainda mais as manobras sem o conforto da tecnologia hidráulica ou elétrica), escapamento barulhento e outras firulas.

            Como Leonardo DiCaprio na proa do “Titanic” sentia-me o dono do mundo. Felizmente não encontrei nenhum iceberg pela frente.

            Com o tempo, e cada vez mais, o automóvel passou a ser para mim apenas um meio de locomoção, de que não posso prescindir diante da precariedade do transporte público.

            O trânsito irracional, a estupidez da grande maioria dos motoristas, a absoluta falta de solidariedade tiraram-me o prazer de dirigir, que apenas sinto rara e fugazmente numa noite de lua cheia, rodando por uma pista bem asfaltada e com pouco movimento, sem compromisso com a hora de chegar.

            Há mais de seis anos não trocava de carro, e não sentia a menor necessidade disso. O meu Honda Civic, que só uso na cidade e está com baixíssima quilometragem, me serve perfeitamente e bem poderia ficar com ele muitos anos ainda.

            Todavia, minha mulher (que, aliás, não dirige) e minhas filhas insistiram em me dar de presente de aniversário (que eu pagarei) um automóvel novo: “Você merece, deixa de ser ranzinza e pão duro”. “Daqui a pouco você vai entrar para a confraria dos colecionadores de carros antigos”.

            Comprei-o, afinal, repleto de tecnologia e com belas linhas. A burocracia está sendo cumprida e devo apanhá-lo no decorrer desta semana.

            Enquanto isso, sinto-me nostálgico por me separar do meu bom amigo, que me acompanhou todos esses anos.

            Não sei se isso possa ser classificado como traço materialista, mas costumo me apegar a coisas e objetos que uso durante muito tempo e que de certo modo parece que têm vida e fazem parte da minha vida. O mesmo está acontecendo com os óculos de míope, que uso desde os 17 anos e estou prestes a deixar de vez (opero também esta semana o outro olho).

            Um amigo de quando comecei a usar óculos, grande poeta, e que já carregava os óculos há vários anos, disse-me sabiamente naquela época que éramos privilegiados por poder enxergar o mundo com olhos míopes e com a visão normal (ou quase), corrigida pelas lentes.

            Quando vejo um automóvel ostentando a inscrição de “Vende-se” no vidro traseiro, fico penalizado com a insensibilidade do dono, ao fazer o próprio rejeitado anunciar o desapreço.

            Desse, jamais compraria um carro usado.