Ronald de Carvalho e Fernando Pessoa

 

         Adalberto de Oliveira Souza

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RONALD DE CARVALHO  E  FERNANDO PESSOA    

 

Adalberto de Oliveira SOUZA(UEM)[1]

 

Tenho tentado recuperar a importância de Ronald de Carvalho (1898-1935) em muitos ensaios que publiquei até agora, inclusive um no número 31 da revista Latitudes de dezembro de 2007, num artigo intitulado “A presença do Brasil no modernismo português”. Acredito que é imprescindível resgatar o mérito deste escritor e poeta devido à sua dedicação à formação de leitores no Brasil. Não se pode deixar de dizer que ele foi eleito “príncipe dos prosadores brasileiros” e que essa honraria na época em que viveu tinha repercussão bem relevante. Sua Pequena história da literatura brasileira, publicada em 1919, marcou a formação de toda uma geração de críticos, inclusive a de Antônio Candido que confessa ter-se impregnado dessas páginas em sua Formação da literatura brasileira.[2] Por isso quero aqui fornecer alguns detalhes e comentários de seus contemporâneos, antes de revelar, através de uma interessante carta dos inícios de 1915 (com a qual concluo este artigo), a relação intelectual que houve entre Fernando Pessoa e ele. Não há dúvidas que um leu o outro, embora não se conhecessem pessoalmente.

Em 1913, com 20 anos de idade, Ronald vai para a Europa, onde frequenta cursos de Literatura, Sociologia e Filosofia na Sorbonne, entra em contato com escritores e poetas ligados ao Simbolismo, lê ou relê Verlaine, Rimbaud, Francis Jammes, Rodenbach, Samain, e retoma a escritura de Luz gloriosa, que será impresso em novembro nas oficinas gráficas da Casa Crès et Cie. Mas esse livro só fica conhecido no Brasil e em Portugal no ano seguinte, comentado por Alceu de Amoroso Lima, Graça Aranha e Fernando Pessoa.

Povina Cavalcanti dá um depoimento sobre a gênese desse livro:

“Quando um quase menino daqui saiu, em 1913, com destino a Paris, onde o esperavam Felippe d’Oliveira, Álvaro Moreira e Rodrigo Octávio Filho – conta-nos este último – levou Ronald um livro de versos pronto para o prelo. Dias depois, num quarto de hotel, aos três poetas seus irmãos, Ronald dizia:

– Vocês se recordam de nosso último encontro aqui neste mesmo quarto, há uma semana, poucos dias após minha chegada? Trouxera eu do Rio um volume de versos, o primeiro de um tríptico projetado: Luz, Cor e Som. A opinião de Hermes Fontes sobre meu livro me estusiasmara. Julguei-o definitivo! No entanto, em uma semana tudo mudou. Desta mesa levei dois livros de Samain. Li-os de um fôlego. E na mesma emoção misturei aqueles versos com o ar que aqui se respira. Não é que eu sinto como Samain. Nem sei bem ainda o que se passou. Mas houve uma transformação! Queimei meus velhos versos no fogão do meu quarto. Viraram fumaça no céu parisiense. E aqui está o resultado, Luz Gloriosa, todo escrito nessa última semana.” ( 1957, p.28-29.)

Ronald de Carvalho teve uma formação clássica e francesa e de certa forma, impregnada do parnasianismo que grassava avassaladoramente na poesia brasileira daquela época. Chegando à Europa a sua visão de mundo transformou-se ou ele colocou para fora o que guardava de visceral, e eclético; demonstrando-o várias vezes na sua trajetória literária, pois assimilou bem o espírito europeu, a poética europeia da época. Em seguida, Ronald de Carvalho participou em São Paulo da Semana de Arte Moderna de 22, manifestação cultural de caráter extremamente nacionalista e ao mesmo tempo voltada para as vanguardas europeias, duas características que ele soube unir. Manuel Bandeira dirá dele: “Linhas nítidas e tonalidades claras que dão à toda a sua obra a ordenação e o brilho de um jardim, ainda que tropical, bem civilizado”.[3] No entanto, o seu cosmopolitismo apareceu cabalmente mais tarde em Toda a América, livro publicado em 1925, no qual ele acredita ter encontrado a voz do Novo Mundo, claramente envolvido pela poética de Walt Whitman. Esse livro acabou por ser o mais importante da sua obra ao lado de seus ensaios que revelam muita cultura e erudição.

Embora Alceu de Amoroso Lima tenha considerado que “ Luz Gloriosa não passara de um pecado ardente e capitoso de sua mocidade”, esse livro provocou certa comoção no meio literário, tanto português quanto brasileiro. Foi essa possivelmente a razão pela qual Ronald de Carvalho tenha sido convidado a participar do movimento da revista Orpheu, da qual acabou por ser diretor de seu primeiro número, tendo aí poemas publicados.

Graça Aranha também fala sobre o livro: “Disso exatamente é que precisamos. Luz, calor, mocidade, exaltação, exaltação, exaltação. Quero conhecer este rapaz. Aqui temos a voz da poesia nova do Brasil.”. E ele explica as razões:

 “A poesia de Ronald de Carvalho é a da transfiguração. A sua liberdade subjetiva não se detém diante da deformação, signo da libertação imagética que dá aos objetos e aos sentimentos a inversão reveladora da essência transcendente dos seres. Nesta libertação há fatalmente uma construção, e Ronald é um dos construtores espirituais do Brasil novo. Por ele se formará uma sensibilidade diferente da que até agora animava nossa terra. Deixará o Brasil de ser o lírico da tristeza, para ser o criador da perpétua alegria” (apud LIMA: 1942)

Vejamos um excerto de Luz Gloriosa de Ronald de Carvalho:

 

E chego…e me contenho…e o meu olhar se inflama

e outra vez…outra vez…para glória da Vida,

a eterna maldição de ser gelo e ser chama…

 

E também o soneto que agradou a Fernando Pessoa:

 

…E o veleiro partiu…para os longes, no Poente,

e o cais, poeirento e bom, ficou triste e vazio…

– A Saudade da luz e a Saudade da gente,

A invernia do olhar, e os nervos sem estio –

 

E, eu me deixei ficar, contemplativamente,

olhos cheios de Sol de outro flavo e sadio…

– Na fluida limpidez da tarde transparente

Setembro havia posto um colorido frio…

 

E o veleiro partiu, de velas soltas, no alto,

para a glória do Mar, na paisagem violeta

do Outono, entre calhaus e cimos de basalto…

 

E, com ele, foi, também, panda, num desvario

de asas brancas, para o ar, uma última goleta…

…E o cais, poeirento e bom, ficou triste e vazio…

 

A opinião de Fernando Pessoa a respeito desse livro e desse poema se encontra numa carta datada de 29 de fevereiro de 1915 (sic)[4]. É uma carta longa, que merece toda nossa atenção, pois revela o interesse e respeito do vate português por Ronald. Vejamos alguns trechos:

“Não sei que lhe diga do seu livro, que seja bem um ajuste entre a minha sensibilidade e a minha inteligência. Ele é deveras a obra de um Poeta, mas não ainda de um Poeta que se encontrasse, se é que um Poeta não é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra. Há imperfeições e inacabamentos nos seus versos. Vêem-se ainda entre as flores as marcas das suas passadas. Não se deveriam ver. Do Poeta deve ser o ter passado sem outro vestígio que permanecerem as rosas. Para quê os ramos quebrados, ainda, e partido o caule das violetas?

Eu não lhe devia dizer isto, talvez sem prefaciar que sou o mais severo dos críticos que tem havido. Exijo a todos mais do que eles podem dar. Para que lhes havia eu de exigir o que cabe na competência das suas forças? O poeta é o que sempre excede aquilo que pode fazer.

O seu Livro é dos mais belos que recentemente tenho lido. Digo-lhe isto para que, não me conhecendo, me não julgue posto a severidade sem atenção às belezas do seu Livro. Há em si o com que os grandes poetas se fazem. De vez em quando a mão do escultor faz falar as curvas irreais da sua Matéria. E então é o seu poema sobre o Cais e a sua impressão do Outono, e este e aquele verso, caído dos deuses como o que é azul no céu nos intervalos da tormenta. Exija de si o que sabe que não poderá fazer. Não é outro o caminho da Beleza.” ( apud SILVA: 1999, p.152.)

Mais adiante:

“Escrevo e paro…Pergunto a mim próprio se poderá julgar tudo isto, porque não é transbordante de elogios, uma crítica adversa. Não o conheço e não sei. Mas repare que só a quem muito aprecio eu escrevo destas coisas. Decerto me faça justiça de crer que a quem não tem nenhum valor eu digo imediatamente que tem muito. Só vale a pena notar os erros dos que são na verdade Poetas, daquele em quem os erros são erros. Para quê notar os erros daqueles que não têm em si senão o jeito de errar?” (apud SILVA: 1999,  p.153)

É reveladora essa carta de Fernando Pessoa. Mesmo não havendo nela um deslumbramento pela obra do ainda bem jovem poeta, há o reconhecer de suas qualidades, de seu valor estético. Isso não deixa de contribuir para a preservação da memória de Ronald de Carvalho, ele que foi relativamente importante para Portugal e de particular relevância para a história cultural brasileira. É de se crer que vale a pena ir adiante nessa pesquisa.

 

Ronald-de-Carvalho (1)

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CAVALCANTI, Povina. Viagem ao mundo da poesia. Encontro com Tasso da Silveira, Murilo Araújo e Ronald de Carvalho. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1957.

LIMA, Alceu de Amoroso. “Evocação de Ronald de Carvalho. Autores e livros” A Manhã, Rio de Janeiro, 7/6/1942.

SARAIVA, Antônio José. Iniciação à literatura portuguesa. São Paulo: Cia das Letras, 1999.

SILVA, Manuela Parreira. Correspondência (1905-1922). São Paulo: Cia das Letras, 1999.

CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1976.

 



[1] Professor associado de Literatura Comparada na Universidade Estadual de Maringá (Brasil).

[2] 5a. Ed., Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ Edusp, 1975.

[3] Grifo nosso.

[4] É interessante notar que 1915 não foi um ano bissexto.

 

 

 

3 comentários

  1. 30/04/13 at 22:46

    Muito interessante, meu amigo!
     
    Abraços

  2. Antonio Carlos A. Gama
    30/04/13 at 23:40

    O pequeno ensaio de Adalberto é magnífico e, como o próprio autor diz, busca recuperar o importante papel de Ronald de Carvalho.
     
    Mas onde aparece Fernando Pessoa, vem sempre junto uma dúvida, um enigma, um artifício.

    A carta por ele escrita a Ronald de Carvalho é datada de um dia que não existiu, 29 de fevereiro de 1915, já que o ano não foi bissexto. Mero lapso, apenas uma brincadeira ou alguma intenção oculta?

     

    Vale lembrar o não encontro de Pessoa com Cecília Meireles, e aquele obscuro episódio dele com o mago, horoscopista, ocultista e espião Aleister Crowle, a quem Pessoa teria ajudado a simular o suicídio para escapar das tantas trapalhadas em que se metera.
     

    Consta que o próprio Pessoa se dizia um cristão gnóstico, adepto dos princípios puros dos Rosas-Cruzes e dos Templários e até teria se iniciado na Ordem Templária de Portugal.

     

  3. Célia Soares
    01/05/13 at 14:28

    Texto que nos instiga, como sempre, abraço.

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