Olhando da janela

 

               Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Da janela, fico olhando o céu, de dez em dez minutos. Céu cinzento, nublado, céu de verão. Parece que mais tarde irá chover, sei não. Já não chove como antigamente, com trovoadas e raios, chuva aos potes estralando na calçada, até que, amainando, surgia o arco-íris. Então, os urubus vinham pousar na cumeeira dos telhados, e abriam as asas, para secar. 

Hoje, até os bem-te-vis estão mudos, são três horas da tarde. A preguiça se espicha no sofá, neste calorão dos diabos, que nem o ventilador ligado refresca.

Calor demais é indecência. Frio demais é chato. A vida é chata.

Acendo um cigarro, e logo mais acenderei outro.

Não quero estar com amigos, nem inimigos, afetos ou desafetos.

Ler jornal, neste dia, faz mal para a saúde. Assistir à televisão é aborrecer-se.

Torno a espiar o céu. Ele não muda, parece a Cena Muda, uma revista, também de muitos outroras.

Se o telefone tocar, dou um tiro nele.

Já me aconselharam um banho de cheiro, de ervas aromáticas. Mas eu não sou pernil em vinha d´alho.

Um cachorro late ao longe, outro cachorro late mais longe.

O que eu queria mesmo, aqui, no meu quintalejo, era um galo que cantasse.

Sento-me diante do tabuleiro de xadrez e jogo uma partida de xadrez com um fantasma. O fantasma ganha.

Espio de novo o céu.

Chegará a noite com a sua rima de açoite.

Na rua, não passa ninguém, graças a Deus.

A última vez em que li Virgílio, ele quadrupedava num charco.

Camões anda de carrinho de rolimã, na Mouraria.

O domingo é chato como carrapato.

 

urubus 2

 

 

 

7 comentários

  1. sonia kahawach
    02/09/13 at 11:32

    Daqueles comentários cheios de poesia e vida real que Annibal sempre fez com maestria. Saudade do tempo – que já vai longe – quando eu chegava em Ribeirão e ele me dava pra ler seus álbuns de escritos todos deliciosos. 
    O comparativo do “pernil em vinha d´alho” é genial rsrs. E a foto dos urubus secando as asas pós chuva, é a ilustração perfeita para o texto. 
    Permanece minha admiração de sempre pelos escritos e pela pessoa que Annibal sempre foi e será.

  2. 02/09/13 at 18:08

    Ah, um galo para tecer as manhãs (com os fios de sol do canto dos outros galos)… Também queria um ‘exemplar’, Dr. Annibal. Ainda que os neuróticos de plantão na vizinhança reclamassem. 
    Tenho uma grande amiga com tratado sobre o entardecer de domingo. — Ele me oprime a alma, Selminha – diz com uma langueur monotone digna de Verlaine.
    Agora, vem cá: quem consegue imaginar Camões de rolimã na Mouraria tem tudo. Nem o céu é limite, garoto.
     
    Beijocas!
      

  3. Grazieli Guidi
    02/09/13 at 19:04

    …O domingo é chato como carrapato.
    Acho que foi a melhor definição para “domingo” que eu já ouvi!
    Adorei o que li.

  4. André
    02/09/13 at 20:08

    Gama, eu adoro os textos de seu pai que são como um alento para minhas segundas-feiras – olha aí outra coisa que temos em comum, mais do que eu imaginava: assim como você, também detesto a segunda-feira, acho um dia extremamente cansativo e preguiçoso. 
    Seu pai escreve toda sexta-feira no jornal e também me delicio com a leitura de suas crônicas.
    Abraçaço.

  5. 02/09/13 at 20:41

    Acabo de levar um pito da minha amiga. Sua frase lapidar é “o crepúsculo dominical me oprime”. E ai de quem discordar.

  6. paulinho lima
    03/09/13 at 0:20

    Annibal, o mestre
    Estamos diante de uma crônica / prosa / poema. Que mistura. Coisa de craque. Trabalhar metáfora é obra de quem a sensibilidade, floreia sentimentos.
    Ser sensível esse Annibal. Não embarco na melhor passagem. Fico com todas. E vou reler a fala do Annibal: ouvindo Mozart (minha nova paixão), curtindo clarins angelicais e fumando o último do dia. Com certeza da mesma marca que o mestre acendeu.

  7. Paulo Sérgio
    05/09/13 at 14:02

    Não conhecia Annibal. Fiquei encantado com o que li. Demais!

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