“Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir.
Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons.
Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda.
Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes.
Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar.”
Fabrício Carpinejar
Gama, como dizia o Maestro Soberano, “é impossível ser feliz sozinho”. Podemos até ficar sozinhos em alguns momentos, mas sem os amigos é impossível ir-se à frente. Sempre é bom ter a companhia de alguém.
Abraçaço.
Desde muito garota eu queria morar sozinha. Acabei nunca conseguindo pois me casei cedo, tive filhos cedo, tive familiares próximos para cuidar. Assim, ainda não sei se ficar só não seria algo que me completaria. A solitude ainda é algo que me fascina, pois não creio que eu seria triste em solidão total. Na forma comentada no texto do Carpinejar, há um significado implícito de solidão. E a solidão pode realmente ser triste e amedrontadora. Daí tenho de confessar que já me senti muitas vezes só, cercada de pessoas e isto dá a sensação de ser roubada nos sentimentos.
Meu filho, se o seu maior medo é/são isso, tenho boas notícias: é perfeitamente possível sobreviver! Agora, se você exigir algo mais do que sobreviver, terá que percorrer o caminho daqueles que não se importam em trabalhar duro para construir sua felicidade, porque até, ou principalmente, para ser feliz é preciso esforço, e um tanto de sabedoria. Da minha parte, prefiro que você continue nesse impasse, nos presenteando com um texto bonito como este!
A diferença entre um texto de autoajuda, como os que pululam na rede, e este do Fabrício… é a mão do poeta Carpinejar:
“Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço.”
Belo garimpo, Antonio!