O bilboquê

 

            Annibal Augusto Gama

Annibal fumando

 

 

 

 

 

 

 

Está na prateleira, ao lado das garrafas de bebidas. De vez em quando olho-o, mas não me animo a pegá-lo e a manipulá-lo. Perdi o jeito de embocar a bola, pendurada num cordão, na haste. Os meninos e as meninas que hoje são velhos eram muito hábeis com o bilboquê. Mas ele desapareceu, como desapareceram os carrinhos de rolimã e os piões. Os brinquedos mudaram, são muito outros. Há alguns meses, vi um pescador lançar ração a mais de cinqüenta metros, do outro lado da margem do lago aonde vou pescar. Impossível, como é que ele conseguia fazer aquilo? Dirigi-me então até ele e vi que, para lançar tão longe a ração, ele usava um estilingue. Os pescadores são inventivos e hábeis.

Com que brincam os meninos, hoje? Brincam com bonecos sofisticados e com aparelhos eletrônicos. Não sabem fabricar os próprios brinquedos. Não trazem no bolso o canivete marca corneta. Não sobem nas árvores. Nos regos, não fazem pontes para as formigas passar. As calçadas, nas ruas, já não são propícias para as danças e as cantigas de roda. Coelho sai! Não sai! O coelho não sai mais. Também, acabaram os quintais e os cavalos de pau, feitos de um cabo de vassoura. O assobio, o assobio, com que trocávamos mensagens de um quintal a outro, já não os ouço. Sentados diante da tela da televisão, ou do micro, os meninos se embasbacam. E onde foram parar as bolinhas de gude?

Fui soldado, creio que capitão, de uma guerra de mamonas, lançadas contra a hoste inimiga com as atiradeiras. As bolas de meia, e depois de borracha, com as quais jogávamos futebol nas ruas, não existem mais. As mães já não gritam da janela: “Olhe o sereno, menino! Já pra dentro!” 

Nas noites de chuva, brincava-se de esconder dentro de casa. Uma noite escondi-me dentro de um guarda-roupa, entre travesseiros com cheiro de alfazema, e adormeci.

Mas de manhã o sol voltou a aparecer, e fomos riscar na calçada, com carvão, a sua carantonha.

As enxurradas corriam pelas sarjetas, e íamos lançar nelas os barquinhos de papel.Todos os barquinhos naufragaram. O menino de ontem é hoje um velho obsoleto.

 

barquinho de papel

 

“O barquinho” (Ronaldo Bôscoli / Roberto Menescal), com Stacey Kent

 

 

 

4 comentários

  1. sonia kahawach
    14/07/14 at 15:35

    Jamais um velho obsoleto! Essas questões, esses brinquedos antigos fazem parte de nossas lembranças e doces saudades. Não consigo nem explicar para meus netos algumas brincadeiras antigas, pois eles não conseguem atinar do que estou falando. Mas não tem importância. Tudo fez parte da história de nossas vidas, muito bem vividas e sentidas.

  2. paulinho lima
    14/07/14 at 16:12

    Maravilha , Annibal. Simples como nossos brinquedos de criança. Tive a sorte de ser filho de D. Dalva uma craque na arte do Bilboquê e na “Perna de pau”, mas D.Dalva era craque no jogo de “cama de gato”, aquele que coloca um pedaço de barbante entre o os dedos e passava de mão em mão. Aprendi, D.Dalva me ensinou tudo. Só não fui prá frente na “perna de pau”. Como brinquei de anel e pulei carniça , enfim, amigo, vou sair daqui e convidar meu neto para pular amarelinha…e ou jogar queimada..até acho que esses dois sobreviveram.
    Maravilha de texto e lembrança. Absoleto??????????
    paulinho

    Em tempo: Era craque com as minhas atiradeiras e minha munição era as mamonas e caroço das amêndoas…acertei muito bumbum distraído…

  3. Lúcia Helena Vieira Dibo
    14/07/14 at 18:13

    Maravilhoso texto, Dr. Annibal!
    Um senhor-criança que me encanta.
    Um enorme abraço com gosto de infância.

  4. André
    15/07/14 at 14:07

    Gama, essa crônica de autoria de seu pai é genial – como se isso fosse novidade. E a música que você postou é um clássico da bossa nova, talvez seja uma das melhores (senão a melhor) representativa do movimento.

    Abraçaço.

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