DESFAZENDA
Brenno Augusto Spinelli Martins
Ah, que vontade que eu tenho
de desatropelar os cachorros
que são tão atropelados
pelas ruas e estradas…
Queria – e a vontade é tanta…
desencabrestar minha égua
(o nome dela é Samanta)
para correr reluzente
em vastos prados distantes.
Ah, eu queria tanto
desabortar as crianças
que se tornam desnascidas
antes mesmo de nascer,
nos descaminhos da vida.
Outra coisa que eu queria:
desesquecer a lembrança,
pra trazer de volta o tempo
e os folguedos de criança.
E eu queria ainda
desendurecer o coração
pra amaciar o amor
e esbanjar o perdão.
Queria desinventar
os desencontros do amor,
desapodrecer a romã,
desenvenenar a maçã
que a bruxa dá à Branca de Neve,
desembranquecer a neve,
desdesbotar o verde,
desescurecer a noite
que foi te encontrar escura
e desamargar a amargura.
Desabandonar os velhos sós,
desatar todos os nós,
descalar a nossa voz
e desescutar os prantos.
Desamordaçar as bocas
para que ecoem os cantos
pelos cantos e desvãos
de todos desfiladeiros,
deseconomizar dinheiro.
Desalvorecer os dias tristes
pra que só amanhecessem
domingos ensolarados.
Desenferrujar as clavilhas
pra que o som do violão
saia sempre afinado
com as cordas do coração.
Eu queria – ah, que vontade!
desentristecer as mulheres…
que a alegria – elas não sabem –
é sua melhor virtude.
Quanto a mim, o que mais quero
é desmorrer, sim, desmorrer !
que a vida é uma coisa louca,
é uma grande desfazenda.
Entrada do sítio do Brenno, com o cachorro Ramon se achegando
E nesse ar de bucólico interior
Esquecer da correria da vida
Perdida na cidade grande
E sentir um cheiro de mato
Com sabor de terra molhada…
Brenno e Claudia, que tal “descasar”? Vocês vêm para nossa casa na praia e nós vamos para o sítio?
Inspiração no pacote.
Desmorrer, sim!
Pura poesia em exercício!
Lindo, amigo querido.
Brenno, tantos anos de cumplicidade, meus poemas são um tanto teus, como os teus são um tanto meus.
Este, porém, é você tão inteiro, que me ponho de lado, sentado à beira do caminho, dessa desfazenda louca em que vamos indo.