Sabores inusitados

 

 

                        Modesto apreciador de vinho, ainda engatinho nos seus mistérios, sempre amparado pela mão segura do meu amigo Roberto Rockmann, ele, sim, um expert.

                        Apesar do meu noviciado e do pouco talento olfativo (em que pese o nome, sou incapaz de discernir toda a gama de aromas preconizados), acontece-me com o vinho o mesmo que com a música. Embora tenha tipos preferidos de um e de outra, o sabor de ambos tem muito a ver com o momento e o estado de espírito.

                        É claro que há vinhos e músicas que sempre nos fazem bem, ou  intragáveis em qualquer circunstância, mas às vezes somos surpreendidos e nos sentimos inebriados com um espécimen inopinado, e nisso está toda a graça da coisa.

                        Com filmes isso também pode acontecer (não consigo deixar de assistir, quantas vezes passem na TV, e mesmo já indo adiantados, A Primeira Página, Quero ser grande, Meu Querido Presidente, De volta para futuro, ET e alguns outros filmes do gênero, que são para mim um refrigério), mas com livros o fenômeno não ocorre, pois sua leitura sempre se estende no tempo e, se não me afeiçoa a obra, o momento passa, o estado de espírito volta ao normal, e acabo por abandoná-la para avançar em outra, mais apetitosa.

                        Na minha recente viagem, fartei-me de bons vinhos, mas o instante mágico e inesperado ocorreu numa pequena garrafeira, denominada Alfaia, no Bairro Alto, em Lisboa. Sentado num modesto banquinho à porta do estabelecimento, e com dois outros servindo de mesinha, passei algumas horas de raro encantamento e prazer, comendo petiscos locais, como presunto cru e azeitonas, e bebericando um vinho branco (embora prefira os tintos), que caía maravilhosamente, como a tarde que se alongava enquanto a noite preguiçosa tardava. O nome do vinho (que anotei, para que mestre Rockmman talvez me diga alguma coisa) é Erva Pata, safra de 2005, da Agrícola Ribeiro Correa, região da Estremadura.

                        Assim também com alguns gêneros musicais pelos quais não tenho especial predileção, mas que em determinados lugares e momentos tornam-se um deleite.

                        Ainda agora, enquanto trabalho na minha estreita toca em casa, ouvindo música pela internet, como costumo fazer, eis que começa a tocar Beijo Roubado, de Adelino Moreira, numa interpretação deliciosamente kitsch de Ângela Maria, com suspiros e protestos débeis, negando-se ao beijo que lhe foi roubado (mas que afinal tem mais sabor). Aliás, Adelino Moreira tem uma obra musical vastíssima, grande parte dela gravada por Nelson Gonçalves, que mereceria um estudo sem preconceito, assim como as inúmeras composições da dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorin, entre as quais a não menos deliciosa Brigas, que tem uma gravação antológica de Altemar Dutra e Cauby Peixoto, cantando juntos.

                        Nem mais me lembrava do Beijo Roubado, que tocava muito em serviços de alto-falante, parquinhos, quermesses e outros locais ou zonas menos familiares de antanho, para onde fui transportado tão logo comecei a ouvir a melodia.

                        De volta para o presente, suspendi temporariamente o trabalho para rabiscar estas baboseiras, pelas quais espero ser perdoado, como o ladrão de beijos.

 

 

 

4 comentários

  1. Lilian
    12/08/09 at 22:09

    Beijo roubado… acho que não conheço a música. Mas conheço um beijo roubado. Um, não. Dois. Um desejado e “temido” (que além de ser roubado foi o primeiro), o outro inesperado e indesejável. Sempre há que se perdoar um beijo desejado, mas aquele que jamais se esperaria… esse não tem perdão. A sensação é realmente de que fomos “roubados”, invadidos. Pensando bem, dá pra perdoar, sim. Mas com todo o cuidado daí pra frente, não proporcionando novas oportunidades. Sabe aquele “segredo” ruim de guardar e, pior, de compartilhar com o “infrator dos bons costumes”? É assim um beijo roubado indesejado. O pior é que a lembrança praticamente cola em você; difícil esquecer quando alguma coisa lhe foi roubada, ainda mais algo tão íntimo…
    Quanto aos vinhos, vivo comprando marcas diferentes para ver se acerto uma. Nunca consegui; aquele vinho que adorei em Águas de São Pedro só deve ter lá. Aquele outro, de Santa Felicidade, também. E aquele das montanhas do Espírito Santo? Nunca mais. Talvez seja o lugar que dê sabor ao vinho.
    Filmes prediletos? Sempre assisto novamente O Fantasma da Ópera (principalmente para ouvir as músicas e suas representações, gosto especialmente quando o Fantasma sequestra a mocinha) e não me esqueço de Força Aérea Um, porque traz Harrison Ford em sua melhor forma… e, pra mim, no melhor papel de sua carreira).
    Música… atualmente tenho ouvido muito, no carro, o CD que o senhor me trouxe de Portugal; ainda não aprendi todas as músicas porque quando gosto muito de uma, fico ouvindo só aquela, talvez umas cinquenta vezes… rsrs Também gosto muito de Fagner, por causa da poesia; mas não tenho CD, só o DVD de um show que, bem lembrado, vou assistir agora!
    Boa noite, Professor!

  2. 13/08/09 at 14:32

    Minha ignorância sobre o mundo de vinhos é muito maior que o parco conhecimento dessa arte. Não conheço o produtor, nem a região de estremadura, apenas sei que é uma nova fronteira, antes conhecida pelos vinhos rústicos.
    Portugal tem alguns dos vinhos mais interessantes do mundo, assim como nomes de uvas, produtores, e vinhos dos mais interessantes. É um dos países que ainda mantêm as tradiçoes de uvas autóctones, plantando de maria gomes a bical, passando por uvas pouquíssimo conhecidas, o que num mundo globalizado é uma bênção.
    Há um produtor da Bairrada chamado Luís Pato com vários vinhos a preços ridiculamente baixos com ótimos brancos com várias uvas autóctones. O Maria Gomes dele por R$ 40 é uma pechincha.

    • Antonio Carlos
      13/08/09 at 17:05

      Meu caro mestre enologista,

      Como Sócrates, diz você que quanto mais sabe, mais se convence de que nada sabe sobre o complexo e formidável mundo dos vinhos. Mas as informações preciosas acima prestadas revelam que o seu saber é vasto, e valioso para nós outros, seus aprendizes.
      Acho que tive a sorte, por indicação do dono da Garrafeira, de saborear um daqueles vinhos tradicionais e de uvas autóctones a que você se refere.
      Um abraço.

  3. sonia kahawach
    14/08/09 at 11:29

    Não tenho nenhum preparo ou condições de comentar sobre vinhos, principalmente com mestres como v. e seu amigo rockmann.
    A única coisa que entendo sobre eles é que são deliciosos, principalmente um tinto bem seco, pra bebericar e passar horas de convivência com gente que se gosta e se tem afinidade.
    Músicas… geralmente quanto mais antigas melhores, com um vinho especial acompanhando…. hummmm que inveja!
    Segundo meus netos sou muito brega para músicas, mas não me importo muito com os adjetivos. Curto demais todos os meus antigos e bregas hahahaha

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