Eu, pecador

 

 

 

                        Já escrevi antes aqui sobre a infidelidade de Tiger Woods e o que penso a respeito (Tigre em banco de areia, 16/12/2009).

                        Tiger Woods acaba de se submeter a uma expiação pública, pedindo desculpas a todos, mulher, família, patrocinadores e até aos jovens que o têm como ídolo esportivo. Disse ter sido o único culpado, irresponsável, egoísta e que continuará a terapia a que se submete desde dezembro. Não estabeleceu data para retornar ao golfe, a meu ver o único assunto de interesse público.

                        A proverbial hipocrisia conservadora das sociedades anglo-saxônicas não se contentaria com menos. Não importa que o assunto seja exclusivamente da alçada íntima dele e da mulher, já que não cometeu nenhum crime, como se relacionar com menores ou usar drogas. Nem basta reconhecer o erro, sendo preciso se humilhar, pedir clemência e se demonstrar arrependido publicamente.

                       

Tudo isso está admiravelmente retratado no romance  Desonra(Disgrace, o título original, me parece mais sugestivo e apropriado), de J.M. Coetzee, escritor de origem sul-africana, de língua inglesa, ganhador do Nobel de Literatura em 2003 e de dois Booker Prize (um deles, em 1999, exatamente por Disgrace).

 

 

                        

                        A história se inicia com a queda em desgraça de David Lurie, professor de línguas modernas da Universidade Técnica do Cabo, que pensava ter resolvido muito bem o problema de sexo, graças aos encontros semanais — “um oásis de luxe et volupté” — com uma prostituta, com a qual partilhava, além do sexo, uma certa afeição desenvolvida ao longo do tempo.

                        Com a repentina interrupção dessa rotina prazerosa e cômoda, acaba por manter um caso — consensual, diga-se — com uma de suas alunas do curso especial sobre poetas românticos por ele ministrado, o que lhe acarreta uma acusação de abuso. A moça chama-se Melanie Isaacs e tem 20 anos, sendo ele divorciado, com 52 anos. Dois adultos, portanto, maiores e desimpedidos.

                        Lurie declara-se culpado, mas se recusa terminantemente a seguir o padrão hipócrita dos códigos politicamente corretos do ambiente universitário, e assinar uma declaração que lhe é exigida, para salvar o emprego.

                        Vale a pena transcrever algumas de suas palavras diante da comissão instaurada para apurar os fatos e recomendar as medidas que deverão ser tomadas pela reitoria. Ao lhe ser indagado se procurou aconselhamento legal, de um padre ou terapeuta e se estaria preparado para receber tal aconselhamento, responde:

                        “Não, não procurei nenhum aconselhamento, nem pretendo procurar. Sou um homem adulto. Não sou receptivo a conselhos. Não confio em aconselhamentos. Já dei minha declaração. Existe alguma razão para que este debate continue?”

                        Em face da insistência dos membros da comissão para que expusesse claramente o que pensava, diz:

                        “O que eu estou pensando só diz respeito a mim mesmo, Farodia (nome de uma professora integrante da comissão, que antipatiza com ele). Francamente, o que vocês querem de mim não é uma resposta, é uma confissão. Bom, não vou confessar nada. Já me declarei, como é de meu direito. Culpado, conforme as queixas. É o que tenho a dizer. É só até aí que estou disposto a chegar.”

                        E mais adiante, ao ser  instado  outra vez a admitir seu erro e se demonstrar arrependido, para que a comissão julgasse se isso refletia seus sentimentos sinceros:

                        “E você se considera capaz de adivinhar, a partir das palavras que eu usar, de adivinhar se estou sendo sincero?

[…]

                        “Eu disse as palavras, mas agora você quer mais, quer que eu demonstre a sinceridade delas. Isto é ridículo. Fica acima do alcance da lei. Para mim basta. Vamos seguir as regras. Eu me declaro culpado. É até aí que eu vou.”

[…}

                        “Compareci perante um tribunal oficialmente constituído, perante um braço da lei. Perante este tribunal secular, me declarei culpado, uma declaração secular. Essa declaração deveria bastar. Arrependimento não tem nada a ver com uma coisa, nem com outra. Arrependimento pertence a outro mundo, a outro universo de discurso.”

                        É claro que, diante dessa postura, Lurie acaba perdendo o cargo e se torna um pária entre seus antigos pares, o que o leva a se refugiar numa pequena fazenda da filha, no interior, onde, em contraste com a alheamento do meio acadêmico, se verá submetido à realidade crua e brutal de uma África do Sul pós-apartheid, permeada por ódios, incompreensões e ressentimentos de toda ordem e de toda a parte.

                        Essas reflexões e revelações corajosas custaram caro ao próprio Coetzee, que passou a ser  tido como um traidor, caído em desgraça, por grande parte dos negros e brancos da África do Sul.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7 comentários

  1. sonia k.
    23/02/10 at 12:25

    Sou totalmente de acordo com a posição do prof. Lurie.
    E em total desacordo com a pretensão dos que se acham na condição de justiceiros e requerem confissões, humilhações e outros afins.
    Acho que a individualidade e sentimentos devem ser preservados acima de tudo. Como se julga traição? E de outros?
    Cada um é responsável por seus atos e não é da conta de ninguém julgar e requerer desculpas públicas.
    “Eu me declaro culpado e é até aí que vou.”
    Que atire a primeira pedra.

  2. 23/02/10 at 17:15

    Mas aqui, entre nós, ninguém se declara culpado. Quando muito, dizem: “Todos fazem”. Veja o caso do Arruda: Ele se declarou culpado? E os outros, que enfiaram o dinheiro debaixo das meias?

    • Antonio Carlos
      23/02/10 at 18:09

      Pois é, meu poeta maior, por aqui tudo é mesmo bem diferente, o que torna ainda mais admirável a firmeza de caráter do personagem de Coetzee, que tem outro livro extraordinário e amargo sobre princípios e valores morais: “À espera dos bárbaros”. Não sei se você já leu algum deles, mas creio que lhe agradariam muito.
      Enquanto isso o herói brasileiro, “sem nenhum caráter”, de Mário de Andrade, designação incompreendida pela maioria, parece ter dado ensejo a homens simplesmente sem caráter (o que é muito diferente), como os Arrudas da vida, triste vida.

  3. Lilian
    24/02/10 at 0:12

    Como nos bons romances policiais, eu perguntaria: “A quem interessa?”
    Essa estória do Woods me faz lembrar do Bill Clinton. Ele pode ter feito qualquer coisa de valor para o povo americano, mas será sempre lembrado pelo episódio Monica Lewinski. Talvez seja a esse tipo de questão que a turma do mal recorre quando não encontra outro meio de atacar alguém.
    Quanto ao “Desonra”, andou bem o personagem; eu, como autocondecorada emérita chutadora de barracas, faria o mesmo ou pior. Difícil entender o que leva um ser originariamente humano a tornar-se patrulheiro da vida alheia. Ao inferno com essa gente! Quem não consegue ter uma vida divertida devia simplesmente tentar viver ou olhar pra si mesmo, porque, afinal, cada um é responsável pelo seu próprio circo.
    Então, “a quem interessa?” será sempre uma questão muito boa a ser respondida.

  4. carolinagama
    24/02/10 at 13:56

    Pois é, e a repercussão da tal desculpa pública nos canais de notícias (de CNN a E!) é a de que tudo foi mto robótico e formal, queriam lágrimas, emoção, etc. Ou seja, não basta o cara pedir desculpas, ele tem q “verdadeiramente” aparentar arrependimento. E ainda chamam uma batelada de técnicos para comentar cada cena do tal discurso do Tiger…de Tiger a gatinho indefeso. Tem dó…
    Pai, um beijo, Carol

  5. 25/02/10 at 19:49

    Por que o Coetzee é tão mal visto em amplos setores na África do Sul? Só por conta das reflexões do livro?

    • Antonio Carlos
      26/02/10 at 10:54

      Pelo que sei, a indisposição contra Coetzee deriva das suas duras críticas às mazelas da sociedade pós-apartheid da África do Sul. Além do romance Disgrace ou Desonra, ele foi ainda mais contundente em outro, À Espera dos Bárbaros, uma explêndida alegoria sobre o autoritarismo e a anomia (e anemia) moral que ele identifica atualmente na África do Sul, tanto por parte dos brancos, quanto dos negros. Em razão disso está no pior dos mundos: para os brancos é um traidor e para os negros, racista.

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