Nestes dias de porre de futebol e de ressaca com o seleção nacional (mesmo que jamais tenha empolgado, a derrota é sempre uma decepção), insone e zapeando com o controle remoto numa hora morta da madrugada, deparo num dos canais a cabo (creio que o Cine Max), com o início de um filme da nova safra argentina, mas já de algum tempo (1999), com o lindo título acima, que jamais tinha ouvido falar (parece que nem chegou a ser lançado no circuito brasileiro).
Surpresa maior, nos créditos iniciais logo vejo que o diretor e coautor do roteiro é o mesmo Juan José Campanella, e o casal protagonista interpretado pelos mesmos Ricardo Darín e Soledad Villamil, de O Segredo dos Seus Olhos, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro este ano e que tanto me agradou. Vergonhosamente o filme até hoje não foi exibido pelos cinemas de Ribeirão Preto, dita capital da cultura(?), mas já se pode encontrá-lo em DVD.
O Mesmo Amor, A Mesma Chuva também me pareceu delicioso, e um verdadeiro embrião de O Segredo dos Seus Olhos, embora este, realizado 10 anos depois, seja uma obra mais madura, complexa e refinada.
Mas ambos têm muito em comum, especialmente a história de amor permeada pela vida cotidiana com seus pequenos dramas, enquanto grandes transformações acontecem no país, na década de 1980.
Jorge (Ricardo Darín) é um escritor de talento, mas que sobrevive produzindo contos românticos para uma revista de variedades, chamada Cosas — uma espécie de Caras —, que os próprios redatores e colaboradores não levam muito a sério, tanto que a chamam entre eles, jocosamete, de Cositas.
A charmosíssima Soledad Villamil protagoniza Laura, a quem ao cair de uma noite Jorge observa enternecido entregando-se à carícia das gotas de chuva durante uma tempestade de verão.
Pouco depois, Jorge assiste a um curta-metragem baseado num dos seus contos, no qual Laura é a atriz principal. O filme metido a vanguardista o desagrada e constrange, mas o que se salva é a atuação e a presença encantadora de Laura em cena. Eles se aproximam e iniciam uma relação que com o tempo se desgasta, em meio às desilusões crescentes com os rumos do país e das cobranças de Laura para que Jorge se dedique de vez à sua vocação de escritor, vencendo os receios e o comodismo que o impedem de mergulhar com convicção no ofício literário.
Cada um segue seu caminho, sobrevém a dolorosa guerra das Malvinas, a redemocratização cambiante do país. No início dos anos 1990, marcados pelo logro da era Menem, um Jorge amargo e ressentido continua a escrever contos insossos e resenhas encomendadas de críticas, ao passo que Laura tornou-se uma bem-sucedida produtora cultural.
O reencontro dos dois acontece numa outra noite de chuva, e talvez ainda haja tempo para que recuperem as afinidades e reavivem a chama do amor e do desejo que parece não ter se apagado de todo.
Sempre fui um sentimentalão, e isso se acha agora exacerbado desde o nascimento da Manuela. De todo modo, o filme me emocionou muito, não só pelas atuações mais uma vez primorosas de Darín e Soledad (há uma sintonia fina entre os dois, que Campanella soube captar e cuidou de repetir a dupla em O Segredo dos Seus Olhos), mas também pelos ótimos diálogos recheados de fino humor, pelos marcantes personagens secundários, e sobretudo pela esperança de que os reencontros sejam possíveis, que a amizade e o amor quando verdadeiros estejam sempre dispostos a começar de novo, aprendendo com os erros do passado.
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Pelo que v. contou tenho certeza de que iria adorar ver o filme.
Ser romântico, sentimental, piegas,até dramático (por que não?) faz parte de nossa família. São sentimentos que creio termos encravados na alma. Lógico que com uma recém Manuela a bordo, há motivos para exacebar. Mas o título do filme me levou a viajar na imaginação e até escrever um pouco sob o mesmo. De qualquer maneira, mesmo que as duas formas – amor e chuva – sejam sempre renováveis, são os mesmos que vêem e vão e retornam. Gosto quando v. mescla comentários sobre matérias diversas com colocações pessoais suas.
…”e sobretudo pela esperança de que os reencontros sejam possíveis, que a amizade e o amor quando verdadeiros estejam sempre dispostos a começar de novo, aprendendo com os erros do passado.”
Belíssimo o texto todo, mas me tocou especialmente este final. Meu comentário é chato (rsrs): só alguém que nunca passou por uma separação traumática (existe alguma que não seja?) pode acreditar que os reencontros sejam possíveis.
Aprender com os erros do passado, sim, claro. Mas como fechar as chagas abertas por tais erros? (Me recuso a voltar ao terapeuta… Nem pensar! rsrs)
Só ao final da minha vida saberei como termina essa estória. Pena que não consigo ser assim tão otimista (e romântica!) como o senhor.
Parabéns pelo escrito e pela postura, esse ponto de vista. É bonito!
grande dica, quero ver.. mas chequei no site da HBO e infelizmente não há mais exibições previstas..
Não foi na HBO que assisti, creio que foi no Cine Max (pertence à HBO?), mas também verifiquei que não há outra exibição prevista.
Mas acho que não é difícil encontrar o DVD, para comprar ou alugar.