Fazia algumas horas que a ceia natalina terminara e todos os convivas já tinham ido embora ou estavam dormindo.
Enfarado de tanta comida e bebida, ele ficou sozinho na sala, bebericando um cálice de Porto enquanto folheava um livreto com o texto original e diversas traduções de O Corvo, de Poe. Uma delas era a de Machado de Assis:
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”
A leitura da primeira estrofe da versão de Machado de Assis lembrou-lhe um dos seus contos mais extraordinários, Missa do Galo, cujo início sabia de cor. Fechou os olhos e repetiu em voz alta:
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal.
Tomou mais um gole do Porto ainda com os olhos fechados e quando os abriu deu com ele sentado no sofá ao lado, como se o escutasse e estivesse ali desde sempre.
Vestia uma túnica que parecia branca, mas deixava entrever nuances azuis, verdes, amarelas, púrpuras e muitas outras mais.
Não se inquietou nem se surpreendeu com a presença. Tudo lhe parecia absolutamente natural, e com naturalidade se puseram a conversar como velhos amigos.
A certa altura disse ao visitante:
— O problema é que você é cheio de mistérios e muito complicado!
— Engano seu. Os outros é que me complicam e criam mistérios sobre mim, respondeu serenamente.
— Como os outros? Para começar essa história de ser ao mesmo tempo três e um só é complicada e difícil de entender…
— Difícil por quê? E com a paciência de um professor calejado prosseguiu:
— Quantos lados tem um triângulo? Aliás, atualmente você também é três: filho, pai e avô. Se contarmos o espírito, a alma ou o nome que queira dar, você então será quatro. Se você pode ser quatro, por que não posso ser três?
Olhou novamente para ele, que havia tomado as feições de árabe do seu avô materno, de bigode, terno e chapéu. Disse-lhe isso e ouviu em resposta:
— Você me vê do jeito que quer. Não é assim com todos?
Agora ele era Vinicius de Moraes, de óculos escuros, grisalho e cabeludo, rodando o gelo do copo de whisky.
— Mas você bebe? Isso não é proibido lá?
— Nada é proibido, e nada faz mal lá. Por isso é o paraíso.
— Mas então morrer será ótimo, gracejou.
— E quem lhe disse que morrer é ruim? Somente será para quem acredita que é o fim de tudo, que não tem mais nada depois.
— Mas então por que tanta proibição, tanto pecado, tanta severidade e ameaça de castigo por aqui?
— Quando suas filhas eram pequenas você também agiu assim. Mas sempre se faz apenas o que se quer.
A conversação prosseguiu por largo tempo, nesse mesmo tom, coloquial e divertido.
Antes de ir, ele disse que ia lhe deixar um carro usado para vender.
— O dinheiro da venda não será muito, mas o suficiente para você acertar suas finanças. Ao mesmo tempo vai ajudar o comprador que vai aparecer para fazer o negócio.
Não resistiu a um último chiste:
— Posso anunciar que recebi o carro de você?
— Poder, pode. Mas ninguém vai acreditar.
Despertou na poltrona com a claridade que se infiltrava pelo vitrô aberto. Antes que mais alguém acordasse se esgueirou pelas escadas do quintal até a garagem da casa para ver se havia outro carro além do seu.
Quem é grande é craque até na tradução de poema.
Por incrível que possa parecer, o post retrata fielmente, especialmente os diálogos, um sonho maluco que tive. Ao acordar lembrava-me perfeitamente de tudo e fiquei durante alguns momentos naquela sensação, foi sonho ou aconteceu?
Contei-o para alguns mais próximos e todos disseram que deveria relatá-lo no blog.
Não encontrei outro carro na minha garagem, mas isso não quer dizer nada…
Já sonhei que morava de frente para o mar. Mantive a sensação o máximo tempo que pude, não querendo abrir as janelas para a “triste” confirmação da realidade. Em vez de mar, gente, em suas inúmeras casas; no lugar de vegetação praiana, só se via cana ao longe. Mas fui feliz por alguns minutos, mantendo a magia do sonho.
Mas conversar com Deus, ainda não. Mas já vi a vida, de cima, “pairando no ar”, observando como estava tudo sem a minha presença. Nada; era como se eu nunca tivesse passado por aqui. ATÉ o meu cachorro, para quem, teoricamente, eu deveria ser a pessoa mais importante, estava normal, tocando a sua vidinha normal. Foi totalmente frustrante (e “real”!)
Deixemos Freud de lado, com suas teorias e explicações sistemáticas sobre o sonho. O que diria ele acerca da minha conversa com Deus? De você vendo as coisas “de fora”, “pairando no ar”?
Acho que na verdade conversei comigo mesmo, com o que penso ou gostaria que fosse Deus.
O problema é que nos supomos imprescindíveis ou ao menos importantes para o mundo e a vida, quando na verdade somos absolutamente insignificantes para um e outra, que seguem (até mesmo o seu cachorro) muito bem obrigado, sem nossa presença.
Creio que creio em Deus, mas em um Deus bem diferente do que pregam a religiões, vaidoso, que quer ser louvado permanentemente, vingativo e intolerante. Outra figura admirável é Cristo, que mesmo os que duvidam da sua existência não podem negar a revolução que provocou na história da humanidade. Se ele realmente não tiver existido,isso seria mais extraordinário ainda! E como disse Fernando Pessoal, não consta que tivesse biblioteca…