A vida e o mundo são replenos de tragédias, infortúnios e sofrimentos que nos deixam perplexos e inermes na nossa pequenez e insignificância.
Não se trata de adotar o comportamento das avestruzes, que enfiam a cabeça num buraco para se esconder, mas a exploração diuturna e nauseabunda dessas tragédias pela mídia televisiva é outra tragédia da nossa sociedade.
Claro que os meios de comunicação têm o papel e o dever altamente relevante de informar, noticiar, prevenir, ajudar a conscientizar, denunciar falhas, cobrar providências, mas não são esses os propósitos que sobrelevam nas coberturas massivas e massacrantes dos canais de televisão.
O que vem em primeiríssimo lugar é o espetáculo da desgraça, da dor e do sofrimento, das imagens chocantes reproduzidas continuamente, até que outras tragédias e infortúnios tão ou mais espetaculosos sobrevenham.
O poema abaixo já foi publicado neste blog, mas torno a postá-lo porque me parece que esta seja a sua hora. Muitas vezes acontece isso: escreve-se algo que só mais tarde parece ganhar força e encontrar o seu verdadeiro momento.
Soneto aguado
Para Gilberto Kujawski e seu sábio amigo Lopo Noronha
Se não chovem canivetes ainda,
chove a cântaros, cujo barro se rachou
derramando toda a água sobre a Terra
embarrada, emburrada, desavinda.
It’s raining cats and dogs!
Log a internet, ligue a televisão,
para a ver o dilúvio que lá fora
assola em meio a tanta desolação.
Atenção, Noés de plantão, suas arcas
arcarão? Para nós haverá salvação,
reles bichos ao rés do chão?
O mundo se liquefez, fluido e rarefeito
e bracejamos nessa liquidez
sem assomar para o quê somos feitos.
Acredito no efeito exercido pelo meio ambiente no estado de espírito das pessoas. Por isto, evito filmes agressivos, imagens depressivas, enfim tudo o que possa influenciar-me negativamente (não querendo, mesmo assim, ser Polyana e nem avestruz; o intento não é este).
E tento convencer as pessoas mais próximas a fazerem o mesmo. Mas não é fácil… rsrs
Minha mãe acompanhou todo o funeral da Princesa Diana, do Leandro, do Ayrton Senna e sei lá mais quem. Eu ligava para ela naqueles momentos e ela estava na maior tristeza, às vezes debulhando-se em pranto. Eu a repreendia severamente, claro. Mas nunca adiantou.
Ontem à tarde, ao telefone, ela comentou a tragédia causada pelas chuvas. Pedi-lhe que visse outra coisa, não focando apenas nisso. Ela respondeu-me que seria impossível, porque em todos os canais da tv era só o que transmitiam.
Assim é difícil; somos praticamente obrigados a acompanhar o espetáculo da miséria humana, com direito a detalhes e imagens exclusivas, repetidas com exaustão.
Pois é, meu bom amigo Antonio Carlos Augusto, eu que vivo nesse estado abandonado pelo poder público, que só faz demagogia, fico muito entristecido com essas desgraças anunciadas. Só me resta rezar pelo que se foram e, lamentavelmente, esperar mudança na atitude dos incompetentes homens públicos do meu estado. Parabéns pelo reflexivo e inteligente poema.
forte abraço
C@urosa