A frase do dia

 

 

 

 

                        “Palavras de ontem são do idioma de ontem

                         E as de amanhã aguardam outra voz.”

                         (Little Gidding, T S. Eliot)

 

 

 

                        Li hoje, no excepcional romance de Philip Roth, Fantasma sai de cena, a citação dos versos acima — numa tradução livre, mas muito boa — do poema de Eliot, o último que compõe os Quatro Quartetos.

                        Por algum tempo suspendi a leitura do livro, a refletir sobre a beleza e o significado dos versos que me tocaram profundamente. Logo fiquei tentado a reproduzi-los aqui, para compartilhar minha emoção com aqueles que me acompanham.

                        Não é essa a primeira vez que isso me ocorre, mas sempre hesitei em me valer do blog para esse tipo de citação.

                        A razão da minha relutância é traumática e portanto, segundo Freud, neurótica.

                        Tenho um amigo (talvez a definição mais precisa seja “conhecido”, já que nos limitamos a contatos sociais, sem maior intimidade) que é um homem de muitas letras e luzes, mestre e doutor, professor celebrado, intelectual reverenciado, escritor e palestrante emérito, de educação esmerada, um verdadeiro cavalheiro. Gosto dele. Admiro sua cultura, simpatia e lhaneza no trato.

                        Mas tem ele uma veleidade (e quem não temos alguma?) inofensiva, mas que me irrita muitíssimo: a de impingir frases de autores famosos sem mais nem menos, de modo absolutamente gratuito, nas conversas mais despretensiosas e informais

                        Mas que calor, hem?

                        Pois é! Aliás, Faulkner dizia… E lá vem uma citação tirada do bolso do colete.

                        Um outro amigo comum (este sim, íntimo), que também se aborrece com tais referências inoportunas (ou oportunistas), acha que o fraseômano acorda toda manhã e antes de sair de casa seleciona uma citação para pontificar durante o dia. E, de qualquer modo, venha a calhar ou não, sentencia.

                        Conta esse mesmo amigo que numa ocasião embarcou num ônibus em São Paulo com destino a Ribeirão Preto, altas horas da noite, exausto, e quanto se acomodou no assento deu com o outro sentado na poltrona ao lado.

                        Cumprimentaram-se, e antes que o outro pudesse sacar a frase do dia (ou da noite), meu amigo abriu um livro e se pôs a ler gravemente.

                        Logo que o ônibus ingressou na rodovia para as quatro horas de viagem, meu amigo deixou o livro cair sobre o peito e dormiu (ou fingiu que dormia). Nem mesmo desceu no posto em que o ônibus costuma parar brevemente, para tomar um café e fumar um cigarro.

                        Quando finalmente o ônibus estacionou na rodoviária de Ribeirão Preto, meu amigo já se regozijava por não ter dado a menor chance para que o outro lhe atirasse a frase engatilhada.

                        Ledo e Ivo engano.

                        Enquanto pegavam a bagagem, o fraseador sapecou:

                        Pois é, Fulano, sabe que durante a viagem vinha pensando no que dizia Kierkegaard…

                        E pespegou Kierkegaard no meu pobre e cansado amigo àquela hora da madrugada…

                        Durma-se com um barulho desses!

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários

  1. Lilian
    25/01/11 at 8:53

    Pois eu a-do-ro citações de frases célebres (ou nem tanto assim) e aprecio todas que o senhor menciona. Gosto muito de saber, aprender, qualquer coisa nova para ter, ao fim do dia, resposta para a pergunta: “o que de novo aprendi hoje?” – Se, em 24 horas, não conseguimos acrescentar nada, ainda que “inútil”, ao nosso conhecimento, terá sido um dia perdido.

  2. sonia kahawach
    30/01/11 at 11:50

    Também acho que o ontem pode até preparar nosso hoje e nosso hoje, quem sabe, pode preparar nosso amanhã, mas na realidade o real é tão somente o hoje. Como não tenho memória como v., li em algum lugar e anotei porque me calou fundo: “um homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois não é o mesmo rio e nem o mesmo homem”.

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