Começo e fim

 

 

 

                        Como faço todos os domingos, na manhã de ontem fui até a Praça 7 de Setembro comprar pão para o almoço, jornais e revistas.

                        A novidade foi que Carolina resolveu me acompanhar levando Manuela para conhecer a tradicional praça, que fica próxima da antiga casa da minha sogra (já falecida e que foi uma avó maravilhosa para minhas três filhas) na Rua São Sebastião, e onde Carol, Bell e Júlia quando crianças iam frequentemente brincar e tomar sorvete.

                        Levamos o triciclo de plástico (velotrol) com que a tia Bell presenteou Manuela no Natal e ela adora. Ainda não alcança os pedais nos seus pouco mais de dez meses, mas segura o guidão e dirige orgulhosamente , enquanto é empurrada por meio de uma barra afixada na traseira.

                        Assim que iniciamos a travessia de uma das alamedas da praça, em sentido contrário vinha uma velhinha, muito frágil, conduzida em uma cadeira de rodas por uma enfermeira.

                        Quando a velhinha e Manuela se aproximavam nos seus respectivos “veículos”, houve uma imediata e mágica empatia entre as duas: olharam-se e sorriram-se com ternura comovente. Paramos brevemente e mesmo sem nada se dizerem as duas continuaram a trocar olhares cúmplices e sorridentes, estendendo as mãos para se tocarem. Seguimos em sentidos opostos, e as duas ainda se olhavam, virando para trás.

                        O encontro da infância e da velhice, o começo e o fim da existência se miravam, sorriam e tocavam, tão semelhantes em suas dificuldades e dependências.

                        A vida toda se apresentou ali, naquele súbito instante.

 

 

 

6 comentários

  1. Lilian
    31/01/11 at 15:43

    “Cada uma em seus respectivos veículos”… Espero que o mundo finalmente acabe em 2012, conforme as profecias, porque eu não suportaria andar no veículo daquela vovó. Ficaria o tempo todo em casa vendo a vida da janela (ou pela tv, o que é pior ainda)…

    • sonia kahawach
      01/02/11 at 11:08

      Lilian não seja tão melancólica! A vida tem seus altos e baixos e é um interminável ir. Tinha um amigo muito querido que infelizmente se foi no ano passado aos 84 anos, do qual tenho uma saudade enorme dos papos que batíamos e do tanto que aprendia com ele. Em seu sotaque bem carregado de alemão, sempre me dizia: querrirrida, tenha paciência e calma, pois tudo que não lhe derruba lhe fortalece. Dias atrás, fazendo um balanço de vida (completo 64 anos hoje), descobri que tenho mais motivos pra ser feliz do que pra não ser. E daí em diante, sou feliz todos os dias pelo que tenho e, se não tenho, algum motivo existe e deve ser o melhor pra mim mesmo que eu não entenda. Sorria mais pra vida, querida. Ela está aí e só quer ser vivida. Muito carinho pra você.

      • Lilian
        01/02/11 at 16:32

        64 anos hoje, Soninha?
        Sei que o costume vigente é cumprimentar as pessoas nas datas de seus aniversários. Realmente, considerando tudo por que passamos, somos dignos dos mais efusivos cumprimentos, pelos leões que matamos a cada dia, sobrevivendo a tudo isso…
        Então, parabéns, tudo de bom!
        Mas, no meu niver, nem pensar, tá?

  2. sonia kahawach
    01/02/11 at 11:12

    O encontro do início e do fim sempre é emocionante.
    E imagine quanta energia as duas trocaram pelo olhar e sentir, tanto que tentaram se tocar e sorriram.
    Muito bom observar esses detalhes de vida. Acariciam o coração e deixam a alma mais leve.

  3. sonia kahawach
    01/02/11 at 11:13

    PS – continuo aguardando as fotos da Manuela!

  4. bellgama
    08/02/11 at 21:04

    Há mais de um mês não vejo Manu, você, minha mãe. A Carol até que veio para Sampa rapidinho… Estou morrendo de saudade e aos prantos. Esse post só me fez lembrar o quanto vocês, a praça XiV, o pãozinho do “Nosso pão”, o sorrido da Manu e um sorvete do Jô fazem falta! Ti doro!

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