Estive em São Paulo no final de semana passado para ver como ficou, depois de reformado e decorado, o apartamento que a Bell comprou. Maravilhoso, tudo a ver com ela, que foi a própria arquiteta e decoradora.
Além disso, na noite de sexta-feira assisti à peça O grande grito, escrita por Gabriela Rabelo e dirigida por José Renato, encenada pelo Grupo Luz e Ribalta, da Cooperativa Paulista de Teatro, que iniciou suas atividades em 1982 e realizou produções que conquistaram diversos prêmios, entre os quais APCA, APETESC, Molière, Governador do Estado.
A peça está em cartaz até 17 de abril no Centro Cultural São Paulo, Sala Jardel Filho, sextas e sábados às 21h e nos domingos às 20h, e se baseia em fatos reais, que também foram abordados pela autora em sua tese de doutorado: o afastamento de Mário de Andrade do cargo de Diretor do Departamento de Cultura de São Paulo e o seu grande sofrimento com a inesperada demissão que interrompeu seu trabalho de incentivo, pesquisa e preservação das diversas manifestações da cultura brasileira. Muitos anos depois da morte de Mário de Andrade, um acervo valiosíssimo colhido pela Missão de Pesquisas Folclóricas, coordenada por ele, foi encontrado no porão de uma biblioteca pública de São Paulo, sob goteiras, mofando com a umidade.
A peça parte daí. O espírito ou fantasma de Mário preso e agoniado naquele porão por malas-artes de Exu, que lhe exige o cumprimento da promessa feita em vida, de dar à sua imagem o devido reconhecimento e um lugar de destaque. Macunaíma também aparece por ali durante o dia, deixando a constelação da Ursa Maior para conversar com Mário e tentar levá-lo para os vastos campos do céu.
Paralelamente a esse entrecho onírico e fantástico, desenrola-se uma trama real, envolvendo um jovem casal, ela filha do porteiro da biblioteca onde se encontra o acervo abandonado; ele, tentando desperadamente deixar as drogas e fugir de traficantes que o perseguem, filho de um empresário de sucesso que se tornou colaborador da Secretaria da Cultura e é velho amigo do porteiro, por meio do qual toma conhecimento das preciosidades existentes no porão.
O papel do rapaz drogado é feito por Murilo Inforsato, grande amigo da Bell e a quem considero como um filho. Seu desempenho me comoveu, mas não me surpreendeu, pois sei bem do que ele é e ainda será capaz como ator. Embora moço, emagreceu mais de 5 quilos e raspou a barba para parecer mais jovem, da idade do personagem, entre os 18 e 20 anos.
Assim como Murilo, os demais integrantes do elenco têm ótima atuação, mas merece uma referência especial o veterano Augusto Pompeo, que com seus mais de 60 anos faz um Macunaíma absolutamente deslumbrante, na postura, nos trejeitos, na voz. Parece ter nascido para o papel e nada fica a dever a Grande Otelo (chego a pensar se não o supera) que encarnou o personagem no cinema. Igualmente maravilhosa a iluminação de Davi de Brito.
Ao longo da peça, um Mário de Andrade angustiado e perplexo com o descaso por tudo aquilo que nos deixou questiona se valeu a pena sacrificar a sua vocação de escritor para se dedicar às outras tantas atividades de pesquisa, descoberta e preservação das nossas raízes, na tentativa de dar uma alma ao Brasil. Chega a se enfurecer com um livro didático que se refere a Macunaíma como um herói indigno, fazendo a costumeira confusão do “herói sem nenhum caráter” com a de um herói sem caráter, da mesma forma que se costuma interpretar equivocadamente o que seja o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda.
Ainda sob o impacto da peça, no sábado pela manhã passei pela Livraria Cultura pensando em comprar Macunaíma e um livro de poemas de Mário de Andrade para presentear Murilo e Bell.
Depois de muito procurar, acabei apelando para uma funcionária da livraria que, consultando o computador, me informou ter apenas um livro disponível de Mário de Andrade, Contos De Belazarte, e que Macunaíma está esgotado!
Senti então na pele e na alma o mesmo desalento de Mário de Andrade na peça.
Papilly, a peça realmente é muito boa. Com a sua companhia foi ainda melhor. Já mandei para o Murilo e pedir para ele encaminha para todos da peça. Também enviei para a responsável pelo blog da peça http://www.ograndegrito.blogspot.com/ pois acho que ela também poderá repassar aos interessados.
Ti doro e já sinto sua falta aqui no apê!
beijos,
Bell
Caro Antonio Gama, grande sua sensibilidade e conhecimento literário. Isso nos faz perceber o quanto a peça está chegando a todos os públicos e idades. O espetáculo cresce a cada apresentação e- de fato-tem sido emocionante fazer para todos nós da equipe. Por isso agradecemos sua opinião e divulgação.
Cordial Abraço
Corinna Assis
webmaster/www.ograndegrito.blogspot.br