SEMENTEIRA
O verso é semente
que floresce
ou fenece.
Aguarda paciente
ser apalavrado
ou negado.
O fruto bendito
é fel e mel
agridoce sumo.
Palavra dada
não volta atrás
fica o dito por não dito.
Selma Barcellos

Para quem, como a blogueira, conserva o prazer de escrever à mão, aliás, com o corpo todo, sem mediação, no terreno baldio da folha de papel, não encontro ilustração mais perfeita para o nascimento de um texto, passados os pontapés iniciais do embate com a inspiração, os alarmes falsos… Em algum momento a palavra gestada nos chega. E nos alenta.
Sobre o ato hoje quase lúdico de manuscrever, o poeta Armando Freitas Filho se justifica dizendo que “a máquina de escrever, o computador estão sempre passando a limpo, estão ‘entre’ o que se escreve e a mão.” Indagado se o lápis e a caneta também não estariam, responde: “Mas quem diz que escrevo com lápis e caneta? Escrevo, isso sim, com o dedo em riste.” Ah, poeta… E completa:
A letra tremida da infância
ou da mão travada pela idade
quando impressas, não passam
a aceleração do sentimento
nem o avanço da paralisia.
Só o leitor pode recuperar
o bastidor da sensação
que se gastou num polo
ou no outro, embalsamada
na letra morta de imprensa.
Jamais supérfluos, não me faltem o bloquinho e a Bic de ponta fina aonde for. Mania doida de rascunhar, desenhar, esboçar, destacar vida que passa e que de algum lugar me acena. Ao alcance das mãos. Assim.
Nesta nossa semana da palavra,
com a palavra o poeta Brenno
A palavra do lavrador
caiu na terra arada
e ele, distraído,
passou de novo o arado
e a palavra ficou enterrada…
ou semeada
ou incrustada
ou adormecida.
Se um dia ela germinar
pode crescer
virar discurso
pode virar oração
ou ladainha
ou até reclamação.
Pode ramificar galhos de protesto
ou soltar raízes
de meditação
ou mortificação.
A palavra pode crescer
pode morrer
apodrecer
ou ficar p’ra semente
se ela não for
imediatamente
dita.
As palavras inúteis
iam sendo escritas
na muralha de pedra:
um muro alto, espesso, extenso…
como a Muralha da China,
como o de Berlim.
As palavras de pedra
se incrustavam
entre outras pedras e concreto.
As palavras de plástico
se sobrepunham às palavras de vidro,
às palavras de nuvem,
às palavras de vento,
às palavras de estrela…
Milhões de palavras
se aglomeravam
no intransponível muro.
Palavras de fogo,
palavras de gelo,
palavras de terra…
milhões de palavras
pintavam o muro.
O muro impassível,
o muro passivo,
o muro infiltrado
por tantas palavras
ganhou rachaduras,
abalos sensíveis
em sua estrutura.
O muro rachado,
o muro alquebrado…
Palavras pesadas,
palavras demais…
O muro ruiu.