Li por aí que twitter foi considerada a palavra do ano, a mais falada, escrita e procurada.
Creio que o vocábulo ainda não se acha dicionarizado no Brasil, mas pelo que sei na língua inglesa deriva ou se trata de um verbo com significado aproximado de falar rapidamente, com nervosa agitação e excitamento.
Reflete, pois, com precisão não apenas a rede de microblogs que se tornou uma febre mundial, mas o próprio modo de nos relacionarmos nestes tempos de aflitiva urgência, em que todos querem estar em permanente vigília, vigiando e seguindo todos, sendo vigiado e seguido por todos.
Tudo começou com o celular, que já transcendeu a si mesmo e se tornou muitas outras coisas, e a partir do qual vamos nos atochando novas e sofisticadas coleiras eletrônicas, com as quais somos encontrados a qualquer hora e em qualquer parte.
Há um generalizado temor de se ficar só ou incomunicável. “Quem não se comunica se trumbica”, já proclamava o profeta e filósofo contemporâneo Chacrinha.
Mas se todos se comunicam sem cessar, se todos falam uns com os outros o tempo todo, quem é que escuta?
Mais grave ainda. Quando é que nos ouvimos a nós mesmos?
Reivindico o direito de estar só.
Meu celular, de um modelo antigo e comum, passa a maior parte do tempo desligado, e muitos reclamam disso, como se o aparelho existisse para servir a eles e não a mim.
Não tenho twitter (não sou presunçoso para achar que alguém possa ter interesse pelo que eu esteja fazendo ou pensando a cada instante), perfil no facebook ou no orkut. Não faço parte de nenhuma comunidade, a não ser da humana, assim mesmo porque não tive outra opção.
Talvez este blog já seja uma demasia, e como bem dizia o Padre Antonio Vieira, se não basta o que seja, baste o que sobeja.
Então é para isto que serve o Twitter? No blog de um amigo meu está escrito “follow me on twitter”, mas nunca tive vontade de follow ele. Sou meio resistente às novidades, talvez por preguiça ou conservadorismo mesmo. Na verdade, acho que sou é saudosista. Mas sempre que sou “empurrada” (só assim mesmo) para alguma novidade, acabo adorando. Aconteceu assim com o celular, que eu só ligava quando precisava falar com alguém, com os blogs (alguns amigos me pediram para ver o que achava), com o Google Chrome (adorei!!!) e por aí vai.
Mas deve ser meio cansativo ficar pensando “nos outros” o tempo todo, né? Porque imagino que seja assim com o Twitter: você tem que alimentar a galera “ininterruptamente”, sendo espirituoso, estando sempre atualizado…
Veja a última que o meu amigo escreveu:
“Água no almoço, barrinha de cereal a tarde e academia na sexta a noite. Pra tomar banho com outro cara ta faltando muito pouco.” (As atualizações que ele faz no Twitter aparecem também no msn e no blog. Às vezes dou boas risadas com o que ele escreve.)
Outra: “Depois de um puta trânsito, regado a muita chuva e acidentes só falta um apagão na hora do banho.”
Enfim, pra quem gosta de compartilhar sua vida, suas idéias com o mundo, deve ser legal. Ele deve ser divertir também, quando escreve, senão não faria isto.
Mas, embora aprecie momentaneamente, gosto de textos mais elaborados, que me abram um pouco os horizontes, vendo o mundo com outro olhar.
Tanto é assim que não gosto de livro de contos; são muito breves, eu realmente prefiro mergulhar em águas mais profundas, ou comer comida de verdade e não apenas “fast food”. Mas… não deixa de ser uma opção.
Querido amigo
Parabens pelo seu texto acerca do twitter, a coqueluche do
momento. Suas palavras são um manifesto inteligente e
superiormente irônico de crítica ao que há de pior na
cultura de massas. Viva o direito de estar sozinho!
Abraço entusiástico,
Gilberto
Não tive o prazer de conhecer Kujawski pessoalmente, mas ouço falar dele há muitos e muitos anos. Nanan já falava muito dele há uns 15 ou mais anos atrás, quando eu ia a Ribeirão. Tenho certeza de que é uma das pessoas mais interessantes que existe por aí, infelizmente num universo que não o meu. Mas estou com ele de forma fechada:
“VIVA O DIREITO DE ESTAR SOZINHO!”
Já detesto e não tenho celular…. imagine ficar “twuittando” (forma de escrever que o vocábulo pede, não?).
Poderá existir algo mais desagradável do que ficar dando notícias de cada lance, cada atitude, cada….. E ficar sabendo então?
Será que interessa mesmo?
‘VIVA O DIREITO DE FICAR SOZINHO”!
Sonia,
O Gilberto Kujawski mora em São Paulo e é um grande escritor, ensaista, filósofo e um dos maiores conhecedores da obra de Ortega Y Gasset. Foi articulista durante muitos anos do Estadão e do Jornal da Tarde, mas foi afastado de maneira ignóbil pelo atual editor do Estadão, que discordou de um artigo, por ele escrito e assinado, analisando as figuras do Sarney e de outros próceres da nossa república.
Se você quiser conhecê-lo um pouco mais, além dos seus diversos livros, ele mantém um site para o qual há um link no lado direito deste meu blog.
Um beijo.