Posts from dezembro, 2009

O homem que tinha sido caixeiro-viajante

 

 

                        Certa manhã, depois de uma noite mal dormida por culpa de sonhos inquietantes, acordou na sua cama de casal e percebeu que estava em casa e não num quarto do Hotel dos Viajantes.

                        Deu-se conta então que se achava metamorfoseado em homem comum, desde que se aposentara do seu ofício de caixeiro-viajante.

                        Enquanto lavava o rosto e escovava os dentes, viu-se no espelho do banheiro: um homem envelhecido, de cabelos ralos e embranquecidos, a barba por fazer, o olhar baço. Sentia-se um inseto monstruoso, tão diferente daquele moço de cabeleira negra, cuidadosamente acamada com brilhantina, o bigode fino e aparado, a pele lisa e perfumada pela água de colônia após a barba, os olhos brilhantes e inquietos, pronto para sair e fazer a praça.

                        Foi até a cozinha, onde a mulher dava ordens à empregada, tomou sem gosto o café da garrafa térmica.

                        Em seguida, no pequeno escritório, sentou-se à velha escrivaninha em que costumava conferir os pedidos, preparar os relatórios e escrever cartas e memorandos após o retorno de cada viagem de negócios.

                        Tentou se entreter com o jornal, mas logo se desinteressou das notícias de sempre.

                        Gostava de ler e tinha duas estantes de livros. Levantou-se e remexeu numa delas até apanhar A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, que havia comprado há muitos anos logo depois de assistir à peça encenada por Jaime Costa, que tanto o impressionara.

                        Encontrou entre as páginas do livro o programa da peça. Leu alguns trechos, mas não conseguiu seguir adiante, tomado pela nostalgia e pelas lembranças. Repôs o livro na estante e pegou O Inspetor Geral, de Gógol, de que também gostava muito, mas apenas alisou a capa, folheou-o e o devolveu à prateleira.

                        Filho de libaneses, o primeiro varão depois de três meninas, seguindo-se a ele mais uma irmã e o irmão caçula, tornou-se o arrimo da família aos doze anos de idade, quando o pai subitamente faleceu.

                        Deixou a escola para trabalhar, fez biscates e trabalhou como engraxate, até que, por indicação do padrinho médico, foi contratado pela maior loja da cidade, que vendia de tecidos e armarinhos, a mobília e outros utensílios domésticos, como rádios, panelas, talheres, louças e cristais. Começou como ajudante do depósito, das entregas, e de tudo o mais que se fizesse necessário, mas logo a sua vivacidade e o seu empenho foram reconhecidos pelo dono, que aos quinze anos o pôs no balcão.

                        Quando chegou aos dezoito, e já era de longe o melhor vendedor da casa, os novos sócios, que se juntaram ao antigo dono para ampliar os negócios, lhe propuseram que se tornasse o representante comercial da firma, que também passava a explorar o atacado.

                        Foi caixeiro-viajante por mais de quarenta anos, viajando a princípio de trem, jardineira e até em lombo de burro, debaixo de sol e de chuva, envergando o guarda pó ou a capa de gabardine e carregando seus pesados mostruários. Em geral aportava numa cidade maior e a dela fazia o pião para os lugarejos próximos, até mesmo na zona rural, retornando no final do dia.

                        O que os seminários, treinamentos e workshops de hoje em dia professoram, ele e os colegas já praticavam com intuitiva vocação: sabiam os nomes de cada cliente, com os quais mantinham uma relação pessoal, conhecendo-lhes os gostos, os hábitos e as necessidades. Iam até eles oferecer as mercadorias e apresentar as novidades, em vez de esperar que os clientes tomassem a iniciativa, e ainda prestavam assistência e orientação pós-venda, resolvendo eventuais problemas e dificuldades.

                        Certa ocasião, ao se dirigir a um distrito retirado para visitar um bom e fiel cliente, passou por uma choupana abandonada, em que antes costumava ver umas moçoilas bonitas à porta, o que o fazia apear, pedir água e cortejá-las. O seu acompanhante local esclareceu que a família havia abandonado a morada, expulsa por espíritos malsãos, que tanto atormentaram até que fossem embora.

                        Na volta, ao anoitecer, enchendo-se de valentia parou no local e disse que iria verificar se era verdade o que se contava. Aproximou-se e quando ia entrar no casebre começou a ouvir vozes insultuosas e ameaçadoras — filho da puta, corno, veado, sai daqui — seguidas de chispas e pedradas que sibilavam rentes à sua cabeça. Arrepiou carreira e com uma agilidade que desconhecia saltou na cela e picou a mula, seguido pelas gargalhadas do amigo que prudentemente o esperara montado.

                        Tornou-se uma figura famosa nas praças que percorria, não apenas pela sua eficiência de vendedor, mas principalmente pela simpatia, facilidade em fazer amigos e pelo sabor da sua conversa, das anedotas e dos causos que desfiava um após outro, tanto para os fregueses, quanto para os colegas, reunidos nos bancos e nas cadeiras na calçada defronte dos hotéis.

                        Era benquisto por todos, mas mantinha uma rivalidade cordial, nas vendas e nos galanteios, com outro caixeiro-viajante, um português do Minho, que havia emigrado ainda menino com um irmão mais velho, clandestinos num navio, fugindo da miséria e das dificuldades da Grande Guerra de 1914. O gajo era quase o seu oposto, um tipo apolíneo e reservado, sempre impecável nos seus fatos de linho 120, e a indefectível pérola na gravata, mas se respeitavam e admiravam.

                        Com muito sacrifício e uma boa dose de loucura conseguiu adquirir um automóvel novo, um Ford Mercury 1947, que foi buscar com um amigo no porto de Santos. Nenhum dos dois sabia como dirigir aquele tipo de carro. Receberam algumas instruções e praticaram um pouco no pátio do porto. Em seguida, com um papelucho colado no para-brisa indicando como trocar as marchas, subiram a serra serpenteante até São Paulo, e de lá se embrenharam pelas estradas poeirentas até o sul de Minas.

                        Quase não bebia, mas fumava muito, adorava um carteado e rabo de saia, que lhe custaram dissabores pecuniários e venéreos.

                        A única coisa capaz de alterar o seu humor e sua permanente disposição para a vida era o jogo. Não o entusiasmava a possibilidade de fazer fortuna num golpe de sorte, mas sim o ambiente, o convívio com os parceiros, o prazer do jogo em si, as artimanhas, o blefe bem aplicado.

                        Mesmo assim, ou por isso mesmo, não gostava de perder. Enquanto ganhava, era o brincalhão de sempre. Pilheriava, contava histórias saborosas, puxava uma cadeira vazia e a colocava do seu lado, convidando fantasmas de conhecidos e parentes para se sentar e jogar com ele. Mas se passava a perder seguidamente, transfigurava-se. Ficava macambúzio, trocava o baralho, reclamava das cartas e, em última — e infalível — instância, ia ao banheiro, tirava a cueca e a vestia pelo avesso. Quando recorria a esse expediente extremo, conseguia pelo menos equilibrar o jogo, mas na maioria das vezes a sorte virava e voltava a ganhar.

                        A vida penosa e descuidada lhe foi comprometendo a saúde, e uma bronquite asmática crônica se complicou e afetou seriamente os pulmões, obrigando-o a se aposentar antes do que pretendia, se bem que então os tempos já não eram os mesmos.

                        Durante breve período ainda se mantivera na ativa, tirando pedidos pelo telefone, graças à confiança e amizades granjeadas, mas isso não o satisfazia, antes aumentava sua melancolia de balão cativo.

                        Pensava nisso tudo e em muito mais que vivera, enquanto atravessava a praça em direção à barbearia onde se encontrava diariamente com os amigos, em busca do que ficara para trás, um sorriso e um sapato bem lustrado.