Nelson Rodrigues, que entre tantos talentos era um extraordinário fraseador, dizia que toda unanimidade é burra, no que estava certo.
Toda unanimidade é burra e — ouso acrescentar — paralítica, porque induz ao imobilismo e à falta de coragem para pensar diferente, inibe o debate, a controvérsia, o confronto sempre enriquecedor e estimulante de ideias e concepções. Não é, pois, sem razão que todos os tiranos almejam ou pretendem impor a unanimidade.
Mas em alguns poucos casos, a unanimidade pode ser sábia e indiscutível.
Não há melhor exemplo disso do que o reconhecimento que se presta a José Mindlin, que nos deixou, deixando-nos os seus livros que compõem a maior biblioteca privada do Brasil, formada proficiente e pacientemente por ele ao longo de toda a vida.
Antes de ir, já havia doado á USP parte do seu acervo, denominada de biblioteca Brasiliana, com mais de 40 mil volumes. Mas não teve tempo de conhecer o prédio construído especialmente para abrigar sua Brasiliana, que ainda não foi inaugurado.
Aliás, e isso até parece brincadeira, Mindlin teve que insistir durante muitos anos até que a USP por fim aceitasse a doação!
Esse, porém, é apenas um dos traços do seu caráter, da sua generosidade e da conduta exemplar e ética que sempre manteve nas mais diversas áreas em que atuou. Num país tão carente de homens de tal envergadura, tornou-se um ícone a ser reverenciado e seguido por todos os brasileiros, notadamente pela nossa sórdida e tacanha elite empresarial (claro que com algumas poucas exceções, como ele próprio).
Não tive o prazer e a honra de conhecê-lo pessoalmente, mas tínhamos amigos comuns, os livros, sobre os quais, como grande mestre que era, ele me ensinou coisas preciosas, mesmo à distância.
Há anos, angustiado com o excesso de trabalho e de compromissos que não me deixavam tempo livre para ler tudo o que gostaria (problema que continuo a enfrentar), assisti a uma entrevista dele em que revelava um dos seus segredinhos: sempre levava consigo um livro que estava lendo ou lhe interessava e aproveitava todas as ocasiões, todos os pequenos e furtivos intervalos ao longo do dia para mergulhar na leitura.
Passei a fazer o mesmo e verifiquei que não apenas era possível adiantar a leitura, como se tratava de um ótimo jeito de vencer o tédio nas salas de espera dos consultórios (com suas revistas do século passado), nas rodoviárias, nos aeroportos, no barbeiro (hoje, vou a uma cabeleireira), até mesmo enquanto aguardava a saída de minhas filhas da escola.
Nem todos os livros se prestam a esse tipo de leitura, mas há muitos outros que sim. Aliás, aos poucos vamos desenvolvendo uma grande capacidade de concentração que nos permite ler até mesmo os livros mais exigentes.
O mundo dos livros é mesmo fascinante e traga definitivamente para suas entranhas aqueles que nele se aventuram. A leitura, que já foi chamada de vício impune, é um vírus que, uma vez inoculado, nunca mais nos deixa, como também dizia Mindlin, que contava histórias extraordinárias, dignas das de Edgar Allan Poe, a respeito de suas garimpagens, do comportamento quase humano, ou sobre-humano, dos livros, que se oferecem, negaceiam, rebelam-se, têm ciúme, fogem e retornam, vingam-se ou recompensam, são misericordiosos ou sinistros. Muitas dessas histórias estão no seu livro Uma Vida Entre Livros.
Uma delas refere-se àquela que ele próprio considerava sua mais árdua e demorada busca, a de um exemplar da primeira edição de O Guarani, de José de Alencar. Não conseguiu adquiri-lo quando foi posto à venda no Brasil e o livro acabou indo para o exterior. Muitos anos depois, soube que o exemplar estava novamente à venda e conseguiu finalmente comprá-lo numa viagem. Ao regressar, trouxe o livro cuidadosamente acondicionado numa pasta, que manteve no colo durante o tempo todo. Todavia, no desembarque, sem que percebesse, o livro escorregou-lhe da pasta. Quando chegou em casa disse à mulher Guita, com quem compartilhava o amor pelos livros:
— Sabe que livro comprei? A primeira edição de O Guarani!
— Mas que ótimo, respondeu ela. Há tanto tempo você procurava…
— Pois é, mas já perdi!
Alguns dias depois, porém, o livro foi recuperado, voltou para os seus braços e passou a ser uma das preciosidades da biblioteca Brasiliana.
Ele jamais conseguiu saber ao certo como o livro saiu ou caiu da pasta para lhe pregar uma derradeira peça, como a mulher coquete que se nega, foge, adia, dissimula e exaspera o nosso desejo ao máximo, antes de finalmente se entregar ao nosso amor.
Indagado como se sentia ao se tornar um imortal da Academia Brasileira de Letras, respondeu:
— Trocaria a imortalidade por mais uns dez anos de vida.
— E o que o senhor faria, com esses dez anos a mais?
― Continuaria a ler e a garimpar livros.
Jorge Luis Borges imaginava o paraíso como uma imensa biblioteca. Se ele estiver certo, José Mindlin se sentirá em casa.
