Posts from abril, 2011

Quando menina não entrava

 

 

 

                       Ela já tem 76 anos, mas continua uma encantadora menininha, com o cabelo cacheado, bochechuda, o vestido curto e a boina vermelhos, o doce apelido: Luluzinha.

                       Continua a atormentar o Bolinha e, com sua inseparável amiga Aninha, faz de tudo para entrar no clube dos meninos, que não querem saber de meninas. A turma é grande. Além dos três, Carequinha, Juca, Zeca, Alvinho, Fifi, Glorinha, Raposo e até duas bruxas, Alcéia e Meméia.

                       Andavam desaparecidos, há mais de 15 anos. Achavam que as crianças de hoje, com seus celulares, computadores, videogames, MPs não sei das quantas,  blue-rays, televisores digitais e outros badulaques eletrônicos, não se interessariam por eles. Pode ser. Mas se ainda existir um cantinho para a imaginação e o sonho, para a singeleza da infância, elas vão se apaixonar pela turma e querer fazer parte dela.

                       Eu nunca me esqueço das estrepolias que aprontamos, das tantas aventuras que vivemos. Fugi com eles do Seu Miguel, o implacável caça gazeteiros. Acompanhei passo a passo as investigações do Bolinha, travestido de Detetive Aranha, que levavam sempre ao mesmo culpado: Seu Jorge, o pai da Luluzinha. E depois de solucionar mais um caso, o Bola tripudiava:

 

 

— O Detetive Aranha ataca novamente!

 

 

 

 

 

                       As histórias clássicas dessa turminha estão de volta nas bancas.

                       Que bom será voltar a ser criança com elas.

 

 

 

Trem noturno para Lisboa

 

 

 

 

 

 

 

 

“VIVO EM MIM PRÓPRIO COMO NUM TREM EM MOVIMENTO. Não entrei nele por livre e espontânea vontade, não pude escolher e sequer conheço o local de destino. Um dia, num passado distante, acordei no meu compartimento e senti o movimento. Era excitante, escutei o barulho das rodas, pus a cabeça para fora da janela, senti o vento e me deliciei com a velocidade com que as coisas passavam por mim. Eu queria que o trem jamais interrompesse a sua viagem. De maneira nenhuma eu queria que ele parasse para sempre em algum lugar. 

                        Foi em Coimbra, num banco duro de auditório, que me dei conta: não posso mais sair. Não posso mudar de linha nem de direção. Não sou eu quem determina a velocidade. Não vejo mais a locomotiva e não posso reconhecer quem a conduz, nem se o condutor parece ser de confiança. Não sei se ele lê os sinais corretamente e percebe quando uma agulha de trilhos está errada. Não posso trocar de compartimento. Vejo pessoas passando no corredor e penso: quem sabe nos seus compartimentos tudo é bem diferente do que aqui. Mas não posso ir lá e ver, pois um cobrador que nunca vi e nem vou ver trancou e selou a porta do compartimento. Abro a janela, debruço-me para fora o máximo que consigo e vejo  que todos os outros fazem o mesmo. O trem percorre uma suave curva. Os últimos vagões ainda estão no túnel e os primeiros já voltaram para dentro dele. Quem sabe, o trem anda em círculos, sempre, sem que alguém perceba, nem mesmo o condutor? Não tenho a menor ideia do tamanho da composição. Vejo todos os outros que esticam os pescoços para ver e entender alguma coisa. Saúdo-os, mas o vento leva as minhas palavras para longe.

                        A iluminação no compartimento muda sem que eu possa determinar qualquer coisa. Sol e nuvens, crepúsculo e madrugada, chuva, neve, tempestade. A luz no teto é mortiça, torna-se mais clara, começa a ofuscar, treme, apaga-se, volta, é uma lamparina, um castiçal, um tubo de néon cintilante, tudo ao mesmo tempo. A calefação não é confiável. Pode aquecer com calor e falhar com frio. Quando aciono o interruptor, ouço o clique-claque, mas nada muda. Estranho que nem mesmo o sobretudo me aquece sempre da mesma forma. Lá fora as coisas parecem estar indo no seu rumo habitual e normal. Será que isso acontece também no compartimento dos outros? No meu, de qualquer forma, as coisas se passam de forma diferente do que eu esperava, bem diferente. O construtor do trem estaria bêbado? Louco? Um charlatão diabólico?

[…]

                        Adoro túneis. Eles são, para mim, a imagem da esperança: algum momento tudo voltará a ficar claro. Caso não seja noite.

                        Às vezes recebo visitas no compartimento. Não sei como isto é possível com a porta trancada e selada, mas acontece. Geralmente esta visita vem num momento impróprio. São pessoas do presente e do passado. Vêm e vão, conforme querem, não têm respeito e me incomodam. Preciso falar com elas. É tudo provisório, descomprometido, votado ao esquecimento, conversas de trem. Alguns visitantes desaparecem sem deixar rastro. Outros deixam rastros pegajosos e fétidos, não adianta arejar. Nestas horas quero arrancar todo o mobiliário do compartimento para trocar por um novo.

                        A viagem é comprida. Há dias em que desejo que seja infinita. São dias invulgares, preciosos. Há outros em que fico aliviado por saber que haverá um último túnel em que o trem parará para sempre.”

 

                       

Esse texto, assim como o do post anterior, foi extraído do romance que ontem terminei de ler, Trem noturno para Lisboa, de autoria de Pascal Mercier, pseudônimo literário Peter Bieri, nascido em Berna e atualmente professor de Filosofia em Berlim, onde vive.

 

                        Os trechos reproduzidos são reflexões escritas pelo médico e poeta português Amadeu Inácio de Almeida Prado, publicadas por uma de suas irmãs 30 anos depois da morte dele.

                        Subitamente perturbado pelo encontro com uma portuguesa que parecia prestes a se suicidar, atirando-se de uma ponte, e logo depois pelos escritos do médico que lhe caem nas mãos num sebo, Raimund Gregorius, professor de línguas clássicas em Berna, um homem introvertido e solitário, chamado por seus colegas e alunos de Mundus e Papiro, levanta-se da mesa durante uma aula, sai da sala e mais tarde toma um trem noturno para Lisboa.

                        Enquanto procura reconstituir a vida de Amadeu e compreendê-lo, o que busca realmente  é a si mesmo e emprestar sentido à sua vida acomodada e opaca. Suas andanças por Lisboa, o aprendizado do português, cuja sonoridade o encanta, o relacionamento com as pessoas que fizeram parte da vida de Amadeu ensejam descrições deliciosas, entremeadas das reflexões instigantes do enigmático médico e escritor, que participou da resistência à ditadura salazarista.

                        Não tenho especial apreço pela obra de Isabel Allende, mas concordo inteiramente com a sua opinião que consta da capa da edição brasileira de Trem Noturno para Lisboa: “Um deleite para a alma. Um dos melhores livros que li nos últimos tempos.”