Posts from janeiro, 2012

Santos Reis

 

 

 

 

 

“Todos os reis cairão diante dele”

(Salmo 72)

 

 

            Podia ser assim.

            Já fazia uns dez dias que o menino tinha nascido quando Baltazar, sem bater à porta, foi entrando no barraco de Melchior.

            — Ô compadre, vou lhe pedir um favor, que só depende da sua boa vontade. É necessário uma viração pro José, que está vivendo em grande dificuldade.

            — Mas que José? Zé em dificuldade é o que não falta neste mundo.

            — Ele está mesmo dançando na corda bamba, ele é aquele que na escola de samba toca cuíca, toca surdo e tamborim. Faça por ele como se fosse por mim.

            — Ah, já sei quem é. Mas do que ele precisa?

            — Seguinte. No dia 25 nasceu o filho dele. E ele e a mulher estão na pior, lá no Morro da Carestia. Tá faltando tudo. Ele tá desempregado há mais de ano, vivendo de seus biscates de carpinteiro, aqui e acolá. Precisamos dar uma força pro irmão.

            — Tudo bem. O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando. Vamos arrumar uns troços por aí, com a comunidade. Outro que pode ajudar é o Gaspar, que anda bem de vida. Vamos falar com ele.

            Dois dias depois os três foram até o barraco de José e viram de perto como a situação era aflitiva. O moleque estava enrolado nuns trapos e dormia sobre um amontoado de palha. Nem colchão tinha.

            Deixaram lá umas cestas básicas, roupas e outras coisas mais que tinham conseguido arrecadar.

            Baltazar, que era pai de santo, benzeu o menino e acendeu um incenso para lhe abrir os caminhos.

            Melchior ficou com tanta pena que tirou o cordão de ouro do pescoço e entregou a José para que vendesse e conseguisse algum dinheiro.

            Gaspar foi pródigo nas oferendas. Mas fez questão de deixar um óleo perfumado para a mãe passar no menino e lhe trazer boa sorte, como era da tradição de sua família.

            A trancos e barrancos o menino foi crescendo, e desde cedo demonstrou seu talento de líder inato, inteligência e esperteza sem igual. Quando não conseguia por bem, ia mesmo na porrada e ninguém podia com ele.

            Hoje, aos 33 anos, é tido como o mais perigoso meliante daquelas bandas (dizem que é o chefe do tráfico de uma nova droga, que mexe com a cabeça das pessoas e da qual pouco se sabe ), temido por muitos, mas adorado pelos seus seguidores.

            O Governador Pilatos, em recente pronunciamento em rede de TV, tranquilizou a população, prometendo que em breve a Polícia vai pegá-lo e dar um fim ao seu reinado.

 

 

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Paris, toujours Paris!

 

 

 

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          Apenas um pequeno exemplo dos “filminhos” (como ele os chama) que José Marcio Castro Alves é capaz de fazer com um computador comum e pouquíssimos recursos, mas com seu talento e bom gosto raros.

 

 

 

História da carochinha

 

 

                               

             Manuela passou o sábado em casa.

             Pela manhã a levamos para nadar e brincar na Recreativa, onde eu não ia há uns bons 5 anos!

             A tempestade do fim de tarde, com seus relâmpagos e trovões, assustou-a e ela, que é sempre tão destemida, quis se abrigar no meu colo.

             Recordei-me, então, de que quando pequenino também tive medo de trovões, até que um dia na casa de meus avós (lembra-me a história, mas não quem a contou) me disseram que era apenas São Pedro arrastando os móveis no céu, por causa da chuva.

             Repeti-lhe a história, e até mesmo arrastei uma cadeira, levantei-a e a bati no chão para imitar o barulho.

             Ela pulou do colo e passou a me acompanhar.

             Na trovoada seguinte levantou o dedinho e me disse, sem nenhum medo:

             — Cuta, São Pedo!

 

 

 

 

Ítaca

 

 

 

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            Konstantinos Kaváfis (1863-1933), poeta egípcio nascido em Alexandria, intérprete do espírito do mundo helênico, foi consagrado póstumamente pela crítica como uma das figuras literárias mais importantes do século XX.

            Filho de um rico comerciante grego estabelecido no Egito, então colônia britânica, viveu no confronto com outras culturas sobreviventes, sob o protetorado inglês. Cético, questionador da cristandade, do patriotismo e da heterossexualidade, só depois dos quarenta anos começou a escrever poemas em grego moderno, baseados na experiência pessoal e em reflexões sobre o tempo e a morte, e marcados essencialmente por um erotismo homossexual e o culto à tradição helênica.

            Sua obra, composta por cerca de 200 poemas, foi reunida e publicada em um só volume depois de sua morte, ocorrida em Alexandria, poucos dias após completar 70 anos de vida, vítima de câncer da laringe.

            Numa pesquisa feita pela Folha de S. Paulo (2000), críticos literários incluem seu poema À Espera dos Bárbaros na oitava posição entre os 100 melhores poemas do século XX.

 

 

                                                           ÍTACA

 

                                                                                                          Konstantinos Kaváfis

 

 

                                   Se partires um dia rumo a Ítaca,

                                   faz votos de que o caminho seja longo,

                                   repleto de aventuras, repleto de saber.

                                   Nem Lestrigões nem os Cíclopes

                                   nem o colérico Poseidon te intimidem;

                                   eles no teu caminho jamais encontrarás

                                   se altivo for teu pensamento, se sutil

                                   emoção teu corpo e teu espírito tocar.

                                   Nem Lestrigões nem os Ciclopes

                                   nem o bravio Poseidon hás de ver,

                                   se tu mesmo não os levares dentro da alma,

                                   se tua alma não os puser diante de ti.

 

                                   Faz votos de que o caminho seja longo.

                                   Numerosas serão as manhãs de verão

                                   as quais, com que prazer, com que alegria,

                                   tu hás de entrar pela primeira vez um porto

                                   para correr as lojas dos fenícios

                                   e belas mercâncias adquirir:

                                   madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,

                                   e perfumes sensuais de toda espécie,

                                   quanto houver de aromas deleitosos.

                                   A muitas cidades do Egito peregrina

                                   para aprender, para aprender dos doutos.

 

                                   Tem todo o tempo Ítaca na mente.

                                   Estás predestinado a ali chegar.

                                   mas não apresses a viagem nunca.

                                   Melhor muitos anos levares de jornada

                                   e fundeares na ilha velho enfim,

                                   rico de quanto ganhaste no caminho,

                                   sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

                                   Uma bela viagem deu-te Ítaca.

                                   Sem ela não te ponhas a caminho.

                                   Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

 

                                   Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.

                                   Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,

                                   e agora sabes o que significam Ítacas.

 

                                                                                                     (Tradução: José Paulo Paes)

 

 

 

Abominável e adorável

 

 

 

 Cemitério Judeu de Praga

 

 

            Nos últimos dias andei envolvido até a medula  — sem que conseguisse me livrar dele —  com um tipo completamente abominável, e absolutamente adorável.

            Um paradoxo redivivo, piemontês, filho de pai turinês e mãe francesa (ou saboiana), misantropo, misógino, glutão, rematado falsário e trapaceiro, de nenhum escrúpulo.

            Antes de mim (que nada sou), esteve ele em contato com grandes vultos do século XIX, como Garibaldi (“de estatura modesta, não louro, mas alourado, pernas curtas e arqueadas e, a julgar pelo modo de andar, vítima de reumatismo.”); Dumas (“A pele olivácea, os lábios pronunciados, túmidos e sensuais, um capacete de cabelos crespos como os de um selvagem africano.”); Zola (“um escritor algo vulgar como Zola publicou um artigo inflamado (J’accuse!); um grupo de escrevinhadores e supostos cientistas veio a campo exigindo a revisão do processo. Quem são esses Proust, France, Sorel, Monet, Renard, Durkheim? Nunca os vi no salão Adam. Desse Proust, dizem-me que é um pederasta de 25 anos, autor de escritos felizmente inéditos, e Monet um borra-tintas de quem vi um ou dois quadros nos quais ele parece enxergar o mundo com olhos remelentos.”) ; Vitor Hugo (“agora transformado em monumento de si mesmo, paralisado pela idade, pela toga senatorial e pelas sequelas de uma congestão cerebral.”); até mesmo com um certo Dr. “Froïde” (conforme ele grafa), ainda a esboçar suas teorias, a quem abasteceu da cocaína que o ajudava a vencer a melancolia recidiva durante a estada em Paris para tomar lições com o mestre Charcot.

            Acompanhou de perto e participou sub-repticiamente de acontecimentos memoráveis, como as batalhas de unificação da Itália, a tomada da França pelos prussianos, a Comuna de Paris, o caso Dreyfus, a divulgação dos célebres “Protocolos dos Sábios do Sião” e muitos outros mais (incluindo uma missa negra).

            Judeus, jesuítas, maçons, alemães, franceses, italianos, mulheres, ninguém escapa da sua repulsa e maledicência:

 

Judeus: “E quando eu crescera o suficiente para entender, ele (o avô) me recordava que o judeu, além de vaidoso como um espanhol, ignorante como um croata, cúpido como um levantino, ingrato como um maltês, insolente como um cigano, sujo como um inglês, untuoso como um calmuco, autoritário como um prussiano e maldizente como um astiense, é adúltero por um cio irrefreável — resultado da circuncisão, que os torna mais eréteis, com uma desproporção monstruosa entre o nanismo da corporatura e o tamanhão cavernoso daquela sua excrescência semimutilada. Sonhei com os judeus todas as noites, por anos e anos. Por sorte, nunca encontrei algum, exceto a putinha do gueto de Turim, quando eu era rapaz (mas não troquei mais de duas palavras), e o doutor austríaco (ou alemão, dá no mesmo).”

 

Alemães: “O abuso da cerveja torna-os incapazes de ter a mínima ideia da sua vulgaridade, mas o superlativo dessa vulgaridade é que não se envergonham de ser alemães. Levaram a sério um monge glutão e luxurioso como Lutero (pode-se desposar uma monja?), só porque arruinou a Bíblia traduzindo-a para a língua deles. Alguém não disse que abusaram dos dois grandes narcóticos europeus, o álcool e o cristianismo? Consideram-se profundos porque sua língua é vaga, não tem a clareza da francesa e nunca diz exatamente o que deveria, de modo que nenhum alemão sabe jamais o que queria dizer — e toma essa incerteza por profundidade. Com os alemães é como com as mulheres, nunca se chega ao fundo.”

 

Franceses: “Desde que me tornei francês (e já o era pela metade, pelo lado materno), compreendi quanto meus novos compatriotas são preguiçosos, trapaceiros, rancorosos, ciumentos, orgulhosos além de todos os limites, a ponto de pensarem que quem não é francês é um selvagem, e incapazes de aceitar críticas.” […] “Não amam seus semelhantes, nem quando tiram vantagem deles. Ninguém é tão mal-educado como um taberneiro francês, que parece odiar os fregueses (e talvez seja verdade) e desejar que não estivessem ali (e é mentira, porque o francês é avidíssimo) Ils grognent toujours. Experimentem lhe perguntar alguma coisa: sais pas, moi, e protraem os lábios como se peidassem. São maus. Matam por tédio. É o único povo que durante vários anos manteve seus cidadãos ocupados em se cortarem reciprocamente a cabeça, e a sorte foi que Napoleão desviou-lhes a raiva para os de outra raça, enfileirando-os para destruir a Europa.”

 

Italianos: “O italiano é inconfiável, mentiroso, vil, traidor, sente-se mais à vontade com o punhal que com a espada, melhor com o veneno que com o fármaco, escorregadio nas negociações, coerente apenas em trocar de bandeira a cada vento – e eu vi o que aconteceu aos generais bourbônicos assim que apareceram os aventureiros de Garibaldi e os generais piemonteses. É que os italianos se modelaram com base nos padres, o único governo verdadeiro que já tivemos desde que aquele pervertido do último imperador romano foi sodomizado pelos bárbaros porque o cristianismo havia debilitado a altivez da raça antiga.”

 

Padres e Maçons: “Você começa a tê-los ao redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto; e no dia seguinte, no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo. Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo.” […] “Os piores de todos são certamente os jesuítas. Tenho como que a sensação de lhes haver pregado algumas peças, ou talvez tenham sido eles que me fizeram mal, ainda não recordo bem. Ou talvez tenham sido seus irmãos carnais, os maçons. Como os jesuítas, apenas um pouco mais confusos.” […] “Maçons e jesuítas. Os jesuítas são maçons vestidos de mulher.”

 

“Quem amo? Não me vêm à mente rostos amados. Sei que amo a boa cozinha: ao pronunciar o nome La Tour d’Argent, experimento como que um frêmito por todo o corpo. É o amor?”

 

            Calma, não se aprestem para acender as fogueiras da Nova Inquisição do Politicamente Correto e torrar esse ímpio, que é apenas o protagonista do magnífico e delicioso romance de Umberto Eco, “O Cemitério de Praga”, que nos reconduz ao gênero irresistível dos “feuilletons”, ao longo das quase 500 páginas (em tradução irrepreensível de Joana Angélica d’Ávila Mello e com ilustrações preciosas, a maioria do arquivo iconográfico do próprio Eco), que não se consegue parar de ler.

            Ao final, o próprio Eco (o Narrador) esclarece: “O único personagem inventado nesta história é o protagonista, Simone Simonini — ao passo que não é inventado o capitão Simonini, seu avô, embora a História só o conheça como o misterioso autor de uma carta ao abade Barruel.”  […]  “Porém, pensando bem, até Simone Simonini, embora seja o efeito de uma colagem, pela qual lhe foram atribuídas coisas feitas na realidade por pessoas diferentes, existiu de algum modo. Ou melhor, em uma palavra, ela ainda está entre nós.”

 

 

 

 

 

 

Haicais pontuais 2 (A Missão)

 

 

 

Ponto final

 

Sucessão infinitesimal

nenhum ponto da linha

é ponto final

 

 

 

Vírgula

 

Para, velhos, gramáticos,

pausa, respiratória,

entremeio, de, asmáticos.

 

 

 

 

Reticências 

(Para a Selma)

 

Interrupta sapiência

cada ponto sentencia

além da ciência…

 

e/ou

 

Trípticos

pontos críticos

a linha alinhavam…