Selma Barcellos
Ao me deparar com a inusitada estante, brinquei de arrumá-la.
No topo, somente um livro. O que fez minha cabeça num daqueles clear days that you can see forever. O que me inquietou, sacudiu o ponteiro da bússola e do viver cartesiano. Sim, ele mesmo, o Quixote de jamais abrir mão do sonho e de enfrentar moinhos.
No lado esquerdo do peito, os que me viram crescer e de onde brotavam, nutridas por múltiplas nascentes, as melhores fontes de se beber ― a do sítio de Lobato, das veredas do Rosa, da Pasárgada de Bandeira, do rio de Pessoa…
Ali pela altura da fome, os que me saciaram e até mesmo os que desceram mal ― indigestos obrigatórios da escola, leites derramados, alquimias com pouca substância de chef mago e barrinhas de autoajuda que apenas enganaram o estômago. Banidos da dieta, valeu prová-los.
Nas pernas, os que foram pilares de minha formação cultural, ética e espiritual, os que me fizeram captar a vida em sua pluralidade e caminhar em frente. Aqueles que quase (senão perderia a graça) me deram a resposta para “viver, a que será que se destina?”.
Ah, nos pés cansados, edições “havaianas” ― leves, refrescantes, alívio imediato e nem cheiro deixaram…
Por fim, ao alcance de meus abraços, os que me perpetuaram em sua escrava e pelos quais tenho zelo, até ciúme, e me pego a relê-los sem mais nem porquê. Passagens secretas, só eu tenho a senha.
E os queridos do blog? Como arrumariam essa estante? Fico curiosa por saber ao menos de um livro que lhes fez (ou faz) as delícias…
Selminha, que historinha mais tocante! O livro que me fez as delícias foi Reinações de Narizinho, que li bem garoto. Obrigado, mãe, que nos obrigava a ler Lobato e Alencar.
Antonio Bandeira, sabe que Emília e Saci ainda aprontam por cá? A estante dá uma mexidinha…
Beijocas!
A arrumação da minha estante seria muito parecida com a da Selminha ― quelle surprise!
Dom Quixote na cabeça (com Sancho Pança sempre ao lado para não me levar tão a sério). Como na figura da estante parece caber outros no topo, pelo menos a tríade do Bruxo do Cosme Velho.
Do lado esquerdo do peito, aqueles mesmos da cronista, mais Drummond e “O apanhador no campo de centeio”, com o qual as gerações da família Gama têm o compromisso solene de presentear a seguinte na idade aprazada.
Nas pernas, os pilares: Borges, Camus, Ortega Y Gasset, Poe, mestres Annibal e Gilberto, entre outros.
Falta muito ainda.
Acho que só uma estante não dá!
Mestres Annibal e Gilberto? Dois bruxos (lindos) também.
Aqui, ‘O Vento e a Vela” e “Timós” , do mano, esperam pelos próximos Couri.
Beijocas, Antonio!
Gama, eu arrumaria minha estante com diversos livros clássicos da literatura e outros menos conhecidos… Há 3 livros que considero tocantes, dos quais gostei muito: Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Capitães da Areia, de Jorge Amado, além de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.
Abraçaço.
André, o Rosa é um caso sério na minha vida de leitora. Chegou a fazer do meu coração uma extensão do seu Cordisburgo, das Gerais… Quem como ele?
Beijocas!
LIDA
O que lia Camões?
E Homero, o que lia?
Então deixem que eu destile
essa saliva de poesia
sem antes nada ter lido.
É que eu lido com um desfile
de ideias, almas e conflitos
sem ter lido o que antes fora escrito.
Circunscrito na emergência,
abdico da influência.
Respeito os vários estilos,
até porque um não tenho…
Ora rimo, ora transgrido
as mais elementares regras.
Por isso tenho sofrido
os mais severos castigos
por quase nada ter lido.
E lido com tal preconceito,
de ser tratado de louco,
só por ter lido tão pouco.
Poetas estão sempre circunscritos na emergência…
Brenno, posso publicar no Bloghetto?
Você deixa, Antonio?
Beijocas!
Morrendo de ciúme, mas deixo, Selma…
Brincadeirinha. Publica sim!
Afinal nós três já selamos a parceria, e você é madrinha da retomada da dupla.
Vou publicar por aqui também, com um pequeno artigo sobre livros, bibliotecas e leituras.
Oh, Selminha! Hoje amanheci LENDO! Que coisa mais linda, Selma. Lendo você, Brenno, Gama…o meu dia, hoje, não tem outra saída: será maravilhoso!
O livro mais importante da minha vida chama-se “Doidão”, de José Mauro de Vasconcelos. Foi o meu primeiro livro “de verdade”. O papai comprou em uma viagem e trouxe para mim. Eu o li umas duzentas vezes…rs..
Um beso, Selminha.
Quantas vezes o sonho se repetiu, não é, Sophie? A cada (re)leitura, uma viagem.
Beijocas!
Estou arrumando minha estante, e gastando uma nota de encadernação.
Sou meio cético nessas coisas de melhores e mais importante. No final do século uma revista/jornal, ou um colunista fez uma pesquisa sobre a mulher mais bonita do século. E um leitor/eleitor votou na Ana Paula Arósio. Um amigo comentou: Do século? da quinzena e olha lá.
Hoje, na minha estante, tudo de Clarice.
Cecília, Hilda (ando meio fascinado na releitura que estou fazendo dessa “campineira” maravilha
Colocaria Jubiabá de jorge Amado, na minha modesta opinião sua melhor obra. Tem uma personagem entre tantas, acho que seu nome é Lindinalva. figura sedutora, bonita,..
Quando leio Ubaldo, aos domingos, falando da ilha de Todos os santos e seus amigos, sempre me lembro dos personagens de Jubiabá.
Os livros que já estão na estante são os Bandeiras, Drummond…e tudo de Quintana. e o livro de crônicas do Scliar que estou lendo “A poesia das coisas simples”
A estante que estou arrumando vão ficar os quase 300 livros sobre a história do Rio de Janeiro. é a única herança que vou deixar para meus netos…
ia me esquecendo do primeiro livro que li…os 3 mosqueteiros.
“toi et moi” paul Geraldy..que dizem grande inspirador com paul valery das letras da bossa nova. isso ouvi faz muito tempo…
ia me esquecendo do grande Pessoa…nossa!!! esse não fica na estante fica espalhado pela casa…
bjs
Paulinho, os ‘Pessoas’, desde sempre, ao alcance dos abraços. Minha “quintessência do desassossego”.
Beijocas!
Caro Gama, acompanho o blog da Selma desde o início. Portanto, conheço-o bem.
Aprecio demais a sensibilidade com que você pinça seus textos e os valoriza em espaço de tanto lastro. Pouco comento, tanto lá quanto cá, para não me tornar “repetitivo” em meus elogios.
Abraços.
Meu caríssimo Luiz, você nem imagina a grata surpresa, e a imensa honra, da sua visita estelar.
Mesmo não nos tendo encontrado pessoalmente (ainda), também o conheço e admiro pela linda família que Selma e você constituíram e pela irradiante luz de viver que nos transmitem a todos que orbitamos a “Barcellândia”.
Apareça sempre.
Boa viagem a vocês e ótimo fim de ano com os filhos, noras e amigos na nossa terrinha d’além mar e de dentro do coração.