O Nascimento do Prazer (excerto)
“O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom ― como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos ― pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.”
Entender é limitado
“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”
(Clarice Lispector, in “A descoberta do mundo”, crônicas)
“Quer me mandar algumas coisas? Você é poeta, Clarice querida. Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal minhas palavras. Você tem peixinhos nos olhos, você é bissexta. Faça versos, Clarice, e se lembre de mim. Você nunca é falante, barulhenta. O que você escreve nunca dói nem fere os ouvidos. Você sabe escrever baixo. E sua assinatura, Clarice, é você inteirinha: Clara…Clarinha…Clarice.”
(Manuel Bandeira)
Gama, eu gosto muito da Clarice Lispector, talvez seu livro mais famoso seja A Hora da Estrela que é muito bom, também li seu livro A Mulher que Matou os Peixes e achei muito triste, além disso Clarice era ucraniana e viveu 57 anos (1920-1977).
Abraçaço.
Comentar Clarice é uma tarefa difícil. Clarice foi além das letras e das palavras. Gama nos oferece três trechos da maior emoção.
” É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida’ 10 palavras e 43 letras e um mundo…………..
minha pequena contribuição: (…) a mulherice só lhe nasceria tarde porque ATÉ NO CAPIM VAGABUNDO HÁ DESEJO DE SOL” na “Hora da Estrela, pg 43 , 23º edição
Vai lá, uma indagação: por que será que usou desejo no lugar de necessidade?
finalizo….”Pensar é um ato. Sentir é um fato” também na…. da Estrela. De repente a resposta…não me atrevo
meu deus!!!!!! essa mulher existiu e continua cada dia mais viva……….ler Clarice é rele-la.
Sem querer ser chato, já sendo: cuidado com biografias e ensaios oportunistas que rolam por aí…………..
Desculpem , infelizmente o Gama só mandou 2 textos..mas a voz e musicalidade de Bandeira é de uma magnitude (acho que Clarice não usaria essa palavra) que me confundi…e só como informação. Clarice era botafoguense e fanática de ouvir os jogos pelo Rádio.(como dizia Almirante: Rádio é uma palavra que deve sempre ser iniciada por maiúscula)
Traz um “isto” no lugar do sorriso
que a torna cativante.
Tão misteriosa quanto doce
cultiva enigmas / sequestra rimas
mas continua instigante.
Tão brilhante quanto faceira
magnetiza, hipnótica,
as sensações curiosas
da ousada imaginação
que presta atenção,
delirante,
nas curvas do intelecto
do selvagem coração.
Do fascínio ao delírio
existe uma frágil ponte
difícil de atravessar.
Mas é vasto…
Vai durar.
Brenno, Clarice daria um “isto” depois de ter visto o que você lhe disse.
Brenno, vc conseguiu com leveza faer uma descição do mundo tão misterioso ,que CLARICE nos mostra em seus textos.ELA REALMENTE TEM UM isto….que nos torna seus suditos…..