Posts from agosto, 2013

O colecionador

 

 

             Annibal Augusto Gama

 Annibal

 

 

 

 

 

Era um colecionador de extravagâncias, algumas absolutamente incríveis, como, por exemplo, um relógio de parede que, ao bater as horas e quartos de hora, dizia insultos terríveis a quem estivesse perto ou o consultasse.

Máquinas estúpidas que deslizavam guinchando atrás das pessoas e lhes mordiam doloridamente os pés, cachorros que vinham mijar na barra de nossas calças. Ele ria, e ligava todas essas máquinas para se divertir e divertir os seus amigos.

Por último, adquiriu uma boneca de plástico, de fabricação exclusiva e apenas sob encomenda, de uma fábrica japonesa, que lhe custara uma nota. Era realmente belíssima a boneca que me mostrou, mas eu lhe disse: “Isso jamais substituirá uma mulher de verdade”. “Substitui sim, e com vantagem”, ele afirmou.

Dois meses depois, ele me convocou, indignado, dizendo-me que haviam matado a sua boneca de plástico. “Será que não foi ela mesma que praticou haraquiri?”, eu lhe disse, gozando-o. “Não brinque, respondeu, “ela foi esquartejada”. Fui ver a boneca e vi que ela de fato fora esquartejada, provavelmente por uma serra elétrica.

― Eu lhe pago o que você quiser para você descobrir quem fez isso com minha boneca.

Não lhe disse nada, mas a minha primeira suposição foi a de que aquilo era serviço de alguma mulher. Mas mulher não usa serra elétrica. Mulher adota antes veneno.

Sou investigador particular, e já havia antes lhe prestado alguns serviços.

Fiz as perguntas de praxe, quem tinha acesso livre à sua casa, onde ele guardava a boneca, para quem a exibira, quando é que estivera ausente, se suspeitava de alguém, etc. Ele me respondeu que suspeitava de todo mundo. “É melhor você suspeitar de uma mulher”, eu lhe disse. “Uma mulher ciumenta, sei que você tem amantes e é um depravado”. Aconselhei-o também a ir à Polícia e denunciar o assassinato da boneca de plástico. “Não brinque”, ele me respondeu, “o caso é grave”.

― Será que a sua boneca não o estava traindo com outro? ― sugeri.

― Impossível ― ele explicou. ― Ela tem garantia de fidelidade absoluta, da fábrica.

Fui entrevistar as amantes dele, e elas admitiram que tinham ciúmes da boneca, mas seriam incapazes de manejar uma serra elétrica. Uma delas disse-me que não gostava nem de ligar o ferro elétrico. Demais disso, disseram, nenhuma boneca as superava, elas faziam coisas que nem uma boneca japonesa saberia fazer.

No meu escritório, refleti: Se não fora uma mulher a esquartejadora, fora um homem. E lembrei-me do Padre Zózimo, que ia à casa dele para pedir esmolas para os pobres e para as obras de igreja. Provavelmente, por deboche, ele exibira a boneca ao Padre Zózimo.

Fui procurar o padre e, de supetão, lhe disse: “Sei que foi o senhor que esquartejou a boneca”.

Ele não titubeou:

― Fui eu mesmo, e não me arrependo. Aquilo era obra do Diabo, e precisava ser exterminado. Já pensou se os padres ricos começam a comprar bonecas de plástico, como aquela?

Não denunciei a ele o Padre Zózimo e, passados uns meses, informei-o de que desistia da investigação. Não havia achado nenhuma pista. E aconselhei-o a comprar outra boneca, mas não a exibir a ninguém.

É uma imprudência exibir as nossas mulheres.

 

boneca de plástico 3

 

 

 

Meninas da cidade

 

 

“Meninas da Cidade” (Fátima Guedes), com ela e Elis Regina

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MENINAS DA CIDADE

 

São doze pancadas (doze badaladas),

sol a pino, a telha vã

esquenta o pó da minha casa,

esquenta a bilha d´água,

de tanto que ferve na minha mão

agulha e pano, armas de todo dia.

Na minha mão tesoura e fé,

e pé na mesma tábua em falso

(destino e pé descalço).

Desde manhã sentada e presa aqui

rasgando as sedas das rainhas,

os brancos das donzelas,

que no escuro da cidade alguém

há de despir.

Ninguém verá tão belas,

filhas da falsidade.

A vila é tão pequena e infeliz sem elas que…

Que são doze pancadas, são doze ruelas,

que desgraçadamente sempre vão dar

numa mesma praça seca,

de noite suspirada.

De noite, tão imensamente farta

das paixões do dia.

De noite, suficientemente larga

pras bandalharias.

Meninas que se vem chegando aqui

cinturas ainda finas, medir felicidade.

No rosto a marca dos batons

das senhoras de bem,

as damas da cidade.

No peito arfante o roxo das mordidas

mais ferozes,

filhos da mesma terra, andantes e viajores,

rapazes e senhores de mais realidade.

São doze pancadas (já são doze dadas),

A lua a pino e eu já sei

que vou entrar na madrugada

rematando bainhas,

pregando rendas que amanhã vai ser

o baile das rainhas.

Amanhã, já se sabe que elas vão fazer

a história da cidade,

são muito cinderelas.

 

(letra extraída do site oficial de Fátima Guedes)

 

 

 

Contrição

 

          Érika Gentile

Érika

Érika é uma amiga querida de longa data. A infância da sua Helena e da nossa Júlia se entrelaçaram e nos enlaçaram as famílias pelo resto da vida. Mas ela agora vai ficar brava comigo.

No seu recato, escreve coisas assim, que acha de pouco valor, e o máximo que se permite é publicar algo do que produz no seu blog, “Nada Absoluto”, cujo link está na galeria aí do lado.

Se nada é absoluto, a bronca vai passar, ela haverá de me compreender e perdoar.

E os leitores do Estrela Binária, tenho certeza, vão me agradecer por apresentá-la.

 

 

 

                                               CONTRIÇÃO

 

                                                                                              Érika Gentile

 

                                   Sangrar é a nossa sina.

                                   Ao florescer sangramos,

                                   E sangraremos de novo

                                   Na hora do nosso fruto.

                                   Com pecado fomos batizadas,

                                   Nosso desejo condenado,

                                   E a força do nosso ventre

                                   Para sempre subjugada.

                                   Somos todas uma só,

                                   Mulheres de escolhas castradas,

                                   Apenas pernas abertas,

                                   Peitos de leite farto,

                                   E aparelhos reprodutores.

                                   Somos a sujeira do mundo

                                   Que se espalha com o nosso cheiro,

                                   pelo nosso cio.

                                   Nós somos culpadas.

                                   Nós, as miseráveis.

                                   Nós, as indecentes ,

                                   Debaixo do terço,

                                   Da burca,

                                   Com a genitália costurada,

                                   Nós as degradadas filhas de Eva

                                   Dilaceradas incessantemente

                                   Na clandestinidade.

                                   Mesmo que não haja gozo,

                                   Nem vontade,

                                   Nem consenso,

                                   Nem respeito.

                                   Só nos resta parir.

 

mulher (Érika)