Posts from janeiro, 2014

Outro retrato em branco e preto

 

 

 

“Retrato em branco e preto” (Tom Jobim / Chico Buarque), com Elis e Tom

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=zS64Qy6774Q&hd=1[/youtube]

 

Já conheço os passos dessa estrada

Sei que não vai dar em nada

Seus segredos sei de cor

Já conheço as pedras do caminho

E sei também que ali sozinho

Eu vou ficar tanto pior

E o que é que eu posso contra o encanto

Desse amor que eu nego tanto

Evito tanto e que, no entanto,

Volta sempre a enfeitiçar

Com seus mesmos tristes, velhos fatos,

Que num álbum de retratos

Eu teimo em colecionar.

 

Lá vou eu de novo como um tolo

Procurar o desconsolo

Que cansei de conhecer

Novos dias tristes, noites claras,

Versos, cartas, minha cara,

Ainda volto a lhe escrever

Pra lhe dizer que isso é pecado

Eu trago o peito tão marcado

De lembranças do passado e você sabe a razão

Vou colecionar mais um soneto

Outro retrato em branco e preto

A maltratar meu coração.

 

 

Novamente

 

      Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto 2 (2)

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                           NOVAMENTE

 

 

                                                           Fumaça e cinza.

                                                           Traços.

                                                           Estragos.

                                                           Rachaduras.

                                                           Decadências aparentes

                                                           de falsa realidade.

                                                           Recomposição

                                                           inevitável.

                                                           Renascimento

                                                           sobre cadáveres.

                                                           Traços,

                                                           aos poucos,

                                                           esses traços,

                                                           muito aos poucos,

                                                           tornam-se

                                                           retratos.

 

retrato 

 

 

 

Da arte de perder

 

        Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Assim como há uma arte de vencer, há uma arte mais sutil, que é a arte de perder.

As pessoas que preferem ganhar sempre, esquecem que a vitória é uma euforia passageira, carregada de obrigações e compromissos que pesam desmesuradamente, enquanto perder se torna uma lembrança permanente, com muitas reflexões: “Se não tivesse acontecido isso, se aquela bola não tivesse batido na trave, se eu tivesse feito aquilo, e não o que fiz…”

Quem olha com desprezo o perdedor esquece que ele também afinal vai perder, de um modo ou de outro. Perder é projetar-se para o passado, enquanto ganhar traz sempre a inquietação de se conservar e se preservar.

Aconselha-se aos que vão vencer: “Não perca a estribeira”. Já os perdedores não têm compromisso nenhum com o estribo, nem com o cavalo. Vão aonde os levam o cavalo, o vento e a estrada.

Uma camisa da qual se perdeu os botões deixa à mostra o peito que será bafejado pela brisa fresca da tarde. Ao contrário, os ganhadores conservam os botões abotoados até o pescoço, e abafam-se.

Vejam os casos dos ganhadores da sorte grande: eles precisam mudar-se de um lugar para outro, estar cercados de guarda-costas, perdem o sono, com medo de ser roubados, e já não têm sonhos deliciosos. O perdedor vai para onde quer, e pendura o chapéu em qualquer lugar.

Os vencedores não encontram explicação para a sua vitória, ou acham que tiveram mais coragem, mais energia, mais perspicácia; e não podem dizer, como os perdedores: “Perdido por perdido, truco!”

A mulher que você amou e perdeu continua sempre presente. E não envelhece, é sempre bela. Mas a mulher que você não perdeu lhe inferniza a vida. Você a cada dia acha nela defeitos que a outra, a perdida, não tem.

E aqui está a verdade: o melhor da festa é esperar por ela. Porque a festa é sempre a mesma coisa, e você acaba entediado ou embriagado.

O certo é que, quando você perde, ou se perde, você se acha. E o ganhador jamais se acha.

Um projeto que não se realizou pode ser um projeto que ainda se realizará. Mas, realizado, ele pode ter conseqüências desastrosas. Por isso, a Otávio, vencedor no Egito, prefira Marco Antônio, que teve Cleópatra nos braços.

Um navio encalhado, que jaz no fundo do mar, conserva o tesouro que continua sendo buscado. Se se consegue tirá-lo dali, é uma decepção.

Gosto mais dos barcos que chegam, e não dos barcos que vão. O peixe que você não fisgou é mais belo, porque nada para longe, enquanto o peixe que foi fisgado vai endurecer no frigorífico.

Nem vale mais um pássaro na mão do que dois voando: Não senhor, os dois que voaram cantam, e o que ficou na mão entristece e perece.

Está errada a exclamação bíblica: “Vae, victis!” Porque os vencidos são aqueles que já não temem, e não têm nada mais a perder.

E quando Proust buscava o tempo perdido já o tinha reencontrado.

Ai dos vencedores, que são homens sem imaginação! Perderam a substância da vida.

 

 

 

Rolezinho

 

 

Fenômeno tipicamente paulistano, cujas praias são os shoppings, o rolezinho é o assunto do momento e começa a se espraiar por outras cidades por puro espírito de imitação, de “estar na moda”.

Aliás, “estar na moda” é a marca principal do rolezinho, embora já pululem por todos os cantos análises da intelligentsia tupiniquim conferindo, à direita e à esquerda, conotações político-sociais ao suposto “movimento”, comparando-o às manifestações de rua do ano passado, a protestos de excluídos e até ao “Ocupity Wall Street”! Com tanto tesão intelectual, já deve haver teses de mestrado e doutorado em gestação. 

A oposição enxerga reflexo da crise social; o governo, da ascensão social.

Devagar com o ardor, minha gente, às vezes um rolezinho é apenas um rolezinho, como diria Freud.

O que quer afinal a meninada do rolezinho?

Divertir-se, encontrar-se com amigos e conhecer outros, olhar vitrines, paquerar, beijar muito, fazer algazarra, como todas as gerações fazem e fizeram na mesma idade, cada qual a seu modo. O rolezinho é o footing da era da informática e das redes sociais.

Basta ver o que dizem, pensam e exibem os líderes e participantes dos rolezinhos, em frases colhidas ao acaso pela internet:

 

“Vamos ai pessoal zoa muito conhece novas pessoas e catar muitas minas e curti muito e sem roubo ai so curti mesmo”;

 

“Nós é Red Nós é Ouro Boné pa Tras Nike de Mola Nós é os Menino que as Menina Gosta”.

 

Afora a língua portuguesa, a turma do rolezinho não quer destruir nada, muito menos os shoppings, templos de consumo a que não teriam acesso. O que eles querem mesmo é celebrar os shoppings e o consumo. São tão consumistas, hedonistas e vazios quanto a molecada das classes A e B. Isso sim há de ser preocupante.

A magnífica charge de Jean Galvão na edição de hoje da “Folha de S. Paulo” (A2 Opinião) sintetiza tudo isso de uma forma que só mesmo a charge é capaz: num primeiro quadro, um homenzinho em close-up convida sorridente: “Ei, jovens! Eu apoio um rolezinho em minha loja!”. No segundo quadro, com a cena aberta, vê-se o mesmo homenzinho desanimado em frente de sua loja, que é uma livraria, enquanto a multidão de jovens ruma na direção oposta, seguindo a placa indicativa de “Moda, Cinema, Alimentação”.

É nóis, mano!

 

 

“Chopis Centi” (Dinho / Júlio Rasec), com os Mamonas Assassinas

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=p_BwCPjhztQ&hd=1[/youtube]

 

 

Eu ‘di’ um beijo nela

E chamei pra passear

A gente ‘fomos’ no shopping,

Pra ‘mó de’ a gente lanchar

 

Comi uns bichos estranhos,

Com um tal de gergelim

Até que tava gostoso,

Mas eu prefiro aipim

 

Quanta gente,

Quanta alegria,

A minha felicidade

É um crediário

Nas Casas Bahia

 

Quanta gente,

Quanta alegria,

A minha felicidade

É um crediário

Nas Casas Bahia

 

Paríba!

Joinha, joinha chupetão vamo lá

Chuchuzinho vamo embora

Onde é que entra hein?

 

Esse tal “Chópis Cêntis”

É muicho legalzinho,

Pra levar as namoradas

E dar uns rolêzinhos

 

Quando eu estou no trabalho,

Não vejo a hora de descer dos andaime

Pra pegar um cinema, do Schwarzenegger

“Tombém” o Van Daime.

 

Quanta gente,

Quanta alegria,

A minha felicidade

É um crediário

Nas Casas Bahia

 

Bem Forte, bem forte

Quanta gente,

Quanta alegria,

A minha felicidade

É um crediário

Nas Casas Bahia

 

 

Posse

 

      Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto 2 (2) 

 

 

 

                                             

 

 

                                                                                  POSSESSION

 

                                                                                  La connivence,

                                                                                  le pacte tacite entre

                                                                                  deux points géométriques,

                                                                                  éloignés l’un de l’autre,

                                                                                  espièglement.

 

                                                                                  L’âme s’endurcit,

                                                                                  endure les doléances,

                                                                                 affronte l’indignité

                                                                                 sans virulence

                                                                                 mais déjà empoisonnée,

                                                                                 à l’affût.

 

                                                                                Le monde s’est dégringolé

                                                                                sans déférence aucune

                                                                                à aucun répère.

 

                                                                                Insidieusement,

                                                                                la tourmente s’empare du vide.

 

 

 

                                                  POSSE

 

                                                  A conivência,

                                                  o pacto tácito entre

                                                  dois pontos geométricos,

                                                  afastados um do outro,

                                                  astuciosamente.

 

                                                  A alma se condensa,

                                                  suporta as dores,

                                                  afronta a indignidade,

                                                  sem virulência, 

                                                  mas já envenenada,

                                                  à espreita.

 

                                                  O mundo desabou

                                                  sem qualquer consideração

                                                  a nenhuma referência.

 

                                                  Insidiosamente

                                                  a tormenta se apodera do vazio.

 

vazio 

 

 

O homem completo

 

                  Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

O homem completo é aquele que está vestido de paletó, camisa, gravata, colete, cuecas (admito também as ceroulas), calças, meias, sapatos. E por cima, um sobretudo. Talvez também um guarda-chuva e óculos. Ah, há ainda os suspensórios. E o homem completo circula assim, tratando de seus negócios com outros homens nem sempre completos. Mais tarde ele vai para a sua casa e despe-se de sua indumentária. Tira, uma a uma, as peças da sua roupa, e fica nu. Mas nu, sente que lhe falta alguma coisa: a sua completude.

Em Portugal diz-se que o homem daquela maneira vestido, está com o seu fato. Ou os seus fatos. Ele porém não é um fato. De fato, precisa, a vida inteira, fazer-se, e nunca chega a fazer-se por inteiro.

Também se propala que o homem sem mulher não vale nada. Estou de acordo. Se bem que mulher antes desfatada, isto é, nua.

Antes, no começo do século XX, para se despir uma mulher gastavam-se horas. Era preciso tirar-lhe o chapéu, as luvas, a blusa, a saia, a combinação, as anáguas, o corpete, as calcinhas, o sutiã, os brincos, as ligas, as meias, os sapatos. Pensam que este trabalho todo aborrecia ou fatigava o homem completo? Ao contrário: quanto mais ele desvestia a mulher, mais ficava aceso.

Os costumes (também nome das vestes) e as modas mudam. Atualmente, não se precisa despir uma mulher. Ela já vem despida e pronta para a cama.

O meu cachorrinho Pichorro é muito peludo, e os seus pelos são a sua indumentária. Tenho de escová-lo todos os dias. O meu papagaio Horácio veste-se com as suas penas verdes e algumas vermelhas. Só o seu bico é nu. Ambos, porém, estão sempre completos, têm a sua completude, que eu nunca tenho e pode ser que nunca terei.

Só os defuntos estão completos. Mas foram vestidos por outros. E acho que, no caixão, deveriam estar nus. Nus, e dando uma banana, para nós outros, que não atingimos nunca a nossa completude.

 

 

Nos píncaros de belos horizontes

 

 

Drummond brincalhão (1)

 

A estátua de Drummond em Copacabana, vítima da imbecilidade de pichadores no final do ano, já sofreu várias depredações.

Não deixam em paz o poeta, a apreciar a cidade escrita no mar. Arrancam-lhe os óculos, emporcalham-no com tinta, colocam-lhe bonés e flores na cabeça, vestem-lhe camisetas futebolísticas. Além disso, tem de suportar a palração dos que sentam ao seu lado e as fotos intermináveis com amigos instantâneos. Eu mesmo, confesso, tenho uma foto dessas com ele.

Pois não é que o jovem Drummond e seu grupo modernista ou futurista da velha Belo Horizonte também faziam das suas pelas ruas da cidade provinciana, que os rejeitava?

Segundo Pedro Nava, “Queríamos a deposição do presidente do Estado, o encarceramento dos seus secretários, um esbordoamento de deputados e uma matança de delegados. E, enquanto não vinham os morticínios exemplares, derivávamos contra a cidade e os concidadãos”.

Uma das práticas para épater le bourgeois era, de madrugada, trocar as placas dos médicos, dentistas e advogados nas fachadas de suas casas ou consultórios.

O próprio Drummond e Pedro Nava, um dos seus amigos mais chegados, relatam em verso e prosa, respectivamente, o quase incêndio que, uma noite, provocaram na casa das moças Vivacqua, cujos saraus literários frequentavam. Assustados, eles mesmos trataram de apagar as chamas e teriam passado por heróis aos olhos das moradoras, se um guarda-noturno não tivesse acompanhado toda a cena. Drummond dizia que se tratara de uma experiência do “ato gratuito” imaginado por Gide, mas a versão corrente era a de que os dois incendiários pretendiam de fato ver as moças de camisola quando saíssem às pressas da casa.

Drummond foi também o criador de uma modalidade temerária de alpinismo urbano, consistente em escalar um dos arcos do recém-construído viaduto de Santa Teresa. Fez vários discípulos e, muitos anos depois, os chamados “Cavaleiros do Apocalipse” da geração de 45 — Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino — repetiam como um ritual as escaladas noturnas do viaduto, cuja altura, dita “vertiginosa” por Nava e calculada em pelo menos cinquenta metros por Fernando Sabino, é na realidade de dezessete metros, o que não é pouco.

Consta ainda que uma noite, quando já se achava aboletado no píncaro do arco do viaduto, Drummond recebeu voz de prisão de um guarda, a quem desafiou a ir até lá em cima prendê-lo. Prudentemente, o guarda achou melhor relaxar a prisão.

Mas o grande escândalo literário, e de repercussão nacional, entre os vários promovidos pelos jovens modernistas mineiros — que se tornaram conhecidos como o “Grupo do Estrela”, bar em que se reuniam para beber, discutir sobre o modernismo, mostrar suas produções e conspirar — seria a publicação, em 1928, do poema “No meio do caminho”, de Drummond, na “Revista da Antropofagia”, de Oswald de Andrade.

Essas e muitas outras peripécias estão deliciosamente reunidas no livro de Humberto Werneck, “O desatino da rapaziada — Jornalistas e escritores em Minas Gerais (1920-1970)”, editado pela Companhia das Letras.

 

 

“E vamos à luta” (Gonzaguinha), com ele

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=bH3DCvDUdBg[/youtube]