Annibal Augusto Gama
Tenho uma loja que vende de tudo desde chupetas a parafusos. Há quem goste de chupeta e quem goste de chupar parafuso.
O caixeiro-viajante entrou na minha loja e, antes de me contar a última anedota, abriu sobre a minha mesa a sua mala de amostras. Era um vendedor de ferragens.
— Veja o que o senhor precisa.
Remexi nas amostras que me exibia e lhe disse:
— O que eu preciso é de uma chave para consertar a minha vida.
Então ele abriu outra maleta e exibiu-me uma chave muito estranha.
— E funciona? — eu quis saber.
— Funciona, e é cara, porque é importada. Mas o caro pode tornar-se barato.
Comprei-lhe a chave, e ele me deu algumas instruções sumárias. “O resto, ainda completou, o senhor vai encontrar no folheto, que lhe explicará tudo”.
O folheto, desdobrado, tinha mais de um metro de comprimento, e era escrito em inglês.
Levei a chave para casa, e passei muitas horas lendo o folheto, virando e revirando a chave na mão.
As primeiras experiências que fiz só serviram para me machucar as mãos, e não deram em nada.
Guardei a chave no seu estojo para me entender com outros entendidos, que talvez soubessem, como ricos e ricaços que eram, o manejo da chave, mas eles me riram na cara quando lhes pedi que me ensinassem os segredos da chave.
— Quem nasceu para tostão nunca chegará a milhão — respondiam-me.
Foi quando Julieta me bateu na porta. Abri-a, e ela me perguntou:
— O senhor precisa de uma moça de cama, mesa, forno e fogão, que durma no emprego?
Precisava, mas antes de tudo de alguém que me ensinasse a usar chave.
Ela pegou a chave e disse-me:
— É muito simples.
Contratei Julieta, e ela, com a chave, abre latas de tomate, de sardinhas, ervilhas e leite em pó. Maneja-a perfeitamente bem.
— Ah, Julieta, não é isso que eu preciso!
— O que o senhor precisa é mudar de vida.
Vendi a minha loja e, estendido na rede, já não faço nada. Para quê? Julieta faz tudo.
Só existe uma palavra para definir a crônica que acabei de ler: genial.
Uma chave chamada Julieta. Sabe todos os segredos…