Posts from maio, 2014

Livros

 

 

 

“Livros”, Caetano Veloso

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Tropeçavas nos astros desastrada 
Quase não tínhamos livros em casa 
E a cidade não tinha livraria 
Mas os livros que em nossa vida entraram 
São como a radiação de um corpo negro 
Apontando pra a expansão do Universo 
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso 
(E, sem dúvida, sobretudo o verso) 
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada 
Sem saber que a ventura e a desventura 
Dessa estrada que vai do nada ao nada 
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes 
Mas podemos amá-los do amor táctil 
Que votamos aos maços de cigarro 
Domá-los, cultivá-los em aquários, 
Em estantes, gaiolas, em fogueiras 
Ou lançá-los pra fora das janelas 
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos) 
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los 
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas 
E de mais confusão as prateleiras. 
Tropeçavas nos astros desastrada 
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

 

 

 

O livro

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Moisés, os escritores, com Deus, ou por ele, precisaram de cinco livros para dar início à Bíblia, o Pentateuco. Um deles, o primeiro, tem o título de Gênesis, quer dizer, a criação. Pode ser uma meditação de como se faz o mundo, ou de como se deve fazer um livro.

Cinco livros são um bom número para um escritor escrever, ou para um leitor começar a ler. Infância, adolescência, mocidade, maturidade, velhice. O caminho de uma vida.

Depois do fiat lux, o homem e a mulher são criados e postos no Paraíso, juntos dos pássaros, dos outros animais, da água, das árvores. Deverão se virar, e Deus passeia na brisa da tarde. Irão encontrar, o homem e a mulher, a inocência, a malícia, a alegria, a dor, a morte. E se, mais tarde, são expulsos do Éden, não os expulsam das bibliotecas. Apenas, fazem a lista, o Index Librorum Prohibitorum, que, por isso mesmo, é muito percorrido pelos leitores vorazes. A proibição, a censura, são um convite à leitura. E afinal, os leitores leem aqueles livros condenados, e dizem: “Nem tanto assim…”

Os cinco primeiros livros, com os anos, podem ser multiplicados por cem, trezentos, mil. Mas, no geral, eles se repetem, ou completam-se uns aos outros.

O problema é o espaço. Mil livros já demandam um bom espaço, e é preciso deslocar outros objetos. Que se dirá de dez mil, vinte mil, cem mil livros, de uma biblioteca? E é necessário ainda abrir lugares para os leitores. E os cuidados que os livros exigem, catalogação, fichários, limpeza, conservação, encadernação, restauração, dão ocupação para centenas de pessoas.

Bota-se fogo na Biblioteca de Alexandria, porque o único livro verdadeiro é o Corão e, se todos os demais o repetem, ou divergem dele, são inúteis ou deletérios.

Não seria preciso isso: os ratos, as baratas, o mofo, os insetos se encarregam de destruir os livros.

E eles se dispersam: vão para os alfarrabistas, para os sebos. Tristes mendigos que se juntam ao acaso.

O colecionador de livros, o bibliófilo, é um maníaco inofensivo. Está ali, com os óculos a escorrer pelo nariz, as falripas brancas dos cabelos espetadas para cima, a espirrar e a percorrer as prateleiras. O pó dos livros cobre-lhe os ombros do paletó. Fecha as portas, para não ser perturbado. E as suas saídas são para buscar outros livros, raros, primeiras edições.

É, porém, longevo. Vive até os oitenta, noventa anos, porque não se aventura para as ruas, onde seria esmagado pelos carros. É magro, curvado, só se alimenta para sobreviver. É sagaz, sardônico, e celibatário.

É capaz de falar sobre um livro horas e horas. Sabe da sua história, dos seus descaminhos, da sua impressão, das suas ilustrações, das ideias que agitou, das controvérsias que provocou.

O livro é matéria inflamável. Se não é, não vale a pena.

 

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Objeto Livro

 

 

                                                OBJETO LIVRO

 

 

                                                Palimpsesto

                                               cada camada

                                               superpõe ao texto

                                               todos os sentidos

                                               notadamente o sexto

                                               que não existe.

 

                                               Escreve-se

                                               com todos os erres

                                               mas com todos os erros

                                               leem-se só os esses

                                               desse plural singular.

 

                                               Veneno

                                               que se sorve sereno

                                               sabendo do reverso

                                               na página virada.

 

                                               Aberto

                                               é ave em voo pleno

                                               na esperança da aurora.

 

                                               Fechado

                                               sobre a mesa ensimesmado

                                               é a Caixa de Pandora.