Annibal Augusto Gama
Quando passava debaixo da janela, ela entornou sobre ele o balde d’água com que regava as plantas, no balcão. Ele olhou para cima, aborrecido. Oh, exclamou ela, me desculpe, foi sem querer. E ainda bem que não entornara sobre ele o conteúdo de um urinol, se é que ainda existem urinóis.
Por favor, entre, que eu vou enxugar a sua roupa. Ele entrou, ela ajudou-o a tirar o paletó, e tratou de ir secá-lo e passar-lhe o ferro quente. As suas calças também estavam molhadas, mas ele não iria sacar as calças. Pediu uma toalha, e enxugou-as como pode. Não conseguiu deixar de rir.
É a primeira vez em que conheço uma mulher que me entorna um balde d’água. Ela também sorriu. Nunca o vi caminhar por aqui. Explicou-lhe que viera por ali casualmente, sem dar-se conta, porque o seu caminho habitual era outro. Vestiu o paletó, e já ia embora. Aceita um cafezinho? ─ ela lhe perguntou. Aceitava, e ela lhe trouxe uma xícara de café. Mais uma vez, me desculpe. Era uma mulher de uns trinta anos, bonita, mas sem exagero. Espero que isto seja o começo de uma amizade, disse-lhe. Também espero, ela concordou.
Uns dias depois, ele passou debaixo da mesma janela. Parou e bateu na porta. Ela abriu e convidou-o a entrar. Entrou. Um cafezinho coado agora mesmo vai bem? Outra xícara de café, ele sentou-se na poltrona que ela lhe indicou, e acendeu um cigarro. Chamava-se Maria de Nazaré.
Tudo começa imprevistamente, ou é o destino, como se propala.
Maria de Nazaré contou-lhe sua vida. Morava sozinha, com a mãe, que ele ainda não vira. Providencialmente, na ocasião, a mãe estava ausente, em outra cidade, visitando parentes.
─ E o senhor, que me conta do senhor?
Não ia fazer-lhe um relatório; contou-lhe o que podia interessar, uma coisa e outra. Não me chame de senhor, que eu também não a chamarei de senhora, Maria de Nazaré.
─ Agora que nos conhecemos…
─ Por força de um balde d’água entornado…
─ Seja como for, me sinto feliz.
As mãos dela entre as mãos dele, ambos sentados um diante do outro.
Um ano depois estavam casados.
Minha leitora ocasional: quando as coisas não estão dando certo, e a vida parece um tédio prolongado, atire um balde d’água no cavalheiro que passar debaixo da sua janela.
“O que é o amor?” (Danilo Caymmi / Dudu Falcão), com Selma Reis
Gama, adorei a crônica do seu pai, ela é muito inteligente, bem escrita (português irrepreensível) e de uma reflexão fecunda.
A música postada é lindíssima. Selma Reis é uma das grandes cantoras de sua geração, mas infelizmente (creio eu) é pouco conhecida.
Abraçaço.
A inversão do senso comum de um balde d’água na relação resultando em crônica genial…
Adorei!
Música e foto à perfeição!