Posts from julho, 2014

O bilboquê

 

            Annibal Augusto Gama

Annibal fumando

 

 

 

 

 

 

 

Está na prateleira, ao lado das garrafas de bebidas. De vez em quando olho-o, mas não me animo a pegá-lo e a manipulá-lo. Perdi o jeito de embocar a bola, pendurada num cordão, na haste. Os meninos e as meninas que hoje são velhos eram muito hábeis com o bilboquê. Mas ele desapareceu, como desapareceram os carrinhos de rolimã e os piões. Os brinquedos mudaram, são muito outros. Há alguns meses, vi um pescador lançar ração a mais de cinqüenta metros, do outro lado da margem do lago aonde vou pescar. Impossível, como é que ele conseguia fazer aquilo? Dirigi-me então até ele e vi que, para lançar tão longe a ração, ele usava um estilingue. Os pescadores são inventivos e hábeis.

Com que brincam os meninos, hoje? Brincam com bonecos sofisticados e com aparelhos eletrônicos. Não sabem fabricar os próprios brinquedos. Não trazem no bolso o canivete marca corneta. Não sobem nas árvores. Nos regos, não fazem pontes para as formigas passar. As calçadas, nas ruas, já não são propícias para as danças e as cantigas de roda. Coelho sai! Não sai! O coelho não sai mais. Também, acabaram os quintais e os cavalos de pau, feitos de um cabo de vassoura. O assobio, o assobio, com que trocávamos mensagens de um quintal a outro, já não os ouço. Sentados diante da tela da televisão, ou do micro, os meninos se embasbacam. E onde foram parar as bolinhas de gude?

Fui soldado, creio que capitão, de uma guerra de mamonas, lançadas contra a hoste inimiga com as atiradeiras. As bolas de meia, e depois de borracha, com as quais jogávamos futebol nas ruas, não existem mais. As mães já não gritam da janela: “Olhe o sereno, menino! Já pra dentro!” 

Nas noites de chuva, brincava-se de esconder dentro de casa. Uma noite escondi-me dentro de um guarda-roupa, entre travesseiros com cheiro de alfazema, e adormeci.

Mas de manhã o sol voltou a aparecer, e fomos riscar na calçada, com carvão, a sua carantonha.

As enxurradas corriam pelas sarjetas, e íamos lançar nelas os barquinhos de papel.Todos os barquinhos naufragaram. O menino de ontem é hoje um velho obsoleto.

 

barquinho de papel

 

“O barquinho” (Ronaldo Bôscoli / Roberto Menescal), com Stacey Kent

 

 

 

Alguém sabe?

 

 

Para os que ainda não sabemos como foi aquele 7 X 1

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=acwE9rSHg0k&hd=1[/youtube]

 

 

 

 

Adalberto abre a gaveta

 

 

Adalberto (matéria jornal) 

 

Adalberto abre a gaveta

 

ALEXANDRE GAIOTO

 

Adalberto de Oliveira é um poeta sem pressa. Só agora, com o lançamento da obra “Corrosão” (Maçã de Vidro Edições), ele encerra a trilogia poética iniciada com as publicações independentes  de “Camuflagem” (1975) e “Captura” (1979). O livro recém-lançado reúne 72 poemas, que vêm sendo escritos desde 1999. Há, na obra, versos inéditos e outros que já haviam sido disponibilizados no blog Estrela Binária (www.estrelabinaria.com), administrado desde o ano passado pelo autor. “Demorei muito tempo para publicar o final da trilogia porque a rotina acadêmica prejudicava minha produção literária”, comenta Adalberto, que começou a ministrar aulas no departamento de Letras da UEM em 1988 e se aposentou no ano passado. Atualmente, a participação acadêmica de Adalberto é esporádica, fazendo parte de alguma  banca examinadora de dissertações e em outros momentos realmente  especiais. “Publiquei muitos artigos científicos na minha vida, mas é um tipo de produção que ninguém lê. A poesia ainda tem um pequeno público que não é tão grande quanto o dos romances, mas é um público, ele  existe”, diz. 

Cânone

Leitor de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, Adalberto diz que suas influências  ainda se estendem a Baudelaire e Rimbaud. “Li todo o cânone brasileiro e o francês. São minhas influências básicas”, diz. Com a aposentadoria no ano  passado, Adalberto deu vida ao blog Estrela Binária. E vem se mantendo fiel à proposta inicial:  publicar um poema inédito a cada terça-feira. “Isso foi muito bom para  a minha produção, porque eu me obriguei a escrever e, assim, fui acumulando uma série de poemas. Às vezes, escrevo cinco poemas num só dia. Há outros momentos em  que passo um mês sem escrever um único verso”, comenta.  Com a trilogia encerrada, Adalberto agora está de olho no próximo passo literário. “Tenho uns  80 poemas inéditos. Talvez, eu  publique esse material num volume só, reunindo minhas obras completas, retomando alguns  poemas que foram publicados em revistas francesas e no meu outro livro, ‘Enigmas e Sensações’”, adianta. Com Adalberto solto à literatura, o universo acadêmico, infelizmente, perde um grande  professor. Os leitores em geral  ganharam, por outro lado, um  grande poeta.

 

Reconstruindo a desordem

 

LUZIA TOFALINI

professora de Letras da UEM

 

“Corrosão” sonda os meandros das esquinas da vida, trazendo à tona enigmas impenetráveis. Ao revelar a profundidade do ser humano, a obra constitui-se como um signo do mundo. As poesias aí contidas, frutos da cosmovisão e da atitude reflexiva do artista, vêm deleitar o leitor, preenchendo o espaço da necessidade de belo e de grandioso aspirado pelo espírito humano. Reflexão e filosofia são evidentes no livro. Basta atentar para a frase escrita pelo autor na contracapa: “A vida é um desejo fragmentado pela morte”. Os temas englobam desde o cotidiano até o universal. A dor existencial, metafísica, fazse presente em poemas como “Capitulações e queda”, “Vem, chega aqui, há sangue no chão” ou “Labirinto sortilégio”. A movimentação temporal também é representada, seja quando o passado é rememorado, como no poema “Ócio obrigatório” ou “Num átimo”, seja quando é constatada a irreversibilidade do tempo, como em “Impossibilidade”, “Metamorfose” e “Na sucessão dos dias, dos amores”; ou, ainda, quando aponta para o futuro, como em “Futuríveis” e “Quando menos esperarmos explodirá uma bomba”. Adalberto de Oliveira Souza, apaixonado por poesia e pela versatilidade que ela tem de sugerir sentidos, sabe que a linguagem comum é incapaz de traduzir todo o contingente das verdades mais profundas que habita a interioridade humana. Eis o motivo pelo qual se fez transfigurador da beleza e tradutor de realidades subjetivas, falando, como diria Araújo Jorge, o esperanto das imagens e dos símbolos. Desencantado e deslumbrado, ao mesmo tempo, diante da magnitude daquilo que vê, o poeta de “Corrosão” põe-se a falar, justamente porque acredita que a poesia tem uma força capaz de reconstruir a desordem. Por isso, muitos poemas partem do cotidiano e, transcendendo o tempo e o espaço, apontam para o perene e o absoluto. Para o artista Adalberto de Oliveira Souza, o poeta não precisa se apoderar de arsenais bélicos para transformar o mundo, mas mergulhar no abismo do seu próprio “eu”, colher ideias, emoções, sensações, transfigurá-las em símbolos, em imagens, e fazer de sua poesia um instrumento com dupla função: propiciar o conhecimento profundo da natureza humana e do mundo circundante; e, de posse desse conhecimento, intervir sobre a realidade. 

 

 O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ
Sábado, 14 de junho de 2014

 

 

“CORROSÃO” está à venda na  Livraria Cultura

 

 

 

O homem que olhava pela janela

 

              Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

Regularmente, tarde da noite, vou à janela iluminada da minha casa, e vejo o homem que, ao longe, parece também olhar da janela, igualmente iluminada, do seu sobrado. Ele olha para fora, durante algum tempo, e depois se afasta. Também eu, ao cabo de uns dois minutos, me afasto. Passa-se ainda algum tempo, e o homem que, do sobrado, olha pela janela, fecha-a e apaga a luz. Faço o mesmo.

Isto acontece todas as noites, e quase de madrugada.

Considerei bem todos esses fatos, e cheguei à conclusão, medindo a distância, que precisava conhecer o homem que olhava da janela, todas as noites.

Durante o dia, andei pelas ruas, e acabei descobrindo o sobrado, do qual o homem espia pela janela, recolhe-se e, depois, fecha a janela e apaga a luz.

O sobrado tinha um pequeno jardim à frente, uma cerca alta, de ferro e um portão. E a campainha.

Apertei a campainha e, decorridos alguns minutos, alguém apareceu na porta e perguntou:

─ Que é que o senhor deseja?

Respondi-lhe que precisava falar com ele. E vi que era um homem magro, de baixa estatura, já velho.

─ Pois fale daí mesmo ─ ele acrescentou.

Disse-lhe que dali não, precisava que ele me deixasse entrar e então nos entenderíamos.

Com relutância, ele abriu o portão. Entrei, e segui-o até uma sala.

─ Agora, o senhor diga-me o que tem a me dizer, e acabemos com isso.

Expliquei-lhe que o via, todas as noites, e tarde, ele olhando da janela iluminada do seu sobrado e eu, da minha casa o observava.

─ Ah, então, o senhor é que aparece numa janela iluminada, todas as noites?

De fato era eu. Ele olhava da janela do seu sobrado, e eu olhava da janela da minha casa.

─ O senhor mora sozinho? ─ eu quis saber.

─ Moro. E o senhor?

Também eu morava sozinho.

Assim, tudo entendido entre nós ambos, despedi-me e fui embora.

E continuamos os dois a olhar pela janela iluminada, todas as noites.

O que não sei é se é ele que me olha da janela, ou se sou eu que o olho da janela.

 

“Janelas Abertas” (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), com Tom e Gal Costa

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ZWbGLHAsqRM[/youtube]

 

 

 

Canção do Amanhecer

 

 

 

“Canção do Amanhecer” (Edu Lobo / Vinicius de Moraes), com Edu

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=UlRmEIFZh00[/youtube]

 

 

                                               amanhecerá

                                               e a manhã será

                                               amanhã seremos

                                               talvez serenos

 

                                               Força, poeta Adalberto!

 

 

 

A vida

 

        Adalberto de Oliveira Souza

 Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

                                                 A VIDA

 

 

                                                 A válvula,

                                                 o escape,

                                                 que outra coisa?

                                                 O mundo aí

                                                 nós aqui e

                                                 os copos, as pedras, os arames, a prisão

                                                 e os vários objetos.

 

                                                 As nuvens,

                                                 o escuro,

                                                 o tom e os sobretons,

                                                 a volúpia da carne,

                                                 o entardecer,

                                                 o encanecer,

                                                 o fenecer.

 

 janela gris