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Uma Cidade

 

  Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

                                                                UMA CIDADE

 

                                                           Cair nesse labirinto

                                                           é sortilégio.

                                                           Atrás de alguma curva

                                                           há algo escondido.

                                                           É preciso subir,

                                                           descer.

                                                           Por fim, uma rede se mostra,

                                                           já gasta, mas firme.

                                                           Lento o tempo prendeu-se

                                                           nessas teias.

                                                           Tocamos seus vãos,

                                                           seus vários mistérios.

                                                           Turistas atraídos ou distraídos

                                                           se prendem, mas se soltam.

 

                                                           Dentro dessa cidade,

                                                           há um resplendor que

                                                           todos procuram.

                                                           Sombras antigas,

                                                           nas suas tantas janelas,

                                                           nas suas portas.

                                                           Uma contida indiscrição

                                                           convida-nos a decifrá-la

                                                           e rever seus segredos

                                                           irrevelados.

 

linhas tortas

 

 

 

As colheres de pau

 

Annibal Augusto Gama

Annibal e Pichorro 3

 

 

 

 

 

 

 

 

Passei boa parte da vida a fazer colheres de pau e a bordar-lhes o cabo. Porque as colheres que faço apenas são pretextos para lhes bordar o cabo. As colheres, de pau ou de metal, são utensílios, e os bordados não. Por isso mesmo é que os bordados são apreciáveis, porque não servem para nada, a não ser para nos alegrar os olhos.

Os homens pragmáticos desprezam os bordados. É a razão pela qual são tão tristes, e nos infernizam a vida. Eu, no entanto, vos digo que uma toalhinha de crochê vale mais do que um cofre recheado de moedas de ouro. Ela me encanta mais do que a mesa sobre a qual está.

As mulheres são muito mais inteligentes e sensíveis do que os homens. Elas usam vestidos não para se cobrirem, mas para se mostrarem. Pintam as pálpebras, pintam os lábios, pintam as unhas, usam berloques, brincos, pulseiras sem relógio, porque sabem que o relógio é uma máquina não de fabricar horas, mas de extingui-las. E usam também sapatinhos de salto alto, saltos muito finos, para desafiar o equilíbrio, porque não ignoram que o equilíbrio, a estabilidade, é a pasmaceira.

As mulheres não conversam: falam. Aprenderam que conversar é trocar ideias, e são as ideias que nos amargam e fizeram da vida e do mundo o malogro de todos. Falar, não. Falar é soltar as palavras, as lindas palavras, principalmente aquelas que não significam nada e, portanto, significam tudo.

É uma maravilha ouvi-las falar. Para também lhes ver os lábios, que têm um código secreto de amor.

Foi a Adão que Deus deu a faculdade de dar o nome a todas às coisas. A Eva, não. Porque Eva já era todas as coisas, os pássaros, as borboletas, as flores, a água, o céu, as nuvens, a lua e as estrelas, o vento e o rumor da noite.

 

Breakfast at Tiffany's 

 

 

Tributo ao melhor chat do mundo

 

        Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

Era assim. Do produtor ao consumidor. Sem teclado intermediário. A gente se aprochegava para o lero. Não tinha preço (nem pressa) aquele “sabe da última? Nem te conto!” ao pé do ouvido…

Pedidos de amizade pendentes? Adicionar pessoas feito farinha à receita? E a peneirada do coração, a garimpada do olho?

Ninguém seguia ninguém, queridos. Não nos interessava saber a que horas os amigos foram dormir. Antes, que iríamos acordar juntos e sair pra ver o sol mais os pingos da chuva que ontem caiu.

 

 

(foto de Wayne Miller)

 

 

(foto de Eve Arnold)

 

 

(foto de Bruce Gilden)

 

 

post Selma

(foto de Elliott Erwitt)

 

 “Estrada do Sol” (Tom Jobim / Dolores Duran), com Nana e Dori Caymmi

http://www.youtube.com/watch?v=HDrP4wCeqws

 

 

 

Encontro

 

 Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

                                                           ENCONTRO

 

 

                                                           Na chuva

                                                           os vãos.

                                                           Para fora de si

                                                           de dentro a bruma

                                                           o relâmpago

                                                           apaga o momento

                                                           estatiza a dor

                                                           do dia, diríamos

                                                           da espera que gorou

                                                           e que agora

                                                           sangra na veia

                                                           na simples chuva

                                                           na enxurrada

                                                           e me carrega

                                                           para mim.

 

 US-ART-RAIN ROOM-MOMA

 

 

 

Ao apagar das luzes

 

 

cortinas

 

Ao apagar das luzes, quando o pano cai ou se cerra a cortina, a plateia vai saindo e ignora o que se passa atrás dos bastidores. Ou apenas imagina.

Os atores e as atrizes, nos bastidores e nos camarins, estão desfazendo a maquiagem, lavando a cara e despindo-se da indumentária para vestir a própria roupa.

Há sinais de cansaço geral. A peça chegou à décima quarta ou vigésima representação, e a frequência não foi tão boa como se esperava. Nas últimas noites, o teatro estava até quase vazio. E só um ou outro admirador incondicional levou rosas para a atriz principal.

Também, o canastrão, que é ou era o figurante maior, entremeou a sua fala de frases que não existiam no texto, e provocou gargalhadas, quando o caso era antes de choro. Um cretino, que quase todos reprovavam. Um palhaço, e mau palhaço.

O diretor pensa: com este sujeito, nunca mais. Mas sabe que o desgraçado é que atrai o público. Tem-no atravessado na garganta, e a vontade é lhe dar uns pontapés. O autor, que não foi chamado ao palco no último espetáculo, reflete que não adianta: o público é vulgar e gosta é de chanchadas e de rebolados.

Todos estão cansados e irritados. Que profissão mais infeliz! O comediante acha que se saiu bem, é ainda moço e tem futuro, ao contrário da atriz principal, que está decadente e amargurada, porque o seu amante a abandonou.

Alguns críticos é que meteram o pau em todo o mundo: no autor, no diretor, no elenco, no cenarista, no iluminador. Chegaram a dizer que havia pulgas no teatro.

Os cartazes estão sendo retirados. O porteiro boceja. Alguém pensa: aquilo afinal foi uma comédia, um drama ou uma tragédia? Talvez uma ópera-bufa.

A noite é fria, e começa a chover. Os carros já rareiam nas ruas. Um mendigo cata restos de comida numa lata de lixo. Está acompanhado por um cão amigo, que olha para ele, com ternura.

Afinal, todos saem. Alguns vão embriagar-se, para esquecer. Outros fazem planos para o futuro: “Vou arranjar um emprego público”. “Vou afastar-me para uma sitioca e criar galinhas”.

É uma peça de teatro, é uma disputa política em que a eleição foi fraudada, é a vida?

De repente, o estampido de um tiro. Quem matou, quem morreu, quem se suicidou?

Deixem pra lá! É um caso para a polícia, a polícia que resolva. Mas a polícia também não resolve. Vai permanecer a dúvida, para sempre.

É preciso reconstruir o Brasil, ou melhor, construí-lo, porque ele ainda não foi construído. Pontes, estradas de ferro, os portos reformados e ampliados, os aeroportos funcionando, o saneamento básico, a saúde, a segurança, e fora todos os privilégios!

O reconhecimento das pessoas honestas, que são a maioria, mas silenciosa, dos bons técnicos e não dos parlapatões, cada um em seu lugar, sem rivalidades, sem despeitos e sem-vergonhice.

Os Maranhões higienizados, a justiça sendo feita para cada um e sem demora, a educação com professores ensinando e não fazendo greves, os bancos e os banqueiros postos no seu devido lugar, as fábricas produzindo e exportando, os lavradores plantando, as medidas provisórias relegadas, os falsos projetos para enganar os trouxas expurgados, o Congresso sem o rebotalho que aí está, cada homem e cada mulher retornando para casa, à tarde, com a consciência limpa.

 

Annibal Augusto Gama

Annibal e Pichorro 3

 

“Luzes da Ribalta (Limelight)” (Charles Chaplin / Versão: Braguinha (João de Barro), com Maria Bethânia

http://www.youtube.com/watch?v=jbeIE5z9A9g

 

 

 

Espanando estrelas

 

          Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

Não há engenhoca eletrônica com que minha adorável colaboradora do lar não “garre” amizade. Monta e desmonta juicer de última geração, identifica chamadas diferentes de telefones com painéis complicados espalhados pela casa, baila com o vaporetto, enfim, destrincha “de um tudo” com a maior rapidez. Claro que ela caiu na rede e virou peixe. Já rolou até e-mail em final de semana lembrando-nos de que iria precisar de farinha integral para 2ª feira. Bom, né?

Daí que vocês podem imaginar o mau jeito da criatura quando comprei, meses atrás, um prosaico e pré-histórico espanador para objetos e cantinhos delicados de prateleiras. Foi hilário vê-la analisando aquele OVNI, sentindo suas penas, girando-o nas mãos, cabreiríssima.

Lembrei da cena ao ler interessante reportagem sobre os objetos e profissões que se foram com a “evolução do progresso” e os inimagináveis que virão, num horizonte nem tão distante assim, graças ao mundo digital. Até como exercício de criatividade vale ficar imaginando as ocupações do futuro.

Pensando também no assunto, o site Cracked.com lançou uma campanha convidando seus internautas a enviarem sugestões de profissões bizarras que um dia teremos. Apareceu de tudo, gente:  entregador de jornais eletrônicos, frentista e faxineiro espacial, terapeuta de casais formados por robôs, técnico de uma nova Death Star e, ironizando o aquecimento global, até professor de surfe no Alasca. Confiram lá.

E os queridos do blog, alguma ideia do que vocês vão ser quando crescerem? Eu quero ser poeta.

Em uma galáxia qualquer. A gente se esbarra.

 

espanador

 

 

 

 

Réquiem

 

  Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

                                                           RÉQUIEM

 

 

                                                           Algo mais

                                                           que possa

                                                           desfazer o laço

                                                           incompleto,

                                                           incomplexo

                                                           da desventura tácita.

 

                                                           Nem mais

                                                           nem menos.

                                                           Tudo

                                                           muito pouco

                                                           para que a dor

                                                           mais funda

                                                           emerja do lago

                                                           insuficientemente

                                                           largo

                                                           para esse réquiem,

 

                                                           pós-martírio,

                                                           motivo posterior

                                                           do grito vazio

                                                           em direção incógnita.

                                                           Uma região limiar

                                                           limítrofe,

                                                           catastroficamente

                                                           limitada.

 lago

 

 

 

 

Click it again, Sam!

   

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lembra aquele restaurante aconchegante de mesa romântica à luz de velas, arranjo de flores, piano ao fundo, garçom discreto com os torpedos, dando sugestões, curvando-se com uma das mãos para trás e com a outra dando aquela giradinha na garrafa de vinho ao servi-lo? Acho que adeus…

Faz sucesso em Londres um restaurante que dispõe de sistema interativo em que o cardápio é projetado na mesa do cliente. A um simples toque dos dedos você faz o pedido – enviado à cozinha via Bluetooth – , muda a decoração e a iluminação da mesa conforme seu humor ou o estilo de quem o acompanha, joga uma partida de batalha naval (uau!) ou assiste aos bastidores da cozinha (nossa!), janta, pede a conta e ainda chama o táxi. Passa a noite apertando botão. Não é meigo?

Sinceramente, ainda que Richard Gere me convidasse para tão romântico momento… digital, eu o deletaria. Tudo bem, exagerei. Aperta F5.

Muita interferência tecnológica, gente. E começando tão cedo…

 

– Sam? Better forget this. 

 

 

 

Oui (Apparitions)

 

 

 

OUI (APPARITIONS)

 

 

Nicolas Sauvage

 

 

oui

c´est une fenêtre qui donne

sur une autre fenêtre qui donne

sur le dehors

animé

 

oui

devant cette frondaison qui monte

au ciel comme um Himalaya je suis

prêt pour mourir

 

oui

puis me tourner vers toi je suis prêt

à vivre et à

 donner

 

NO SILÊNCIO DOS CORPOS( A dança dos amantes - pintura de Jacqueline Klein)

 

 

 

SIM (APARIÇÕES)

 

 

Tradução de Adalberto de Oliveira Souza

 

 

sim

é uma janela que se volta

sobre outra janela que se volta

sobre o exterior

movimentado

 

sim

diante dessa folhagem que sobe

ao céu como um Himalaia eu estou

pronto para morrer

 

sim

depois de voltar-me para ti estou pronto

para viver e para

oferecer

 

 

 

 

Da arte de cobiçar a mulher do próximo

 

 Annibal Augusto Gama

Annibal e Pichorro 3

 

 

 

 

 

 

 

 

O Decálogo determina que não devemos cobiçar a mulher do próximo. Mas não estabelece qual é, em metros, ou quilômetros, a distância do próximo e da sua mulher. Suponho que, até uns trinta ou quarenta metros, estejam o próximo e sua mulher. A partir daí, a mulher não será mais do próximo, e você pode cobiçá-la.

E se o próximo mudar de casa? Se mudar de vizinhança? Então, você poderá não só cobiçá-la, mas também cortejá-la. Da mulher do distante, você poderá cobiçar à vontade.

Digamos que você é que muda para outro quarteirão. Neste caso, não há impedimento em cobiçar a mulher, seja de quem for.

Talvez seja porque, achando-se distante a mulher, você não pode vê-la, nem amá-la. Ora, você tem pernas, pode andar e aproximar-se da mulher que se acha a quinhentos metros de distância. Esta você pode cobiçar à vontade, que não há mal.

O único mal é que o marido da mulher distante seja feroz e esteja armado.

São questões muito complexas, essas de cobiçar ou não cobiçar a mulher do próximo. Além disso, o mundo se tornou muito pequeno, com os muitos meios de comunicação e tecnologia. Você pode cobiçar a mulher do próximo ou do distante através da internet, do telefone e dos e-mails. Ou através do sedex dos Correios.

Por que não haveria pecado em cobiçar a mulher do distante?

De outra parte, “a galinha do vizinho bota ovo amarelinho”, que são deliciosos.

E se for o próximo que cobice a sua mulher?

Comigo não, violão! Saia para a rua, pegue o próximo pelo colarinho, e lhe dê uns sopapos.

A arte de cobiçar a mulher do próximo tem muitas implicações.

Caso ela adira, vá em frente, mas com muito resguardo.

Como é que você poderia cobiçar uma mulher que more na Inglaterra, achando-se você no Brasil?

Só se for através de fotografias publicadas nas revistas e nos jornais. Ou se ela aparecer na televisão.

Eu, por exemplo, sempre amei Marilyn Monroe, apesar de que ela se manteve muito longe de mim. Assim também amei muitas outras mulheres.

Você até pode amar uma mulher que nunca viu, mas imagina, com as suas fantasias.

Sem dúvida, o próximo é um sujeito muito incômodo. O próximo faz barulho na sua casa, tarde da noite, e me perturba. Briga com a mulher e a espanca. E você, não irá acudi-la e consolá-la? Seria falta de caridade da sua parte.

O Decálogo também dispõe que você deve amar a Deus sobre todas as coisas, e a próximo como a ti mesmo. Não seria então inadequado não amar a mulher do próximo como a ti mesmo?

Você me responderá: amar pode, mas não cobiçar.

Ora, ora, ora…

Ame, meu amigo. Ame tudo, todas e todos, que tudo se resolve.

 

marilyn-monroe-ballerina