Posts in category "Colaboradores"

Menos, meninas…

 

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Almoço mensal da amizade em dia. Elegantes como sempre, trocam impressões sobre aquele objeto de desejo, ali, tão próximo, a lhes alvoroçar os seis sentidos.

─ Estrutura robusta, hein…

─ Mas é de comportamento pouco coerente, observa só. Isso dá um trabalho pra cultivar…

─ Questão de amadurecimento. No final é compensatório. Reparou que tem desenvoltura e expressão? Passa longe de modesto.

─ Ainda não senti a necessária untuosidade.

─ A necessária… o quê? ─ interrompo.

─ Aquela suavidade guardada num cantinho especial da língua que implora por… uma lagosta grelhada com molho de manteiga e arroz de amêndoa.

Aaaah, não. Cortei a pauta das enlouquecidas. Chatice de harmonização, gente. Tão mais simples dizer ‘gosto’ ou ‘não gosto’.

Quase apanhei. Até praga de Baco eu ouvi.

Mas nossa amizade continua firme. E rara. Vinho de boa cepa.

 

Selma Barcellos

Selma (perfil) 

 

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Borboletas

 

 Annibal Augusto Gama

 Annibal e Pichorro 3

 

 

 

 

 

 

 

Ultimamente, tenho visto muitas borboletas. Brancas, amarelas, pintalgadas, grandes e pequenas.

São elas os bichinhos mais encantadores de nosso planeta, e só se lhes equiparam os peixinhos ornamentais, que seriam borboletas que não voam. Tanto elas como eles são silenciosos, não emitem nenhum som. A elas aplica-se bem o verbo “adejar”. Borboletear é próprio delas. Adejam ou borboleteiam daqui para ali, sobre as flores.

Algumas, às vezes, entram na minha casa, mas aconselho-as a ir logo embora, porque a minha casa é a de um homem solitário e triste. As borboletas noturnas, chamadas indevidamente de “bruxas”, pousam de asas abertas, enquanto as diurnas pousam de asas fechadas, O seu ciclo vital, passando pela metamorfose completa, desde a lagarta no seu casulo, até a imago, é impressionante.

Para os italianos, borboleta é “farfalla”, palavra ainda mais adequada para ela, pois tem alguma coisa daquele seu bater de asas tão gracioso. Mas o nosso verbo “borboletear” também se lhes aplica bem.

Para Renard, em sua “Histoire Naturelle”, a borboleta é “um billet d´amour plié en deux”, isto é, um bilhete de amor dobrado em dois.

Há moças e mulheres, e principalmente meninas, que parecem borboletas. Também elas piscam os olhos rápida e silenciosamente. Só que algumas, quando pousam, nos picam. E quão dolorosamente a sua picada nos faz sofrer pelo resto da vida!

As borboletas são motivos perfeitos para os selos coloridos. Muito mais do que a carantonha de qualquer herói da pátria. Os selos que as reproduzem, nos envelopes das cartas, trazem recados que podem ser recados de amor. Aliás, todas as cartas só deviam trazer recados de amor. As outras são dispensáveis.

Os entomologistas, que colecionam milhares e milhares de borboletas, de asas abertas, espetadas em pranchas, são ao mesmo tempo homens sábios e tolos. Porque não se coleciona o frêmito, o perpassar das borboletas, contra o verde do jardim e as rosas vermelhas.

Para alguns, a borboleta representa a alma. A alma que esteve no casulo do corpo, e afinal dele se libertou.

Vai, borboleta, vai, que a vida é breve, e é preciso beijar todas as bocas, quero dizer, todas as flores.

 

borboletas

 

 

 

Desvios de rota

 

Vogue-Kids2

 

 

 

A edição de setembro da “Vogue Kids” brasileira causou polêmica ao publicar no ensaio “sombra e água fresca” fotos sensuais de meninas com a blusa levantada, calcinha aparecendo e fazendo poses sensuais.

O caso foi parar na Justiça, que suspendeu a distribuição da revista e determinou a retirada de circulação dos exemplares já distribuídos.

Em tempos desgraçadamente pedófilos, fotos assim me causam, no mínimo, desconforto.

A “Vogue” é uma revista internacional de respeito e tida como refinada, mas não é a primeira vez que assim procede. Na segunda foto acima, capa da “Vogue” francesa de agosto de 2011, caras e bocas de uma garota de 10 anos. Na outra, lançamento de lingerie para meninas de 4 a 12, com a criançada exposta em superprodução de culto ao corpo como objeto de sensualidade. Exagero meu?

Claro que um dia desfilamos pela casa com a boca borrada de batom vermelho, colares, brincos e óculos imensos, tentando equilíbrio nos saltos altos da mãe. Mas nossa sexualidade ia sendo naturalmente descoberta, em flashes  indefiníveis, fosse no encontro do pique-esconde, no salada mista, nos desvãos do quintal… Sem pressa, sem queimar etapas.

Em excelente artigo, Francisco Bosco já abordou esse “esvaziamento da infância, em tempos de acesso irrestrito, via internet, a códigos comportamentais, sexuais e emocionais do mundo adulto.” Compartilhava, inclusive, da sugestão do não menos brilhante Wisnik, mentor do híbrido “adultolescência”: uma vez que “ser adulto tornou-se um ato heroico e ser criança, quase impossível”, tornemo-nos maduros e poéticos, como quem “conclui os processos da maturidade sem deixar de arder.”

A verdade? Temo pelo amadurecimento de crianças como as das fotos. Por sua poesia, então…

 

          Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

“As minhas meninas” (Chico Buarque)

[youtube] http://www.youtube.com/watch?v=-qyBkb3zdG4[/youtube]

 

 

 

Passando o tempo

 

 

DesintegracaoMemoria

 

 

                                                           PASSANDO O TEMPO

 

 

                                                           Amanhece,

                                                           gritos ao longe,

                                                           meras farras

                                                           costumeiras,

                                                           brigas,

                                                           intrigas?

                                                           Intrigante

                                                           começa o dia

                                                           costumeiro

                                                           e tudo parece

                                                           mais perto.

                                                           Exasperamos.

 

                                                           Consequentemente,

                                                           mais tarde

                                                           vai caindo a noite,

                                                           algumas coisas

                                                           se repetem,

                                                           ainda assim.

 

                                                           Suspeito, no entanto,

                                                           de uma novidade.

 

Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto 

 

 

 

 

 

 

 

Ah, as velhas cartas…

 

           Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

“Cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida – essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.”

(Rubem Braga)

 

 

 

 

 

 

Certas cartas, não adianta rasgar. Permanecem inteiras em nós. Aliás, não rasgo nem as que não recebi ou escrevi…

Nas fotos, Jane Renouardt, Valentino, Gene Tierney e Camus. Em suas expressões, vida. 

 

“Mensagem” ( Aldo Cabral / Cícero Nunes),  com Maria Bethânia (e os poemas de Pessoa)

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=r4yOVAB-4b0[/youtube]

 

 

 

Espelho

 

     Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

                                                           ESPELHO

 

 

                                                           O barco partiu,

                                                           o porto está vazio,

                                                           cais escuro,

                                                           água escura,

                                                           sem luar.

 

                                                           Aproximo-me de mim,

                                                           de você,

                                                           algo parece dizer alguma coisa,

                                                           não consigo entender.

 

                                                           Mas tento responder e não digo nada.

                                                           Percebo sua ausência e

                                                           ausentes

                                                           conversamos por longo tempo.

 

distância 3 

 

 

 

Fale fino, mas longe de mim

 

 

 

Senhores, à guisa de consulta, estaria em processo alguma mutação genética na voz das mulheres? Por que tantas com timbre infantilizado, esganiçado, similar a gravações distorcidas de testemunhas? Tortura ouvir certas cantoras (só Billie podia), candidatas, atrizes, repórteres, apresentadoras, entrevistadas anônimas nas ruas e, céus!, manicures gasguitas conversando por sobre a clientela imobilizada pelos alicates.

Tem uma comentarista de economia que me leva a desentendimento diário com tevezinha, velha companheira para “furos de reportagem” que mantenho ao lado do computador da Redação. Fica ali, a fofa, batendo parada e baixinho na mesma estação, até que entra a criatura do Dow Jones com aquela voz exasperante e, como se não bastasse, com o cacoete de ralentar o final de cada frase, escandindo as sílabas. Levo alguns minutos para perceber a jugular inflando e aí… sobra para tevezinha. Mute no queixo.

Tal sensibilidade a latomias e cacarejos femininos estridentes não vem de hoje. Um dos meninos, ainda no ninho, ao descobrir a neura, sem que eu percebesse mudava tevezinha para um canal japonês e saía do ambiente. Escondia-se, às gargalhadas, esperando que eu desse pela coisa e partisse para cima dele com a sapatada voadora. Que nunca acertei, diga-se.

Estou sozinha em minha aversão e percepção do agravamento do problema?

 

 

Selma Barcellos

 

 

 

Lembranças

 

     Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

                                               LEMBRANÇAS

 

 

                                               Doces e amargas.

                                               Lembranças silentes,

                                               eloquentes e loquazes.

                                               Lembranças insistentes,

                                               vagas e sutis.

                                               Lembranças inúteis?

                                               Lembranças pertinentes e outras adequadas,

                                               ponderáveis e imponderáveis,

                                               lembranças áridas

                                               e desérticas.

                                               Lembranças populosas,

                                               lembranças eróticas

                                               e erráticas.

                                               Lembranças ressaibos

                                               de arrependimentos,

                                               puras lembranças

                                               insaciáveis,

                                               indissociáveis

                                               ao cotidiano.

                                               Lembranças reclusas

                                               e escusas.

                                               Lembranças sórdidas e

                                               inconfessáveis.

                                               Lembranças caroáveis,

                                               duras e determinantes.

                                               Lembranças inassociáveis

                                               à alguma realidade.

                                               Lembranças constantes

                                               e sem importância nenhuma e,

                                               às vezes, exorbitantes.

                                               Lembranças remotas e

                                               recentes.

                                               Lembranças imprescindíveis,

                                               cruéis e amenas,

                                               felizes ou infelizes

                                               afeitas à saudade ou

                                               ao esquecimento.

                                               Lembranças insolentes,

                                               ou carentes.

                                               Lembranças aparentemente

                                                neutras, mas fatais.

                                               Lembranças,

                                                                                   meramente lembranças.

 

homem desmontado

 

 

 

Pílulas de Vida

 

          Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

De vez em quando o meu telefone toca e dizem-me que desejam falar com a Dra. Mônica. Não conheço a Dra. Mônica, mas presumo que ela seja clínica geral. E recorro aqui à Dra. Mônica para vir me tratar de dor do cotovelo e de uma coceira nas costas, em lugar que os meus dedos não podem alcançar. Ela me encontrará encostado do umbral da porta, esfregando-me. E prometo-lhe que mandarei aviar a sua receita e tomarei escrupulosamente as pílulas que me recomendar. Prefiro, porém, que me receite placebos.

A vida é feita de falsos remédios, que são tão eficazes como os verdadeiros. E já se dizia que o que não mata cura.

De enganos e verdades vamos vivendo. A soma dos enganos e das verdades equivale-se.

Nestes meados de setembro, o calorão já chegou. As árvores ainda não se despiram das folhas, mas alguns ipês já estão florindo. O meu filho Antonio Carlos trouxe-me a fotografia que tirou de um ipê amarelo, à porta da sua casa, todo garrido.

Se a Dra. Mônica me curar, prometo-lhe uma gorda recompensa. Mas acho que sou incurável.

Diz Pascal que é preciso fazer bom uso das doenças. E que se permanecemos reclusos em nossas casas, nada nos acontecerá. Quanto a isso, contesto-o. Dentro das casas tudo pode acontecer.

Sucede-me que abro uma porta e olho para fora. Lá vem aquela loiraça rebolante. Digo-lhe: “Fique ai, parada, para que eu te contemple, ipê florido”.

Mas ela vai embora, e suas flores despetalam, caindo na calçada.

Aguardo a noite, que é outra mulher, com os seus cabelos negros.

No escuro do quarto, acendo uma velinha para os meus santos de barro. Eles cochilam, e perturbo-os com os meus pedidos.

O que me falta é você, você, você, minha amada…

E outra vez que me telefonarem chamando a Dra. Mônica, direi que ela não atende mais.

Ah, as mulheres não atendem nunca!

Se me atendessem, eu não estaria tão sozinho.

Dra. Mônica, por favor, receite-me um placebo que substitua a vida!

Mas a Dra. Mônica faz ouvidos moucos. O bom é que ainda me restam as pílulas de vida do Dr. Ross, que fazem bem ao fígado de todos nós.

 

 

[youtube] http://www.youtube.com/watch?v=U6WLeqktFK4[/youtube]

 

 

 

Poeminha difuso

 

              Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                           no muro caiado

                                                           marcas do giz

                                                           no verso inacabado

                                                           o jasmim reflorido

                                                           (como na tarde em

                                                           que me chegaste)

                                                           as luas da varanda

                                                           as canções no vento

                                                           de primaveras tantas:

                                                           murmúrios inconclusos

 

                                                           Questão de fuso?

 

                                                                                                      Itacoatiara, outra vez setembro