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Com a palavra toda

 

     Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para quem, como a blogueira, conserva o prazer de escrever à mão, aliás, com o corpo todo, sem mediação, no terreno baldio da folha de papel, não encontro  ilustração mais perfeita para o nascimento de um texto, passados os pontapés iniciais do embate com a inspiração, os alarmes falsos… Em algum momento a palavra gestada nos chega. E nos alenta.

Sobre o ato hoje quase lúdico de manuscrever, o poeta Armando Freitas Filho se justifica dizendo que “a máquina de escrever, o computador estão sempre passando a limpo, estão ‘entre’ o que se escreve e a mão.” Indagado se o lápis e a caneta também não estariam, responde: “Mas quem diz que escrevo com lápis e caneta? Escrevo, isso sim, com o dedo em riste.” Ah, poeta… E completa:

 

                                               A letra tremida da infância

                                               ou da mão travada pela idade

                                               quando impressas, não passam

                                               a aceleração do sentimento

                                               nem o avanço da paralisia.

 

                                               Só o leitor pode recuperar

                                               o bastidor da sensação

                                               que se gastou num polo

                                               ou no outro, embalsamada

                                               na letra morta de imprensa.

 

Jamais supérfluos, não me faltem o bloquinho e a Bic de ponta fina aonde for. Mania doida de rascunhar, desenhar, esboçar, destacar vida que passa e que de algum lugar me acena. Ao alcance das mãos. Assim.

 

 

Celebre-se

 

       Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem acompanha o Bloghetto desde o início sabe de minha admiração pela poesia de Leminski. Volta e meia seus versos inquietam as singraduras do barquinho.

O que eu não esperava, aliás, ninguém, e alguns articulistas já se debruçam sobre a surpresa, era ver o recém-lançado “Toda Poesia”, a obra reunida do poeta, morto em 1989, na lista de best-sellers nacionais. Tínhamos aprendido que “poesia não vende”.

Em excelente artigo, José Miguel Wisnik tenta explicar o fenômeno do “catatau cor de laranja em meio a não sei quantos tons de cinza”, do “quinau de poesia flanando distraidamente em meio à corrida dos mais vendidos, com um pique vencedor” (aqui ele brinca com um dos livros do poeta, o “Distraídos venceremos”) e conclui que a medalha já é de Leminski. Afinal, afirma, “o grande teste de um poeta é morrer, quando ele revela, como é o caso, o seu surpreendente poder de renascer”.

Caetano Veloso também comemora o feito: “Por ora, basta celebrar a virada de jogo que representa essa boa nova. Que poesia volte a vender livros no Brasil é uma revolução. Que esta esteja sendo feita por Leminski é sinal de que ela é profunda”.

À cabeceira faz tempo, sorvo em gotas diárias a primorosa coletânea do poeta. Seus versos, guardados por capa laranja feito cone de trânsito, revelam caminhos, desvios e becos. Poesia é isso.

 

****************

 

 

(Revista “O Globo”, 28 de abril/2013, Daniela Dacorso)

 

P.S.: Gostei da foto… Pela criatividade da moça, pela ‘expressão’ de Drummond parecendo retribuir a beijoca com um belo piropo – qual seria? – , por tudo que foi dito acima. Que os jovens abracem, literalmente, a (boa) poesia. Alvíssaras!

 

 

A troco de nada

 

     Selma Barcellos

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Selma (quelle surprise!) é apaixonada por Rubem Braga.

Conhece a fundo a obra e a vida do Velho Urso, que este ano se tornou centenário.

Dos muitos textos que ela tem publicado lá no seu Bloghetto, pincei este sobre uma delicada — e discreta —  paixão.

 

 

 

 

 

(Raymond Depardon)

 

“Ele foi apaixonado por ela. Não, apaixonado não é a palavra: era um bem querer que ultrapassava qualquer necessidade de tocar seu corpo e acabar na cama. Não que isso estivesse fora de cogitação, mas não era o objetivo final. Não havia objetivo algum, a não ser olhar e ir gostando, gostando. Gostando para nada, o que se naquele tempo já era difícil de entender, imagine hoje de explicar. (…)

O tempo passou: ele teve muitos casos, ela se casou algumas vezes, mas sempre que se encontravam guardavam um silêncio respeitoso sobre seus amores passados ou presentes. Esse era um assunto rigorosamente tabu, como se tivessem tido um caso de amor intenso. Até os amigos comuns percebiam a delicadeza do tema e disso não se falava. (…)

Muito tempo se passou e um dia, numa tarde de domingo, a troco de nada, começou a pensar nele. Por que, afinal, nunca tiveram nada um com o outro? Por quê?

Ficou pensando: se divertiu muito na vida, deu muita risada, fez muita bobagem, brincou infindáveis vezes de se apaixonar, machucou muito e foi muito machucada, mas sempre levou a sério algumas regras de conduta que nem ela sabia que tinha, mas que sempre respeitou. Uma delas é que não se pode brincar com os sentimentos dos outros, não quando eles são sérios; não com os de uma pessoa como ele.

Agora, na tal tarde de domingo, fica pensando em quanto gostaria que ele soubesse disso, que soubesse porque nunca houve nada, nem um braço encostado por acaso. Não que ele houvesse algum dia tentado, mas por certo gostaria; claro que gostaria.

Mas sente que não foi preciso; ele, que era incapaz de fingir ou mentir, sempre soube que ela, à sua maneira, também não.

No fundo ela sabe, sempre soube, que eles se gostaram e de certa maneira se amaram, no que isso tem de mais sério, de mais direito.

Foi só isso, e isso é muito.”

 

Trecho de um delicado depoimento que Danuza Leão escreveria, décadas mais tarde, sem jamais citar o nome do apaixonado. Li-o, encantada, em “Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar”, cuidadosa biografia do cronista, escrita por Marco Antonio de Carvalho.

Sim, era Rubem aquele homem.

 

 

Houve uma vez um cartão

 

     Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sábado, na pequena livraria do Instituto Moreira Salles, onde eu acabara de visitar Tutto Fellini, fantástica exposição sobre a arte e o processo criativo do cineasta:

_ É professora?

_ Sou. (não consigo dizer ‘fui’)

_ Damos 20%. Tem algum documento?

_ Só minha palavra. (mas remexo a carteira, quem sabe)

_ Não tem contracheque, carteira do sindicato, qualquer um…

_ Nada, nada. Peraí… serve este?

 

Professora Selma,

Sempre tive profunda admiração e respeito por sua profissão. Só um ser humano especial poderia dedicar sua vida a apresentar um mundo novo a seus alunos, orientando-os na pura intenção de torná-los verdadeiros cidadãos. Mas o que mais me admira mesmo é que sem seu amor eles nada seriam. Obrigada por ser quem é. Parabéns pelo seu aniversário.

Com gratidão,

Ana Cristina (mãe do Gabriel, 3ª B)

20/6/2003

 

A moça me sorri emocionada e fecha a conta.

Bacaninha, não?

 

P.S. 1: No verso do cartão, que plastifiquei, há uma belíssima prece. Não saio sem ela.

P.S. 2: Do filho, à minha espera: _ Bela cena, Selminha. Post já.  Obedeci.

 

 

  1. Olá Tia Selma,confesso que fiquei encantada com o post. Mas aquele dia foi um fato muito especial, a forma como a senhora me apresentou (sua carteira de professor) o bilhete, não tinha como não acreditar em suas palavras. Pessoas como tia Selma, são especiais, fico feliz por fazer parte desse pequeno episodio em sua vida. O nosso mundo merece pessoas assim como a senhora. Obrigada pelo carinho e venha mais vezes na loja do IMS.
    Amei o texto, até compartilhei no meu facebook para os amigos. E fica aqui o convite para os novos uma grande abraço e até breve.
    Cristina (a moça da loja) rsrsr…

     
  2. “Moça da loja”, você já faz parte da minha biografia.

    Beijoca, Cristina!

     

     

    “Tia Selma”, você já faz parte da bibliografia do Estrela Binária.

    Beijoca.

    “O Editor”

     

     

     

Direto do jardim

 

      Selma Barcellos

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Queridos, se já conhecem a notícia a seguir, vale repensar. Se não, o Bloghetto (e agora o Estrela Binária) fica feliz com a “primeira mão”.

Tempos atrás, o jornal Washington Post elaborou uma pesquisa sobre percepção, gosto e prioridades das pessoas. Para isso, colocou um rapaz de jeans e boné tocando violino, por quase uma hora, numa manhã fria de janeiro, em hora de rush, com milhares de pessoas circulando a caminho do trabalho, numa estação de metrô de Washington D.C.

Os pesquisadores observaram que a maioria das pessoas não parou (apenas seis o fizeram), algumas pararam por segundos e partiram consultando seus relógios, e outras apenas jogaram dinheiro, sem sequer interromperem o passo. As únicas pessoas a quem a cena verdadeiramente sensibilizou foram as crianças, que pararam, mas foram logo puxadas pelas mães para que não se atrasassem. Ao final da apresentação, nenhum aplauso, apenas $32 no chapéu.

O que ninguém sabia é que aquele músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, que havia tocado uma das mais difíceis e belas peças de Bach, e que seu violino valia algo em torno de 3.5 milhões de dólares. Sem contar que, dias antes, Joshua lotara um teatro em Boston, com o ingresso mais barato custando $100.

À pesquisa, seguiram-se alguns questionamentos: será que em local e hora inadequados conseguimos perceber beleza? Paramos para apreciá-la? Reconhecemos talento num contexto inesperado? Se não conseguimos parar e ouvir um dos melhores músicos da atualidade, com o mais perfeito violino já fabricado, tocando uma das mais fantásticas músicas jamais compostas, quantas outras maravilhas estamos perdendo em nossas vidas?

Mas, efetivamente, o que  me remeteu a essa notícia requentada, na contramão de  elementar regra de jornalismo?

É que em tempos tais que vivemos, de insuportável insanidade, desmandos com a natureza, guerras sem fim, especulações mirabolantes e bolhas irresponsáveis que estouram na cara do mundo e o arrastam , com os olhos embaçados, para dentro do poço, tenho procurado agir como crianças que, tocadas pela beleza, param para apreciá-la.

Hora de descobrir maravilhas, ouvir boa música, ler, apurar a espiritualidade. Cultivar meu jardim, como quis Voltaire. Tenho-me concedido, na medida do possível, um saudável distanciamento da aspereza cotidiana  e convidado minha criança para brincar. Sabem aquele verso do Milton “toda vez que a bruxa me assombra, o menino me dá a mão…”? Assim.

Como Joshua, aqui e ali vou percutindo meu instrumento – a palavra, companheira inseparável – para os que passam, apressados ou nem tanto, por minha estação. Já me sinto no lucro. Não o dos especuladores ensandecidos, mas o verdadeiro e nada volátil lucro dos que são, de alguma forma, vetores de sentimentos, emoções, ideias.

 

 

 

Noturno

 

   Selma Barcellos

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noturno

 

                                                  Em noite insone,

                                                  o poema assoma.

                                                  Tem asa tensa.

                                                  Assombra.

                                                  Revira gavetas,

                                                  inquieta a pena,

                                                  espalha folhas

                                                  vazias.

                                                  Quando se vai,

                                                  já é dia.

                                                  O cão late.

                                                  A alma desnuda,

                                                  cansada do embate,

                                                  apaga os sinais.

                                                  Afaga a palavra

                                                  muda.

 

                                                                                Itacoatiara, quase outono, 2013

 

 

Duelo de titãs

 

      Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

Há um ano Millôr nos deixava pior 

mas suas millorianas minoram

o que não pode ser melhor.

 

Selminha, fã absoluta da genialidade de Millôr e Shaw, pinçou-lhes algumas preciosidades:

 

 

“Um dos autores de que mais gostei foi, naturalmente, o (Bernard) Shaw. Cheguei a traduzir algumas coisas dele, mas eu não sinto influência, apesar de o Shaw ter sido um cara brilhantíssimo e eu mesmo dizer:

Todo homem nasce original e morre plágio.’ ”

(Millôr Fernandes)

 

BernardShaw

 Bernard Shaw

 

 

Ciência

Shaw“A ciência nunca resolve um problema sem criar pelo menos dez outros.”

Millôr“Todos sabem que a ciência tem seus lados negativos: a invenção do microscópio provocou o aparecimento de milhões de micróbios.”

 

Democracia

Shaw“A democracia é apenas a substituição de alguns incompetentes por muitos corruptos.”

Millôr“E por fim chegamos à Democracia, esse extraordinário modelo de organização social composto de três poderes e milhões de impotências.”

 

Juventude

Shaw: “A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la em jovens.”

Millôr“Sou jovem há muito mais tempo do que qualquer desses rapazinhos que andam por aí.”

 

Moda

Shaw“A moda, afinal, não passa de uma epidemia induzida.”

Millôr“As modas vão e vêm, mudam sempre: o ridículo é que é permanente.”

 

Música

Shaw“Minha objeção aos instrumentos de sopro é que eles prolongam a vida de quem os toca.”

Millôr“Para você ser considerado musicalmente culto é bom, pelo menos, saber distinguir entre Gulda, Favestaff, Thalberg, Ritter, Steinway, Erard, Busoni, Esenfelder, Bülow, Beckstein, Serkin, Bösendorfer e Pleyel, quais são os pianos e quais são os pianistas.”

 

Pais

Shaw“A paternidade é uma profissão importante. Tão importante, aliás, que deveria exigir testes de aptidão, no interesse dos filhos.”

Millôr“Certos pais têm a pretensão de preparar os filhos pra vida: outros têm a megalomania de preparar a vida pros filhos.”

 

Paixão

Shaw“Quando duas pessoas estão sob a influência da mais violenta, insana, enganosa e passageira das paixões, são obrigadas a jurar que continuarão naquele estado excitado, anormal e tresloucado até que a morte os separe.”

Millôr: “Toda paixão desvairada esconde uma manchete policial.”

 

Saúde

Shaw“Use toda a sua saúde a ponto de esgotá-la. E gaste todo o seu dinheiro antes de morrer. Não vale a pena sobreviver a essas coisas.”

Millôr“A saúde é um estado físico-permanente anormal que não conduz a nada de bom.”

 

Vergonha

Shaw“Quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha, diz que está apenas cumprindo seu dever.”

Millôr“Finalmente uma reação. Um faxineiro do Banco Central, envergonhado com a roubalheira a que assiste todos os dias, se atirou pela janela do edifício. Porém, coerentemente com o local, teve a precaução de se atirar do primeiro andar. E para dentro. Mas já é um princípio.”

 

 

millor

 Millôr Fernandes

 

 

Demorô, vó!

 

      Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

Você passa a vida acarinhando seus livros prediletos, sentindo até o cheirinho da época em que foram lidos, tirando-lhes o pó, protegendo-os das traças para entregá-los em ato solene aos netinhos e o que acontece? Uma engenhoca sedutora, mimo digital com milhares de livros eletrônicos, pouco mais de 200g e espessura milimétrica, chega para desbundar sua biblioteca hereditária. É duro.

Serão e-readers os netos… Que argumentos usarei para que se encantem e viajem nos meus barquinhos de papel? Como convencê-los de que aqueles tesouros arqueológicos na estante da vovó têm valor inestimável?

Missão impossível concorrer com o barato de virar páginas a um simples toque; de ver uma orelha virtual registrar onde se interrompeu a leitura (psiu, não espalhem, eu marcava livro com pétala de flor…); de usar óculos e poder perdê-los entre almofadas – o corpo da letra amplia; de esbarrar em palavra desconhecida e ter o significado ali, ao pé da página (repouse em paz, Aurelião); de cansar de ler silenciosamente e uma voz seguir adiante. Com música ao fundo. Covardia.

Mas tem lá seus pontos fracos o brinquedinho… Nele tudo aparece em preto, branco ou cinza e a cartela da vida é outra. A voz que lê usa a mesma entonação para uma ata de condomínio e um poema de Bandeira. Sem contar que não permite aquele diálogo incessante a que se referia Maurois – “o livro fala e a alma responde”. Não tem perfume. Jamais será arte. E tenho dito.

Porém, como ele representa menos árvores derrubadas, soluciona problemas de ordem prática e – maravilha! – pode ser cura para azia e preguiça de ler de crianças, jovens, uns e outros… prometo tentar.

Se cansar de ficar “muderninha”, tem erro não. Os netos saberão onde me encontrar. Periga só de cair pirlimpimpim da estante e, enfeitiçados, rolarmos juntos no tapete, mais os tuaregues, o saci, o Quixote…

 

LIVROS-E-KINDLE

 

 

Pit-mamãe

 

      Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Querida ex-colega de trabalho envia notícias da chegada do primeiro netinho (bem-vindo, Bernardo!) e anexa esta charge. De imediato, a lembrança de certa “ pit-mamãe” , em relato de tempos atrás.

 

 

Não vejo novelas. São suficientes a ida ao salão, as mulheres comentando, e as dezenas de revistas que folheio enquanto as luzes do cabelo “acendem”. Daí saber que a atual “trama das oito” aborda uma pit-família. Pimpolho manda e desmanda, destrata a professora e é, invariavelmente, acobertado pelos pais em suas gracinhas.

Em recente reportagem intitulada “Pit-alunos levam professores a procurar divã”, leio o seguinte depoimento: “Um professor do curso de Direito foi procurado por um aluno que contou ser policial militar reformado por problemas psiquiátricos. O aluno começou a dizer que precisava de nota 6 para passar e que estava com vontade de matar alguém naquele dia.” O professor nem titubeou: “Toma um 8 e não se fala mais no assunto.”

O que anda acontecendo, senhores? Estive em sala de aula por 27 anos e não tenho uma pit-história?  “Os tempos eram outros, tia Selma!” , dirão alguns. Nem tanto, pois que parei ao final de 2007. Quero crer que contei com o auxílio luxuoso do meu amor pela profissão e da escola e seus setores disciplinares priorizando o diálogo.

Mas houve uma vez um verão em que precisei chamar determinada mãe para uma conversinha. Não lembro o sexo do filhote, nem se o motivo era falta de estudo ou má disciplina.

Só sei que, final de expediente, sentada à mesa corrigindo alguns trabalhos, escuto um “boa tarde, professora”. Levanto a cabeça para responder e vejo adentrar o recinto uma mãe de… quimono. Sim, quimono, havaianas e suor, muito suor. Meio aberto, o uniforme deixava à mostra seu pescoço e seu plexo “de responsa” . Os braços não ficavam totalmente abaixados. A marrenta criatura ainda era faixa marrom, ou seja, estava a um golpe da preta. E se a sparring fosse eu?

Pedi que sentasse, por favor, e ela o fez. Só que… em cima da carteira. E, balançando as pernas musculosas, mandou um direto: “Qual é o problema?”. Confesso que não me intimidei. Apenas respirei fundo por viver tão bizarra situação e apliquei um “Mãezinha, é o seguinte…”.

Acho que aquele diminutivo surtiu efeito de um ippon… Molinha, molinha, ela me ouviu até o final, agradeceu, pulou fora do tatame, ops!, da carteira, e caminhou serena em direção ao corredor da escola, já às escuras.

Sei não… Se a figura não foi contratada para mostrar sua arte em algum seriado de TV, ficou molinha para sempre, uma flor de candura fazendo crochê enquanto pimpolho não chega para estudarem juntos.

Nunca mais tive notícias.

 

 

Querido diário

 

    Selma Barcellos

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Manhã de check-up: 

 

Saio quase duas horas antes por causa do trânsito infernal. Chego pontualmente e ainda mofo para ser atendida em exames marcados.

Aguardo minha vez com aquelas risadas tor-tu-ran-tes de Ana Maria Braga na TV da sala de espera. Não consigo ler meu livro. Não posso fugir. Corto os pulsos? Ao menos eu entraria logo.

Uma jovem folheia “Caras”, sacode o carrinho do bebê com os pés e imita um chocalho ininterrupto com a voz. A criança grita fininho. Sabe motor de dentista?

Toca um celular. O ring é um cidadão aos berros: “Ora comigo! Sai deste corpo que não te pertence! Sangue de Cristo tem poder!” Que isso.

Na volta, já perto de casa, mais engarrafamento. São 40 cones para 10 homens asfaltarem UM buraco, em horário de pico, num trecho afunilado da estrada.

À tardinha… o impensável: “Senhora, queira desculpar, mas vamos estar repetindo um dos seus exames porque faltou luz* e nós o perdemos. Não se preocupe, vamos estar disponibilizando o horário que lhe for mais conveniente”.  _ De madrugada!, respondo. Mentira, rosno.

Querido diário, eu não acho, tenho certeza. Nunca mais domínio sobre a qualidade do nosso tempo, pessoas silenciosas, inteiras (suas metades estão sobre a mesa, no bolso, nas mãos), respeito mínimo, privacidade… Nunca mais restaurantes calmos, praias quase vazias…

Admirável mundo novo.

 

 

 

*Que faltou luz. Simplesmente o  profissional que me atendeu não dominava aquela estrovenga de medir esqueleto e o exame ficou ilegível. Rrrrr…