A concha aconchega
todos os mares.
Mas pra que chegar?
A viagem chega.
“Fado dos Barcos”, Pierre Aderne e Cuca Roseta
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Fado dos Barcos (Pierre Aderne)
A tarde a cair
Os barcos a passar
E as velas desses barcos
Iluminam as noites deste mar
Há barcos que navegam
E se encantam noutro mar
Há barcos que balançam com saudade, saudade de voltar
Eu ouço o canto do mar
De lá que vem, do barco de alguém
Do mar de quem procura também como eu
Uma ilha e seu mar
Eu canto pros meus barcos com o mar no coração
Os barcos a sumir os acomodo na minha mão
Se um dia um desses barcos ancorar na minha aldeia
O convido a navegar
Pelos mares, os mares das minhas veias
“Porquinho-da-Índia” (Manuel Bandeira), declamado por José Maria Alves
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=xQHP-7IqQ2o[/youtube]
PORQUINHO-DA-ÍNDIA
MANUEL BANDEIRA
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
— O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
O menino Manuel Bandeira sofreu a sua primeira desilusão amorosa com um porquinho-da-índia que só queria estar debaixo do fogão e não fazia nenhum caso das suas ternurinhas.
O menino ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, parece um porquinho-da-índia, mas se comporta ao contrário daquele do menino Manuel. Em vez de só querer estar debaixo do seu fogão, põe-se a esbravejar, ameaçando tocar fogo no mundo, louco para receber uma ternurinha.
O teatro de guerra de Kim Jong-un me fez lembrar de um grande filme, verdadeiro clássico, “O Rato que Ruge” (“The Mouse that Roared”), em que o magnífico Peter Sellers, como costumava fazer, protagoniza diversas personagens.
O minúsculo ducado de Grand Fenwick, que ainda vive na era da espada e do arco e flecha, atravessa uma grave crise financeira porque seu único produto de exportação, um vinho fino, é vendido mais barato por uma companhia norte-americana. Seus governantes, a Duquesa e o Primeiro Ministro (ambos interpretados por Peter Sellers) têm então a brilhante ideia de declarar guerra aos Estados Unidos, na certeza de que, depois vencidos, passarão a receber ajuda para se recuperar.
Acontece, porém, que ao invadirem Nova Iorque vestidos e apetrechados como cavaleiros medievais, os bravos soldados do ducado, sob o comando de outro personagem vivido por Peter Sellers, encontram as ruas vazias por causa de uma simulação de ataque aéreo, capturam por acaso um cientista com a nova e poderosíssima arma por ele desenvolvida (uma bomba com o formato da bola oval de futebol americano, que de vez em quando estridula ameaçadoramente) e assim acabam por ganhar a guerra, com a capitulação incondicional dos Estados Unidos!
O filme tem um final feliz, mas resta saber se Kim Jong-un é apenas um rato gordo que ruge ou um rato louco que urge.
“Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão”
“Bola de meia, bola de gude” (Milton Nascimento / Fernando Brandt)
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A experiência a que se refere Selma Barcellos
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=myq8upzJDJc[/youtube]
“Nocturno Opus N°2” (Frederic Chopin)
Sempre intrigam os enlaces entre fatos aparentemente desconexos, como se regidos por uma lei que nos escapasse à compreensão.
A semana que se findou e a que se inicia nos apresentam mais um desses laços enigmáticos — chamemos assim, à falta de uma designação mais apropriada.
Nosso tradicional Dia da Mentira, 1º de abril (o que leva a pressupor que todos os demais dias sejam consagrados à verdade), cai na segunda-feira subsequente à Semana Santa em que se celebrou a Paixão e a Ressurreição de Cristo.
Mera coincidência? Simples datas delimitadas pelo calendário gregoriano, que é apenas uma convenção, entre muitas, para se contar o tempo? Talvez.
Já se disse — sem demérito algum — que a ciência lida com verdades provisórias. A física clássica de Newton concebia o universo de modo ordenado, e mesmo Einstein buscou durante sua vida toda a explicação ou a resposta definitiva. Hoje, uma forte corrente sustenta ou trabalha com a hipótese de que não haveria tal explicação, já que o universo seria caótico e assimétrico, e muito do que existe hoje, incluindo o próprio ser humano, resultaria de acasos ou mesmo desvios erráticos.
Será mesmo?
Que verdades científicas virão a seguir? A ciência só aceita fatos que possam ser testados e corroborados por evidências, mas tais comprovações têm variado e até se contraditado ao longo do tempo e com a evolução tecnológica. Como a existência de Deus não pôde ser testada até agora, não é admitida como verdade científica.
— O que é a verdade?, teria indagado ao Cristo Pôncio Pilatos, para em seguida se afastar, sem interesse pela resposta, e depois lavar as mãos, permitir a crucificação daquele nazareno e libertar Barrabás, atendendo à opinião pública da época, a chamada voz do povo, tida por muitos como a voz de Deus.
Anatole France, um escritor essencial, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1921, mas que está fora de moda ou dos modismos, no seu livro L’Étui de nacre (O estojo de nácar, que infelizmente jamais teve uma edição brasileira), nos brinda com um conto tão primoroso quanto instigante, O procurador da Judeia.
Trata-se de um fugaz episódio de Pôncio Pilatos já na velhice, vivendo novamente em Roma. Um dia encontra nas colinas romanas um antigo amigo que também estivera na Judeia na mesma época e com o qual costumava conversar, para matar as saudades da terra natal. Recordam-se agora daqueles tempos e de diversas passagens na longíqua região, principalmente as condenações dos judeus presos.
— Ah, como davam trabalho aquelas condenações!, rememora Pilatos.
— E a condenação daquele Jesus de Nazaré, lembra-se?, pergunta-lhe o amigo. — Como foi complicada!
Depois de pensar durante algum tempo, Pilatos responde:
— Jesus? Jesus de Nazaré? Não, não me lembro, não.
O que explicaria o fato de Cristo ter nascido, vivido e pregado (e sido pregado) numa região distante e periférica do mundo de então, a ponto de nem mesmo ser lembrado pelo velho procurador que determinou a sua execução? Em razão disso há pouquíssimos e vagos registros históricos da sua existência (terá querido que assim fosse?).
Voltaire sustentava que se há o relógio é porque há o relojoeiro que o inventou e fabricou. Mas os relógios batem horas desencontradas, e cada um de nós tem a sua própria hora. Sem dizer que até mesmo os relógios parados estarão certos duas vezes ao dia.
Melhor então cantar com o grande Adoniran Barbosa:
“Num relógio
É quatro e vinte
No outro é quatro e meia
É que de um relógio pra outro
As horas vareia.”
“Tocar na banda”, Adoniran Barbosa
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Gqi-iSliARQ[/youtube]