Posts in category "Tom Gama"

além linha…

 

                                                                             .

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                                                                              abaixo

                                                            da tênue linha-d’água

                                                            do que dizemos apto

                                                                                jaz

                                                            a profundeza de um oceano

                                                            borbulhante de palavras que só o

                                                                                                                  cego

                                                                                                                  surdo

                                                                                                                  mudo

                                                                                                                  (ou poeta)

                                                                                é capaz

                                                                                                                  enxerga

                                                                                                                  escuta

                                                                                                                  prenuncia

                                                                                                                  (ou deleta)

                                                                                .   .   .

                   

 

 

 

“Penicilina puma de casapopéias
Que vais peniça cataramascuma
Se partes carmo tu que esperepéias
Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso
Sem ter mavorte fide lastimina
És todavia piso de horroroso
E eu reclamo — Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco
Martume ezole, ezole martumar
Que tu pára enfim é mesmo um taco.

E se rabela capa de casar
Estrumenente siba postguerra
Enfim irá, enfim irá pra serra.”

(Millôr Fernandes)

 

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=l7tIX8kSmD0[/youtube]

 

 

 

 

 

“Lamentos” (Pixinguinha / Vinicius de Moraes), Yamandu Costa / Dominguinhos

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=EtoEpxSMfSc[/youtube]

 

 

 

 

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Bloghetto Selma Barcellos

 

Atenção, caríssimos e binários amigos,

Problemas técnicos no “Bloghetto Selma Barcellos”, que logo estarão resolvidos pela maestria do Duda.

Em breve tempo  “Annuntio vobis gaudium magnum: habemus Bloghettum!”

 

 

De como participei da fundação da Academia Brasileira de Letras

 

 

“É certo; então reprimamos

esta fera condição,

esta fúria, esta ambição,

pois pode ser que sonhemos;

e o faremos, pois estamos

em mundo tão singular

que o viver é só sonhar

e a vida ao fim nos imponha

que o homem que vive, sonha

o que é, até despertar.”

 

(“A vida é sonho” (excerto), Calderón de la Barca)

 

 

 

Saídos da Livraria Laemmert, os circunspectos cavalheiros encasacados entraram por volta das 17 horas na confeitaria, tiraram as cartolas e os chapéus ao se sentarem numa ampla mesa reservada, ao fundo.

Logo foram atendidos por dois garçons, igualmente impecáveis nos seus trajes. A maioria preferiu chás variados, torradas, bolachinhas e outras guloseimas servidos àquela hora e que eram a especialidade da Casa. Alguns poucos arriscaram um xerez ou um vinho do Porto. Eu fui um deles.

O grupo observava uma tácita hierarquia. Os mais jovens eram todo ouvidos e pouco falavam. E o centro da reunião era o senhor de barba e cabelos encanecidos, amulatado, de pince nez, que falava pausadamente de modo a disfarçar uma leve gaguez. Tratava-se de Joaquim Maria Machado de Assis, intelectual consagrado, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta.

— Como sabem os senhores, apóio a ideia dos confrades Medeiros de Albuquerque e Lúcio de Mendonça de criarmos uma Academia Brasileira de Letras, nos moldes da Academia Francesa, e creio mesmo que tal providência, por necessária,  já se faça tarda, não para colhermos a efêmera glória mundana, mas como um marco da instituição de uma literatura nacional.

Ouvia-o atentamente, enlevado com a lucidez e elegância que expunha seu pensamento, a velada ironia de suas observações, tal como em seus romances, contos, poemas e crônicas.

Que honra e privilégio estar na companhia de tantas figuras admiráveis, especialmente dele, e a participar de momentos que haveriam de se tornar históricos!

Mas o que fazia eu ali?

Era um dos mais moços e sentia a vaga sensação de ser um estranho, embora nenhum dos convivas denotasse isso, tratando-me com lhaneza e afabilidade natural dos amigos.

O próprio Machado de Assis algumas vezes pareceu dirigir-se a mim, com o esboço de um sorriso, aparentando certa afeição, como se eu fosse um pupilo dileto ou até mesmo um filho, que ele nunca teve (ou teve, segundo as más línguas).

Apesar de me sentir muito bem e interessado na conversação e nas opiniões que se alternavam, pressentia que a qualquer momento haveria de deixá-los.

Como se sabe, depois de várias reuniões preparatórias, a Academia Brasileira de Letras foi fundada em dezembro de 1896, e oficialmente instalada em 28 de janeiro de 1897, com Machado de Assis sendo eleito o primeiro presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908.

Eis que desperto no meu quarto, nesta São Sebastião do Ribeirão Preto, na manhã de um sábado do ano da graça de 2013, com as imagens vívidas do que relatei acima e uma sensação de rara euforia.

Acorro à cozinha, onde minha mulher prepara o café, e lhe conto em atropelo o sonho tão estranho quanto fascinante.

Ela, que sempre foi extraordinariamente intuitiva e com frequência faz predições que se confirmam, escuta-me com um sorriso maroto e os olhos verdejantes, e ao final diz que talvez eu possa mesmo ter estado lá. Quem sabe?

— O que mais importa é que o sonho lhe fez bem e você acordou numa manhã feliz.

De que matéria serão feitos os sonhos e as manhãs felizes?

 

 

MATÉRIA PRIMA

 

De que são feitos os sonhos?

 

Nostálgicos amores

revoltos mares

remotos temores

fragmentos de luzes

no umbroso porão

da memória ancestral

do primeiro Adão

e seu perdido Jardim

de flores, frutos, olores,

arrebatado de mim

pelo tempo e pela treva.

 

Tortuosa travessia

entre o crepúsculo e a aurora,

a vertigem do abismo me leva

a galgar trôpego e sôfrego

o promontório do dia.

 

 

 

 

Música em estado puro

(para a poesia em estado puro de Nicolas Sauvage) 

 

 

“Bicicleta” (Zé Renato), Boca Livre

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=EvwI02YInGY[/youtube]

 

 

O inseto

 

 

inseto 3 (3)

 

 Sobre o mármore

 insípido

 o pequeno inseto

 atônito

 patinha longitudes

 elípticas.

 

 Na vasta superfície

 álgida

 de pedra e água

 afeiçoada

 persiste no tracejo

 resignado

 sem atinar a mão

 iminente

 que sustém a existência

 precária.

 

 Seremos nós esse bicho

 errático

 a vaguear pela solidão

 inóspita

 enquanto outra mão

 onipotente

 concede a graça

 sombria

 de mais um dia

 só mais um dia?