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S.O.S.

 

 

S.O.S.

Ilustração: Annibal Augusto Gama

 

 

                                                                       S.O.S.

 

 

                                                           Aquele que escreve

                                                           é o náufrago solitário

                                                           de uma ilha inventada

                                                           a lançar nas águas

                                                           mensagens cifradas

                                                           em peregrinas garrafas.

 

                                                           Sentado na areia

                                                           à sombra da mítica palmeira

                                                           vai grafando signos no papel

                                                           com a tinta indelével

                                                           de insolúveis angústias.

 

                                                           Muito além do tênue traço

                                                           que separa o mar e o céu

                                                           quem haverá um dia

                                                           de recolher na praia

                                                           a errante algaravia?

 

 

 

Da arte de olhar pela janela

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Provavelmente, você tem quatro ou cinco janelas na sua casa. A menos que você viva debaixo da ponte, ou de um viaduto, cujo vão se abre para a direita e para a esquerda. E você costuma, de vez em quando, olhar lá fora, através das janelas. Faz isto, mas são muito poucos aqueles que sabem a arte de espiar pelas janelas. Tentarei ensiná-la.

Para olhar pela janela você precisa primeiramente correr a cortina, seja ela de pano grosso, ou dessas lâminas de plástico que sobem e descem, puxadas por um cordão. Estas últimas cortinas não são fáceis de ser manejadas, porque geralmente enguiçam. É hora então de você soltar um palavrão. Se a cortina for de filó, você consegue espiar lá fora, através dela. Mas antes, é claro, você tem de abrir a janela e, melhor ainda, descer a vidraça. Sem fazer isso, nada feito.

Bem, depois de alguma dificuldade, você conseguiu arredar a cortina, abrir a janela e descer a vidraça. Então, você está pronto para dar uma olhada lá fora.

Mas para que você quer olhar lá fora, se pode olhar aqui dentro mesmo, e principalmente dentro de você mesmo? Não discutamos isso, já que você optou por olhar lá fora, o que é um direito seu.

Para que você olha para fora da janela? Para ver se chove, se faz sol. E, sobretudo, para ver se vai passar na calçada aquela loira boa, de vestido curto, exibindo as coxas, ou com a bunda apertada nas calças jeans, muito justas. Está na hora de ela passar. E você disfarça, se sua mulher lhe pergunta: que é que você está fazendo aí, olhando pela janela? A resposta deve ser: estou olhando as árvores e a paisagem… Mas que paisagem, ó meu? Diante de você está é o paredão de um edifício de vinte pavimentos. Ou um bruto outdoor, que o impede até de ver o céu.

Bem, você viu a loiraça que passou lá embaixo. E até lhe acenou a mão, e ela sorriu. Um dia ainda te pego, prenda minha. Saia então da janela, antes que sua mulher se irrite.

Mas você também pode ser um janeleiro de quatro costados, que não tem o que fazer, e sua mulher já se conformou com esse hábito seu. Fica o dia inteiro, e parte da noite, debruçado na janela, olhando de um lado para outro. Já está até com calo nos cotovelos. Peça à sua mulher que faça uma almofadinha, para você apoiar os cotovelos. Ela faz, coitada. Em compensação, vá lhe dizendo tudo o que se passa na rua ou na calçada: “Seu Osório, hoje, está atrasado… Vem vindo aí a perua das pamonhas… O cachorro Faísca, de Dona Vitória, fugiu de casa e está mijando no poste… Tem um sujeito discutindo com outro, na esquina… Olha lá, a pobre da Dinorá está barriguda de novo… O farmacêutico Seu Messias, com a sua maleta, entrou na casa de seu Felipe… Vai ver que Dona Olga está gripada de novo e vai tomar uma injeção na bunda… O Padre Messias vem vindo lá de cima, com o guarda-chuva aberto… Parou diante da porta da viúva Biondina, fechou o guarda-chuva e entrou… Neste mato tem coelho…”

A cidade tem muita coisa para ver e contar. E há janeleiros e janeleiras aqui e ali, que trocam informações uns com outros.

Pode ser também que você more num apartamento. E, de um lado e outro, há outros edifícios de apartamentos. Compre um binóculo, para espiar aquela moça que se despe, ali em frente, com a janela aberta. Você vai descobrir que ela tem uma pinta preta, do lado direito da barriga. Mas você deve ter cuidado, e espiar apenas por uma fresta da janela, escondido atrás da cortina.

Quando eu digo olhar pela janela, digo também escutar dali os ruídos e rumores que vêm de fora. O ronco dos automóveis, o matraquear das solas dos sapatos nas calçadas, os gritos, a sirene do carro do hospital, as buzinadas e derrapadas dos carros, as músicas estrondosas que vêm de dentro deles… É muito complexa esta arte de espiar através das janelas. E note que você também está sendo espiado por outros janeleiros. Um desaforo.

A vida é muito engraçada. Há quem espie, quem seja espiado e comentado, quem ande de um lado para outro feito barata tonta, quem para, e quem vai. Somos todos espiões uns dos outros.

 

janela indiscreta

 

 

 

Uma canastra só de curingas

 

          Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

― O ilustre e ilustrado amigo pode me dar uma explicação?

― Depende. Se é para explicar o que é a vida, não posso. Pergunte a um morto.

― Mas os mortos não falam.

― Falam sim. Falam o hungarês, as línguas mortas, como o latim, e algumas outras.

― Então eu devo aprender hungarês para falar com um o morto?

― Se ele só falar o hungarês, é claro. Mas se ele não fala hungarês, mas só alemão, o senhor deve aprender o alemão.

― E como é que eu vou saber a língua que um morto fala, para falar com ele?

― Vá aprendendo as línguas.

― Ora, são centenas de línguas…

― São. Mas quando o senhor souber todas elas nem precisa mais falar com morto nenhum, porque saberá também o que é a vida.

― Quer dizer que as línguas, todas as línguas sabidas é que me explicariam o que é a vida?

― Já lhe disse quem quando o senhor souber todas elas não precisará mais saber o que é a vida.

― Por quê?

― Porque o senhor também já estará morto. E os mortos não precisam mais saber o que é a vida.

― Como é que o senhor sabe?

― Também já lhe disse que não sei.

― O senhor é muito radical. Não pode ao menos me dar um palpite?

― Palpite para o jogo-do-bicho? Isso, qualquer um pode ter.

― Não, um palpite que acerte no milhar.

― Então o senhor não quer saber o que é a vida, mas quer é ficar rico. E, se ficar rico, não precisará mais saber o que é a vida.

― Pelo que me diz, a vida é um jogo…

― Um jogo, mas também é preciso saber blefar. Vá blefando que um dia o senhor arrebenta a banca.

― Mas para jogar e blefar é preciso que haja outro jogador, ou outros jogadores.

― Sim, precisa. A vida são os outros. Nós mesmos, sozinhos, não somos nada. Os outros é que dão as cartas. E, olhe, há cartas marcadas, e fraude.

― O senhor é muito pessimista.

― Até que não sou tanto assim. Continuo jogando. Um dia, talvez, eu faça uma canastra só de curingas.

 

 

“Acertei no milhar”  (Wilson Batista / Geraldo Pereira), com Moreira da Silva

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=2eOpqjyjX6I&hd=1[/youtube]

 

 

 

O vira-lata

 

           Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Havia cometido muitas tolices e acertado em algumas coisas, e posto lado a lado tudo o que fizera, estava empatado. Os dois pratos da balança equilibravam-se. Não fedia, nem cheirava. 

Supunha que, nos anos que lhe restavam, devia fazer um grande gesto, uma façanha que melhorasse a vida de todos, que causasse admiração, para lhe dizerem: “Você é dos bons”.

Imaginava uma coisa ou outra, um empreendimento glorioso, uma obra magnífica, mas, mal começava a mexer-se, dava em nada. “Você está maluco”, opinavam, “deixe disso, se não quiser entrar numa enrascada e dar com os burros n´água”.

Ele não iria mudar o mundo, o mundo seria sempre como é, um desastre. Ninguém mais fazia milagres, nem mesmo os santos. Nem ele mesmo podia mudar-se, ser outro. O ramerrão dos dias, um depois do outro. Já não estava na idade das grandes paixões, de um amor violento. Todos estavam acomodados, e resignavam-se. Se ao menos inventasse um remédio contra a melancolia, contra a tristeza… Uma poção. O sujeito beberia umas colheradas dela e era um deslumbramento. Mas até nas farmácias muitas drogas ou remédios haviam sido recolhidos, não se podia comprar muitos deles sem receita médica. Se lia as bulas, os efeitos colaterais deles eram assustadores. “Consulte sempre um advogado”, recomendava a mensagem, no vidro traseiro dos carros. Os advogados, os juizes, os oficiais de gabinete, os prefeitos, os governadores, todos estavam perplexos. Já não falava dos deputados, dos senadores, uma corja.

Uma tarde, um cachorro vira-lata, numa esquina, veio cheirar-lhe a barra das calças, e acompanhou-o até a sua casa. Abriu o portão, e o cachorro, humilde, ficou olhando para ele, os olhos súplices, e abanando o rabo. Manteve o portão aberto e disse para o cachorro: “Entre”. Ele entrou. Foi botar-lhe um pouco de água fresca, numa vasilha e, noutra, trouxe-lhe um pouco de comida. O cachorro comeu e bebeu.

O vira-lata não mais o deixou, e este foi o gesto que o redimiu.

 

vira-lata 

 

 

 

A cota para os feios

 

            Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Meu amigo, o filósofo Pamplona Tredo, é um homem feio. É mesmo um homem muito feio. Torto, quase sem pescoço, a cara escalavrada, as pernas curtas. Por isso, naturalmente não encontrou até hoje mulher para se casar.

Dei com ele numa esquina, outro dia, muito alegre, rindo com todos os dentes e fazendo gracejos. Pegou-me pelo braço e foi logo me dizendo: “Você viu? Foi adotada a quota racial para os negros. Agora, eles terão preferência para ingressar nas Escolas Superiores, ainda que tenham péssima classificação no vestibular. Uma medida sábia. E mais, adotado tal princípio, ele terá de ir até às suas últimas consequências, com todos os seus desdobramentos. É o que ensina a boa filosofia”.

Não consegui imediatamente entender aonde Pamplona Tredo pretendia chegar. Mas ele prosseguiu: “Haverá logo uma quota para os feios e as feias. É natural. Os feios e as feias que não acham uma mulher ou um homem para casar. E eu serei um dos primeiros a ser contemplado pela quota dos feios”.

Ponderei que, neste caso, a quota podia lhe reservar uma mulher feia, ou mais do que feia.

— Não, senhor! — ele retrucou. Não seria justo, e não obedeceria ao regime de quotas. Ao contrário, estarão reservados para os feios e para as feias as mulheres mais bonitas e os homens mais galantes. E é isto o equilíbrio, porque, compensando a feiúra de um com a beleza de outra, gerarão filhos fisicamente harmoniosos.

 Tive de concordar com ele. Afinal, os princípios são os princípios. Não devem ficar a meio caminho. E ele e eu discutimos outros desdobramentos do princípio da quota racial. Como não o adotar também para os absolutamente imbecis?

 

 Zé Bonitinho 2

 

 

 

O assobio

 

           Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Depois de examiná-lo escrupulosamente, botando a sua orelha cabeluda em seu peito, o médico lhe disse: “ O senhor tem um sopro no coração”. E ele perguntou: “Dá para assobiar um samba de Noel Rosa?” De fato assobiou:

 

                              “Tenho passado tão mal…

                              A minha cama

                              É uma folha de jornal…”

 

Já não ouço, nem vejo, pelas ruas, as pessoas passarem assobiando. Antes, a cidade era cheia de assobios. E havia aqueles que eram mestres no assobio, como o meu cunhado, que assobiava canções como se tivesse um instrumento na boca. Também se assobiava para as moças que vinham e iam. Elas não, mulheres não assobiam, achavam que era falta de educação.

E lembro-me de Camões, ao final da sua epopeia:

 

                              “No mais, Musa, no mais, que a lira tenho

                              Destemperada, e a voz enrouquecida;

                              E não do canto, mas de ver que venho

                              Cantar a gente surda e endurecida”.

 

Desde cedo, os meninos começavam a aprender a assobiar. Havia também, entre eles, aquele assobio estridente e longo, para o qual era necessário botar os dois polegares dentro da boca. Assobiava-se até para chamar o vento. E os cães atendiam imediatamente ao assobio do dono, chamando-os.

Tarde da noite, ouvia-se alguém passar pela rua, assobiando uma canção.

De um quintal para outro (ainda havia quintais) os meninos assobiavam um para o outro, mandando-lhes recados, em seu código próprio.

Do assobio, muitos passavam a usar um instrumento musical, como a flauta, ou a gaita.

Agora, aqui na minha casa, quem assobia de manhã e de tarde, é o meu papagaio Horácio, o Hino Nacional. É um patriota verde.

Também eu, indo pelas ruas a levar o meu cachorrinho Pichorro, assobio para ele. E, se não o vejo, aqui em cima, assobio, chamando-o, e ele rapidamente sobe a escada e chega aos meus pés.

E havia ainda os pios para chamar pássaros. A família de Rubem Braga era especialista na fabricação de pios. E ele mesmo conta que um dia, em Cachoeiro de Itapemirim, pegou um pio para chamar macuco e foi para o mato, com uma espingarda. Piou, piou, até que veio vindo, lentamente um macuco. Ele engatilhou a espingarda, mas o macuco lhe disse: “Não atire não, moço… Eu só vim ver quem piava tão mal para chamar macuco”.

Assobiai, moços e cavalheiros! O assobio é um recado para a vossa própria melancolia.

 

assobiando 2

 

 

 

 

A bruma e a broma

 

           Annibal Augusto Gama

 Annibal

 

 

 

 

 

Quando vier o inverno, teremos possivelmente alguns dias e algumas noites de bruma. A bruma não apenas esconde as pessoas, transformando-as em vultos, mas também desfaz as arestas, deixando quase tudo sem contorno. Suponho que os mortos, durante algum tempo, vivam dentro da bruma, esbarrando-se uns nos outros, a perguntarem: Onde estou? Qual é o caminho? Tanto quanto nós outros, ainda vivos, que fazemos as mesmas perguntas. Mas, nas quatro estações, vivemos antes dentro da broma. Somos permanentemente embromados, e também embromamos. Os dicionários definem primeiramente “broma” como “inseto ou verme que rói a madeira”. Só ao fim do verbete é que definem “broma” como “gracejo, chalaça, troça”.

Na broma, neste último sentido, vivemos, passa ano entra ano, neste país das arábias. É a broma geral dos políticos, dos governantes, dos comerciantes, dos publicitários. A broma também e principalmente que toma o significado de trapaça, de engodo, de tapeação. E a broma rói, como o inseto ou verme.

Que são afinal essas cúpulas em que se reúnem periodicamente os governantes dos muitos paises, os economistas, os planejadores? Broma. Prometem auxiliar-se uns aos outros, a confraternizar-se, a acabar com as barreiras e as fronteiras, a diminuir os impostos, a trazer a felicidade para todos. Bromas. Tudo continua e continuará do mesmo jeito.

As eleições sucedem-se, e são as mesmas bromas. De vez em quando, alguns se irritam, e promovem as guerras, as revoluções. São outra espécie de broma 

O homem é o animal que embroma. A mulher embroma o marido, e o marido embroma a mulher. As religiões e as seitas, não raro, também embromam. As utopias não passam de bromas.

Eis porque prefiro a bruma.

 

 

 

O papagaio de Flaubert

 

            Annibal Augusto Gama

 Annibal

 

 

 

 

 

Quem não leu o admirável conto de Flaubert, “Un Coeur Simple”?  Se ainda não leu, não sabe o que está perdendo.

Felicité era uma criada, que teve a sua história de amor frustrada. Acabou apegando-se a um papagaio chamado Loulou. Afinal, o perroquet morre e ela, também, ao morrer, vê “um vapor azul”, em seu quarto. “Ela avançou suas narinas, aspirando-o com uma sensualidade mística; depois, cerrou as pálpebras. Seus lábios sorriam. As batidas de seu coração diminuíram uma a uma, cada vez mais vagas, mais doces, como uma fonte que se esgota, como um eco que desaparece; e quando exalou sua derradeiro suspiro, creu ver, nos céus entreabertos um gigantesco papagaio, plainando em cima de sua cabeça”.

Fui visitar o meu amigo Germano, que não é muito confiável e, muito imaginoso, conta histórias incríveis. Também eu as conto, e dizem-me: “esta eu não engulo”. Mas engolem.

Na casa de Germano, vi um papagaio no poleiro. Era no inverno e fazia um frio desgraçado. Ao aproximar-me do poleiro, o papagaio, que estava todo arrepiado, disse-me: “Il fait un temps de chien! Quel froid!”

Voltei-me para Germano, exclamando: “O seu papagaio fala francês!” E ele confirmou:

— Pois é… É um papagaio que Flaubert deu ao meu tio-avô, em sua casa, em Ruão.

Ora, Flaubert havia falecido há mais de cem anos e, portanto, o papagaio, ainda que viva sessenta anos, ou mais, não podia ser o que o seu tio-avô recebera de presente de Flaubert.

Mas Germano me explicou:

— Voltando para o Brasil com o papagaio, meu tio-avô arrumou uma papagaia para fazer companhia ao outro. Daí, o casal se apaixonou, e a papagaia botou e cuidou dos ovos que geraram outros papagaios. Este aí é um descendente do casal. 

A explicação era convincente, e aceitei-a.

Retornando para minha casa, contei a história a meu papagaio Horácio, que a admitiu como verídica. E também me disse: 

— Eu mesmo sou descendente direto de um papagaio que D. Pedro I deu à Marquesa dos Santos. Mas não me gabo. Sou republicano, se bem que a república vai mal, muito mal das pernas…

 

flaubert 

 

 

Da arte de suportar o próximo

 

           Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Você suporta o próximo e ainda tem de suportar o longínquo, porque de vez em quando vem a notícia nos jornais, ou na televisão, de que na Índia, ou na África, estão morrendo de fome milhares de crianças. O distante não é difícil de suportar, ainda que você tenha pena dele e remorso. O duro mesmo é suportar o próximo. Daí a arte de suportar o próximo, que lhe vou ensinar.

O próximo mais próximo está dentro da sua casa, se é que você tem casa. Se você mora debaixo de um viaduto ou dentro de um tonel, há sempre um próximo no mesmo viaduto ou dentro de outro tonel. Mas vocês então são mendigos, e o jeito é ir levando, já que não levam nada, mas catam nas latas de lixo.

O próximo mais próximo de você é sua mulher, que até dorme na sua cama. Ou não dorme e exige de você o que você não tem vontade, porque trabalhou o dia inteiro e está cansado. De qualquer maneira, é preciso satisfazê-la, para depois você conseguir dormir. Satisfaça-a.

Mas você também terá na sua casa os filhos e as filhas. Eles e elas estão sempre exigindo. E você tem de arcar com as despesas deles, com o colégio, com o carro que eles esbarrondam a cada ano, com o dentista, com o médico, com a roupa, com a alimentação sobre a mesa, com o televisor ligado alto, com o estrondo do som em seus quartos, com as suas brigas e palavrões. E vem também a sua sogra, e você terá de a cumprimentar, dizendo-lhe: “Como está, Dona Emerenciana?” E ela lhe faz cara de raiva, indo ainda dizer à sua mulher: “O seu marido é um traste, não sei como você foi casar com ele”. O seu sogro é que é tolerável, embora lhe dê algumas facadas de vez em quando.

Se você é velho, terá os netos e os bisnetos, e é a mesma coisa. Vá aguentando, e servindo-os. A sua vingança é que, mais tarde, eles terão também os seus próximos.

O mais próximo de você mesmo, agarrado em você mesmo noite e dia, é você mesmo, e você tem de se suportar, o que não é nada fácil. Há até dias em que você terá vontade de se enforcar.

Há ainda os cachorros, o papagaio, os bichos domésticos que você suporta.

Suporta ainda o chefe da sua repartição, que lhe passa descomposturas, suporta o Delegado de Polícia, o Juiz de Direito, e o duro, duro mesmo de suportar é o Luiz Inácio, o Sarney e outros como eles.

Também há que suportar as filas nos Bancos, as filas de ônibus, a espera nos aeroportos, as buzinadas dos carros nas ruas, o vizinho que bate prego na parede às duas horas da madrugada.

Com o tempo, você aprende a suportar os desaforos, as doenças e a canalhice geral. Suportará o Brasil, os Estados Unidos da América do Norte, a China e o Afeganistão, e até o tango argentino.

Ame o próximo, ainda que ele feda.

Suporte a coceira, o calo que dói, as caspas, o dente que dói (se é que você ainda tem dentes)

Suporte, suporte, porque a vida é suportar. E ainda por cima, você vai para o inferno e tem de suportar o Diabo que o carregue.

 

“Conversa de Botequim” (Noel Rosa / Vadico), com Ivan Lins

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=JHfPMBhoduw&hd=1[/youtube]

 

 

 

Da arte de perder

 

        Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Assim como há uma arte de vencer, há uma arte mais sutil, que é a arte de perder.

As pessoas que preferem ganhar sempre, esquecem que a vitória é uma euforia passageira, carregada de obrigações e compromissos que pesam desmesuradamente, enquanto perder se torna uma lembrança permanente, com muitas reflexões: “Se não tivesse acontecido isso, se aquela bola não tivesse batido na trave, se eu tivesse feito aquilo, e não o que fiz…”

Quem olha com desprezo o perdedor esquece que ele também afinal vai perder, de um modo ou de outro. Perder é projetar-se para o passado, enquanto ganhar traz sempre a inquietação de se conservar e se preservar.

Aconselha-se aos que vão vencer: “Não perca a estribeira”. Já os perdedores não têm compromisso nenhum com o estribo, nem com o cavalo. Vão aonde os levam o cavalo, o vento e a estrada.

Uma camisa da qual se perdeu os botões deixa à mostra o peito que será bafejado pela brisa fresca da tarde. Ao contrário, os ganhadores conservam os botões abotoados até o pescoço, e abafam-se.

Vejam os casos dos ganhadores da sorte grande: eles precisam mudar-se de um lugar para outro, estar cercados de guarda-costas, perdem o sono, com medo de ser roubados, e já não têm sonhos deliciosos. O perdedor vai para onde quer, e pendura o chapéu em qualquer lugar.

Os vencedores não encontram explicação para a sua vitória, ou acham que tiveram mais coragem, mais energia, mais perspicácia; e não podem dizer, como os perdedores: “Perdido por perdido, truco!”

A mulher que você amou e perdeu continua sempre presente. E não envelhece, é sempre bela. Mas a mulher que você não perdeu lhe inferniza a vida. Você a cada dia acha nela defeitos que a outra, a perdida, não tem.

E aqui está a verdade: o melhor da festa é esperar por ela. Porque a festa é sempre a mesma coisa, e você acaba entediado ou embriagado.

O certo é que, quando você perde, ou se perde, você se acha. E o ganhador jamais se acha.

Um projeto que não se realizou pode ser um projeto que ainda se realizará. Mas, realizado, ele pode ter conseqüências desastrosas. Por isso, a Otávio, vencedor no Egito, prefira Marco Antônio, que teve Cleópatra nos braços.

Um navio encalhado, que jaz no fundo do mar, conserva o tesouro que continua sendo buscado. Se se consegue tirá-lo dali, é uma decepção.

Gosto mais dos barcos que chegam, e não dos barcos que vão. O peixe que você não fisgou é mais belo, porque nada para longe, enquanto o peixe que foi fisgado vai endurecer no frigorífico.

Nem vale mais um pássaro na mão do que dois voando: Não senhor, os dois que voaram cantam, e o que ficou na mão entristece e perece.

Está errada a exclamação bíblica: “Vae, victis!” Porque os vencidos são aqueles que já não temem, e não têm nada mais a perder.

E quando Proust buscava o tempo perdido já o tinha reencontrado.

Ai dos vencedores, que são homens sem imaginação! Perderam a substância da vida.