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O homem completo

 

                  Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

O homem completo é aquele que está vestido de paletó, camisa, gravata, colete, cuecas (admito também as ceroulas), calças, meias, sapatos. E por cima, um sobretudo. Talvez também um guarda-chuva e óculos. Ah, há ainda os suspensórios. E o homem completo circula assim, tratando de seus negócios com outros homens nem sempre completos. Mais tarde ele vai para a sua casa e despe-se de sua indumentária. Tira, uma a uma, as peças da sua roupa, e fica nu. Mas nu, sente que lhe falta alguma coisa: a sua completude.

Em Portugal diz-se que o homem daquela maneira vestido, está com o seu fato. Ou os seus fatos. Ele porém não é um fato. De fato, precisa, a vida inteira, fazer-se, e nunca chega a fazer-se por inteiro.

Também se propala que o homem sem mulher não vale nada. Estou de acordo. Se bem que mulher antes desfatada, isto é, nua.

Antes, no começo do século XX, para se despir uma mulher gastavam-se horas. Era preciso tirar-lhe o chapéu, as luvas, a blusa, a saia, a combinação, as anáguas, o corpete, as calcinhas, o sutiã, os brincos, as ligas, as meias, os sapatos. Pensam que este trabalho todo aborrecia ou fatigava o homem completo? Ao contrário: quanto mais ele desvestia a mulher, mais ficava aceso.

Os costumes (também nome das vestes) e as modas mudam. Atualmente, não se precisa despir uma mulher. Ela já vem despida e pronta para a cama.

O meu cachorrinho Pichorro é muito peludo, e os seus pelos são a sua indumentária. Tenho de escová-lo todos os dias. O meu papagaio Horácio veste-se com as suas penas verdes e algumas vermelhas. Só o seu bico é nu. Ambos, porém, estão sempre completos, têm a sua completude, que eu nunca tenho e pode ser que nunca terei.

Só os defuntos estão completos. Mas foram vestidos por outros. E acho que, no caixão, deveriam estar nus. Nus, e dando uma banana, para nós outros, que não atingimos nunca a nossa completude.

 

 

Os três convidados

 

         Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

                                                           OS TRÊS CONVIDADOS

 

 

                                               Para a minha festa natalícia

                                               convido três amigos,

                                               um velho, um moço, um menino.

 

                                               Sirvo-lhes na mesa redonda

                                               coberta pela toalha de linho

                                               o pão, o queijo, o vinho, o leite, o mel.

 

                                               O relógio na parede vai bater nove horas

                                               e é confortador o fogo sob a trempe do fogão

                                               onde ferve a água para o café.

 

                                               O velho come o pão embebido no vinho,

                                               o moço come o queijo e bebe o vinho,

                                               o menino toma leite e se lambuza de mel.

 

                                               Não é preciso dizer nenhuma palavra

                                               tanto nos conhecemos de tantos anos,

                                               e eu rio nas rugas do velho,

                                               na ardente face do moço

                                               e nos olhos úmidos do menino.

 

                                               Bebo afinal o café

                                               com o fantasma das três idades.

 

 

 “Resposta ao tempo” (Aldir Blanc / Cristóvão Bastos), com Aldir

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=fgHfzDgOwtY[/youtube]

 

 

Croquibilu, a saga

 

 

 Eu meninoNa pedregosa Pedregulho, de terra vermelha e chão batido, com poucas ruas asfaltadas, o menino se esbaldava em total liberdade.

Próximo da casa o curral onde se buscava e bebia todas as manhãs o leite acabado de tirar. O campinho de futebol em frente, os eucaliptos, o grupo escolar um pouco acima.

Abaixo, atravessando uma vala equilibrando-se na pinguela estreita e improvisada com troncos de árvore, havia um grande pasto com um riacho, que empoçava e formava um brejo mais ao fundo . Foi ali que viu o sapão pela primeira vez. Havia outros, mas aquele era o rei, o macho alfa. Voltou várias vezes para admirá-lo. Num dia em que o sapão estava mais pachorrento do que de costume, atirou-lhe umas pedrinhas para que saltasse ou exibisse seu lingueirão repentino, mais rápido do que o saque de qualquer pistoleiro do Velho Oeste. Foi então que um dos amigos o alarmou:

─ Xiiiii, você não devia fazer isso, provocar o sapo! Agora tem de matar, senão ele vai à noite na sua cama e mija em você!

Não tinha coragem nem vontade de fazer mal algum ao pobre sapo, só queria mesmo atiçar ele um pouco. Claro que estava fora de cogitação matá-lo, mas ficou impressionado com a lorota do amigo, e passou duas ou três noites incomodado, acordando sobressaltado durante a noite. De dia, ia ver se o sapão continuava por lá. Será que de noite…?

Acabou contando sua aflição para o pai, que riu muito e lhe disse que aquilo tudo era bobagem. Foram juntos ver o sapão e na volta o pai, talvez para tranquilizá-lo de vez, contou-lhe que o avô era grande amigo dos sapos e até tivera um de estimação na fazenda que ficava ali perto, em Rifaina, na divisa com Minas Gerais, e que depois vendeu para quitar dívidas da grande crise cafeeeira.

─ Como você é neto do Coronel Asdrúbal, não precisa ter medo de sapos. Eles fazem parte da família…

Um dia, remexendo nos escritos do pai, reencontrou a história do sapo avoengo.

 

CROQUIBILU

AnnibalCroquibilu era um sapão de mais de um palmo grande aberto, e achou de vir aos pulos balofos até à escada, subindo-lhe igualmente os degraus, e achou-se afinal no piso do alpendre. Então, foi indo, e escolheu um lugar, ali no canto, entre um caixote e um latão, e se acomodou, confortável. Logo viria, pois era noite, a lamparina de querosene, que foi posta em cima do parapeito. E as mariposas, imediatamente, começaram a rodar em torno da luz. Aquilo foi um gozo para o sapão Croquibilu, pois era só estender a língua e papear as bicihinhas. No entanto, alguém o viu ali e gritou: “Que horror, um sapão!”, pois a Mãe tinha muito medo dos sapos. Mas o Pai também veio vindo, viu Croquibilu no seu sossego, e recomendou: “Deixem o sapo em paz!” E assim se fez.

Logo que amanhecia, mal o sol despontava no horizonte, o Pai pegava a vassoura, e ia empurrando o sapão: “Vamos, amigo!”, e Croquibilu saltava uns palmos adiante – póf! Chegavam ambos até a escada, e desciam-na do mesmo jeito até alcançar, varando a porteirinha, o pasto, onde o sapão ficava, ou ia para os brejos, não longe. Ao entardecer, porém, Croquibilu retornava, galgava os degraus da escada, e ia para o seu canto habitual, a papejar as mariposas.

Longo tempo este ritual se repetiu, e Croquibilu já era um membro estimado da família.

 

 Vô Asdrúbal

Muitos anos depois, a trineta do Coronel Asdrúbal desde cedo se mostrou maravilhada pelos sapos, um dos seus bichos prediletos.

Quem sabe um deles se transforme no seu príncipe encantado? Aí eles poderão dormir e sonhar juntos.

 

Manu Sapinha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O queijo

 

           Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

De Gaulle dizia que era impossível governar um país como a França, que tem mais cinqüenta tipos de queijo. Creio que o general pretendia que, tanto como os queijos, havia na França tipos diferentes de pessoas: o rico, o pobre, o operário, o vagabundo, o doutor, o ignorante, o revolucionário, etc., o que tornava difícil contentar a uns e outros.

No Brasil, além dos queijos de origem francesa, italiana ou portuguesa, temos o queijo mineiro, entre os quais o da Serra da Canastra. O queijo mineiro, curado, de meia cura, ou fresco, é adequado para aqueles que, como os mineiros, estão sempre com um pé atrás. O mineiro não ata nem desata, mas faz colher de pau e borda o cabo.

Quando há revolução, o mineiro fica no meio, aguardando qual a tropa que mais avança. Se percebe que é a do lado direito, adere a ela; se do lado esquerdo, opta por este lado.

A história das conjuras e de Tiradentes, enforcado e esquartejado, ensinou-lhe que mais vale um boi para não entrar na briga. O que ele não quer é que lhe levem a boiada toda. 

O mineiro não fala, cochicha. Está sempre com um pé atrás e, quando sentado, ora se apóia num pé, ora noutro. Enquanto isso, pica fumo para o cigarro de palha. 

A diversidade de tipos regionais, entre nós é muito grande, desde o baiano parlapatão, ao pernambucano de faca em punho, o gaúcho das tropelias pelos pampas, ao carioca boa vida, e ao paulista para quem tempo é dinheiro e está sempre apressado. 

Acrescente-se que esta gente toda está misturada com portugueses, espanhóis, italianos, árabes, japoneses, alemães, além dos índios que aqui já estavam. 

Andando pelas ruas, vê-se uma variedade assombrosa de mulheres: as magras, as gordas, as morenas, as loiras, as ruivas, as mulatas, as negras, as baixinhas, as de mais um metro e noventa de altura, boas para trocarem as lâmpadas queimadas na minha casa.

Muito mais do que a França, com os seus mais de cinquenta tipos de queijo, o Brasil é uma nação ingovernável.

 

 

“Sou do mundo, sou Minas Gerais”

 

ouro preto

“Para Lennon e McCartney” (Lô Borges / Márcio Borges / Fernando Brant), com Elis Regina

 

 

 

Da arte de pentear os cabelos

 

              Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Em primeiro lugar, para pentear os cabelos é preciso ter cabelos, salvo se você for calvo como um ovo; então, você pode pentear a sua cabeleira postiça. Pode-se pentear com os dedos, com um pente ou com a escova. Se você for rico, prefira um pente de marfim. Se for remediado, ou pobre, um pente de qualquer massa de plástico serve. Ah, há também o pente fino, geralmente preto, para pentear os cabelos de quem está com piolhos neles ou na cabeça. As mulheres de antigamente eram muito prevenidas porque, depois de penteadas, feito um coque atrás, deixavam nele, fincado, um pente.

Não é usual pentear os cabelos dos sovacos, porque o costume é depilar os sovacos, e sovacos sem pelos como é que poderiam ser penteados?

Não sei se também se penteiam os pentelhos, mas acho que sim. O difícil é pentear os petelhos, porque eles são sempre sujeitos desgrenhados.

É claro que também se pode pentear a barba. Convém, não obstante, penteá-la depois de a botar de molho. Os que usam apenas um bigodinho, como eu, devem penteá-lo com um pentinho; já os sujeitos com bigodões, com um pente de bom tamanho.

Penteia-se melhor mirando-se no espelho. Então, o cara pode repartir os cabelos bem no meio da cabeça, ou num dos lados, numa risca certa. Sem espelho, todavia, o sujeito ou a sujeita conseguem pentear-se. E há as mulheres que trazem, na bolsa, um espelhinho, para isso. Aqui em Ribeirão Preto, onde há muitas poças dágua nas ruas, que são viveiros de pernilongos, consegue-se pentear abaixando-se e olhando a sua imagem refletida numa poça.

Quando o ônibus estaciona num ponto da estrada, isto é, diante de um grande restaurante, os passageiros saem depressa dele, e correm para o que chama de toalete, e ali, depois de verter água e aliviar-se, podem lavar as mãos e pentear-se diante dos espelhos na parede. E é claro, as mulheres também. O que não aconselho é o motorista, dirigindo o carro, ao mesmo tempo pentear-se, olhando para o espelho retrovisor do veículo. Mas há quem o faça, e esbarronda o carro na traseira de um caminhão. Neste caso, vai em seguida pentear-se no quinto dos infernos, ou no céu.

Para pentear-se, depois de lavada a cabeça, enxugados e secados os cabelos, convém usar um fixador qualquer, brilhantina, gumex, glostora, laquê, ou coisa semelhante. Goma arábica não é indicada.

Atualmente, as moças não se penteiam. Ao contrário, metem os dedos na cabeleira e a afofam, de tal modo que se tornam ninhos de guaxo.

O que também se usava antes, para manter os cabelos no lugar, era uma redinha. E as mulheres usavam papelotes, e agora bóbis. Uma mulher de papelotes ou de bóbis, fica parecendo um extra-terrestre. E talvez seja.

Havia cabeleiras de mulheres (e ainda há, creio) que caiam até os pés. Não era fácil para elas pentearem tais cabeleiras. Elas chamavam as mucamas, que então as penteavam muito bem, e ainda lhes faziam cafuné. Uma delícia.

Eu não sou mulher, mas tenho a minha mucama. Chamo-a:

— Josefa, vem pentear os meus cabelos e fazer-me cafuné.

Ela vem.

Lamento se você não tem uma mucama. Trate de arranjar uma.

E vá penteando-se, até que não lhe reste nem um fio de cabelo.

 

 Millôr

Ontem hoje e amanhã

O homem o cabelo parte

Parte o cabelo com arte

Até que o cabelo parte.

(Millôr Fernandes)

 

 

 

As ovelhas tosquiadas

 

           Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Há sempre dois lados (quando não há quatro, cinco, ou mais), e quem tirar conclusões ou fizer julgamentos vendo apenas um lado, pode incorrer em erro grosseiro e ser temerário.

Um objeto deve ser olhado de baixo para cima, de cima para baixo e examinado de todos os seus lados. Devemos aproximar-nos dele, afastarmos, sopesá-lo, cheirá-lo, apalpá-lo, para ter uma noção aproximada do que verdadeiramente é. E, ainda assim, erramos muito.

Vale, para o caso, aquela anedota de dois ingleses que viajavam no vagão de um trem, sentados um diante do outro. Olhavam ambos, através da janela, a paisagem, o campo, lá fora. E um deles disse ao outro, vendo um rebanho de ovelhas: “Aquelas ovelhas foram tosquiadas”. Ao que o outro retrucou: “Pelo menos do lado de cá”.

O bom sendo indicaria que as ovelhas haviam sido tosquiadas inteiramente. Mas, quem sabe? Para os passageiros não havia prova absoluta de que elas tivessem sido tosquiadas dos dois lados do corpo.

Quando não podemos ter certeza, o melhor suspender o julgamento.

O fato é que somos chamados a tomar decisões, a cada momento. E decidimos pelo que já vimos antes, pela experiência, pelo que nos parece mais certo ou justo. Manter-se isento, imparcial, sufocar a piedade, a emoção, diante disso ou daquilo, é muito difícil.

Fala-se em objetividade, em ser objetivo. E é quase impossível ser objetivo. Os nossos valores não são iguais. Apela-se então para as máquinas, para o diagnóstico feito pelas máquinas. Mas atrás da máquina está o homem que a manobra e que interpreta o que resulta dela.

Talvez seja melhor aceitar as inclinações do nosso coração. Já dizia Pascal: “Le coeur a des raisons que la raison ne connaît pas”.

Afinal, todos os homens, os que julgam e os que são julgados, serão um dia também julgados.

E o mais difícil é julgar-se a si mesmo.

 

 maioria-ovelina

 A Maioria: foto de René Maltête (1960)

 

 

Da arte de sair do buraco

 

                    Annibal Augusto Gama

 Annibal

 

 

 

 

 

Para sair do buraco é preciso antes estar dentro do buraco, o que é muito singular, porque buraco não tem dentro. Como os senhores sabem, o buraco é uma coisa da qual se tirou tudo o que havia nele, e se se tirou tudo o que havia nele, o buraco não existe, é um vazio. Apesar disso, grande maioria das pessoas entre nós estão dentro do buraco, e cada vez mais se afundam. Tais pessoas querem sair do buraco, mas não sabem como. Só sabem gritar “socorro!” “me acudam! Se são poliglotas, também berram “au secours! au secours!”, ou “help! help!”. A tais pessoas aconselho desde logo que decidam: querem socorro ou que as acuda? Além disso, como o Brasil é um enorme buraco, estamos todos dentro dele (se é que há dentro no buraco), e sair para onde?

De qualquer maneira, vamos supor que efetivamente o buraco existe, o que é uma contradição em termos, ou um oximoro. E se você não sabe o que é um oximoro procure no dicionário, porque não se deve cair no buraco sem levar antes um dicionário, o Aurélio, por exemplo. Com o dicionário, você pode passar a vida toda no buraco, confortavelmente, aprendendo as palavras. E quando acabarem todas, de “a” a “z”, você estará pronto para sair do buraco e fazer palavras cruzadas.

As pessoas são quase sempre desprevenidas, por isso não caem no buraco levando consigo uma corda, uma escada, uma enxada ou uma picareta. Se levassem, seria fácil sair do buraco subindo pela corda amarrada… amarrada onde? Isto eu não sei, afinal eu não sei tudo. O melhor é a escada, embora, se o buraco for profundo, e a escada pequena, não adiante nada. Leve, portanto consigo uma escada gigante, destas dos bombeiros. A enxada ou a picareta também servem para cavar buracos no buraco (o que é outra contradição), de modo tal que o sujeito pode enfiar os pés e as mãos nesses buracos e ir subindo. Além disso, a enxada ou a picareta servem também para você cavar cada vez mais o buraco, aprofundando-o, até varar do outro lado, no Japão. Aí, você estará salvo, porque o Japão é muito melhor do que aqui, a sua economia é próspera, o país é seguro, e lá, quando um homem público é acusado de ser ladrão suicida-se, o que não acontece com os nossos deputados, senadores e governadores.

Há ainda aqueles que caem sozinhos no buraco, e outros que levam consigo a mulher e a sogra. Se você levar sua mulher e sua sogra e cair com elas no buraco, por que sair dele? Fora do buraco, você já estava no buraco, com elas. Neste caso, permaneça tranquilo no buraco, relaxe e goze, como sugere a Marta Suplício.

Veja os defuntos: eles estão no buraco e não se queixam. Aprenda com eles.

Nosso país tem a vocação do buraco. Os Prefeitos mandam abrir buracos por toda parte e insistem durante anos e anos que eles permaneçam como estão, até que venham outros Prefeitos e mandem afundar ainda mais os buracos. Nossas estradas são um buraco só. Não obstante, continuamos rodando por aí, não se sabe para onde, isto é, para outro buraco. E quando se cava um buraco para fazer a estação de um metrô, previamente estacionam dentro dele dez ou quinze pessoas, que lá ficam para sempre. De tal sorte que a bandeira nacional não devia trazer uma bola em campo verde, mas um tatu, que é o nosso verdadeiro símbolo e vive sossegadamente dentro do buraco.

Portando, meu amigo, ainda que eu lhe tenha fornecido alguns rudimentos da arte de sair do buraco, aprenda outro: rebole-se dentro do buraco.

 

buraco (Alice) 3 

 

 

Resíduos

 

 

 

(…) Pois de tudo fica um pouco.

 Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

 De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

 nas folhas, mudas, que sobem.

 

Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana, dragão partido, flor branca,

 ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.

 

(…) E de tudo fica um pouco.

 Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.

 

(Resíduo)

 

drummond assinatura

 

 

 

(…) Quem te esperou do outro lado?

Tua filha, ou o anjo torto

que te acompanhou de esguelha

e te deixou na contramão?

Pai morto, mãe morta, irmão

morto, e as namoradas todas

te acenando o mesmo adeus.

Mas se a vida é impraticável,

construíste um elefante

de papel e de ternura

que no dorso te levou

para a fazenda do ar.

 

(…) Cansado de ser moderno

agora és eterno

e apenas contemporâneo

de ti mesmo. Nem teu corpo

veste mais o paletó,

a gravata. Os teus óculos

devassam a bruma, a broma

da Máquina do Mundo,

que virou um claro-enigma.

 

(Resíduo,“Dez anos da morte de Drummond”, in “Herança Jacente”) 

Annibal assinatura 2

 

 

 

 

Da arte de dar com uma mão e tirar com a outra

 

        Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Esta arte não é equivalente à “Lei de Gérson”, que gostava de tirar vantagem em tudo. Felizmente, porém, Gérson só tirava vantagem das equipes estrangeiras de futebol que jogavam contra o Brasil.

A arte de dar com uma mão e tirar com a outra, não é dar mamão com uma mão e tirar mamão com a outra mão. Mas algumas vezes pode ser que sim. Você dá um mamão com uma mão e tira um mamão com a outra. Nestes casos, convém tirar o mamão maior. Próxima desta arte é a outra de uma mão lava a outra, e as duas lavam a cara.

Dar com uma mão e tirar com a outra é o que fazem quase sempre todas as pessoas, mas algumas fazem mais do que as outras, e poucas não dão nem com uma mão nem com as duas, mas tiram com ambas, e tirariam com uma terceira, se tivessem uma terceira mão. É uma espécie de troca. Para dar com uma mão e tirar com a outra, você precisa ser lento com uma mão e rápido com a outra. Só assim o sujeito que recebe de uma mão não percebe que se está lhe tirando com a outra. Quando ele se dá conta disso, você já deve estar longe, abanando-lhe a mão.

Se você for canhoto, convém dar com a mão direita e tirar com a esquerda, porque evidentemente a mão esquerda é mais esperta e ligeira do que a direita. E vice-versa, se você for destro. Se então for ambidestro, pode deitar e rolar.

Também é costume dar com os pés, e tirar com as mãos ambas. De qualquer maneira, não dê o braço a torcer, nem a mão à palmatória.

Há comerciantes que são muito hábeis em dar com uma mão e tirar com as duas. Para isso, eles falam em custo e benefício, e esses trecos de engabelar os trouxas. Quando vão vender uma mercadoria nunca dizem que a tal mercadoria custa quinhentos reais, mas sim quatrocentos e noventa e nove reais. Se for à prestação, eles espicham a prestação em sessenta vezes, e você paga cinco ou dez vezes mais o valor da coisa, que em geral não tem valor nenhum. Porque os juros estão embutidos. Os banqueiros então não dão nem com uma mão nem com a outra. Ao contrário, tiram com as quatro, porque os banqueiros têm quatro mãos, são quadrúmanos.

Quando se usava balança, a arte era botar os dedos, ou a mão, disfarçadamente, num dos pratos da balança, para o freguês ver que a mercadoria pesava mais do que os pesos no outro prato. Eram as balanças “Fiel”, fiel para o negociante. Por isso também se fala em “dois pesos e duas medidas”. A Justiça também pesa na balança, mas pesa menos para os ricos do que para os pobres. E se os pobres reclamam, ela está com a espada na mão para cortar qualquer reclamação.

Os manetas têm muita dificuldade em dar com uma mão e tirar com a outra. Mas podem valer-se das mãos ou dos braços ortopédicos. Ou de um gancho, como o Capitão Gancho.

Dando com uma mão e tirando com a outra, pelo menos você empata. Porém, se for hábil em dar com uma mão e tirar com a outra, usando de todos os recursos desta arte que lhe estou ensinando, ganha sempre. Empatar não é bom negócio.

Não ande com uma mão atrás e outra adiante. Ande com as mãos à frente para poder dar com uma e tirar com a outra, ou com ambas. Andar então com as duas mãos para trás é péssimo. Você fica indefeso, e tudo lhe é tirado.

É dando que se recebe, dizem alguns. Recebe o quê, depois de dar? Geralmente, você recebe um coice. Daí porque os motoristas costumam dizer: “Ou dá ou desce”.

Você pode dar uma volta, que é de graça. Mas se você der uma volta e voltar fica no mesmo lugar, e não vai em frente. Trate de dar com uma mão e tirar com a outra. E não tire a mão daí. Elas gritam, as mulheres nas quais você bota uma mão, ou as duas, mas acabam deixando.

E já que lhe ensinei essas regras de dar com uma mão e tirar com a outra, vou comer o meu mamão. Coma você também o mamão que tirou com uma mão para dar em troca um limão azedo.

 

dar com uma mão

 

 

Horário de Verão

 

           Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Embora todos houvessem adiantado uma hora nos relógios, ele manteve no seu o horário de sempre, isto é, passou a ter uma hora a menos do que os demais.

Por isso, chegava sempre atrasado aos encontros e compromissos, sua vida passou a ser um desencontro permanente. Mas já era, antes.

Ao enterro do amigo, chegou quando o defunto já havia sido enterrado. Limitou-se a olhar para a cova e dizer “por que esta pressa?”

O Verão tem três meses, como as demais estações, e suprimiam-lhe uma hora, avançando para o Outono. Explicavam-lhe que aquilo representava uma economia de energia elétrica, e ele retrucava: “Economia foi no dia 20 de outubro, em que desligaram a energia do meu bairro durante mais de seis horas”.

Era um homem de princípios e não admitia que através dessas manobras indecorosas alterassem o calendário gregoriano.

Continuou a fazer as suas refeições no horário habitual, ainda que isso provocasse discussões com a cozinheira. “Na minha casa e na minha vida mando eu!”

Os outros, porém, obedeciam as ordens que vinham do governo, ou seja lá do que fosse.

A uma audiência em que devia comparecer em juízo à uma hora da tarde, chegou ao meio dia e, como não visse ninguém, deu uma banana a todos que ali não estavam e foi embora. O resultado é que foi marcada nova audiência para que ele comparecesse debaixo de vara, como se diz, para sua indignação.

E como faleceu às quatro horas da tarde, em seu relógio, exigiu, do outro lado, que lhe restituíssem mais uma hora. Restituíram-lhe e, por milagre, foi socorrido a tempo, sobreviveu ao ataque cardíaco que tivera, e continua vivendo, com a hora certa, isto é, atrasada de uma hora no relógio.

Quando, afinal, passou a hora do Verão e todos atrasaram uma hora em seus respectivos relógios, ele ainda disse: “Gente mais besta. Comigo não mexem”.

 

 horario-de-verao 2