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Modus vivendi

 

passado, presente, futuro

 

                              Sejamos, imperativo afirmativo

                              cujo presente é indicativo do que fomos

                              (e não do que somos).

 

                              Soemos viver no futuro do pretérito,

                              a crer que só o pretérito fora perfeito

                              (ou mais que perfeito),

 

                              mesmo se imperfeito fosse.

                              Viver é infinitivo pessoal,

                              que se finda no particípio que passou.

 

 

 

Grafia

 

Brenno Augusto Spinelli Martins

Brenno e o violão

 

 

 

 

 

 

 

                                                

                                                       GRAFIA

 

                                       Tolisse, o que você dice…

                                       mas melhor ter dizido falando

                                       do que se tivece escrivido.

 

                                       As palavras

                                       não escritas

                                       não machucam o papel.

 

                                       As estrelas

                                       que não brilham

                                       não aparecem no céu.

 

                                       O que fere

                                       o ouvido

                                       não alcança o coração.

 

                                       O que fenece

                                       no olvido

                                       não carece explicação.

 

grafia

 

 

               

      Claudia Pereira

Claudia 2

 

 

 

 

 

 

                                    Sentido!

 

            Como gostaria de livrar-me das palavras.

            Vírgulas, pontos, a letra A

            a B também.

            Todas elas!

            Este exército organizado e incansável.

            Daria um soco no queixo

            uma a uma,

            formando um monte desconexo a minha frente.

            Nocaute!

            Livre destes ecos

            do eco dos ecos

            do penso, não penso,

            da tinta e papel.

            Mas quando vejo,

            lá estão os dois;

            pensamenntos e letras a postos.

            As palavras

            num sinal,

            hup hup hup

            marcham…

            Ser poeta

            é ser soldado das letras.

            (só falta entrar para a Academia).

            Nada disso…

            Ser poeta

            é desmilitarizar as palavras.

 

            Como ocê Brenno

            qui num liga pros ais

            só faiz,

            bem dimais!

 

                       

Entrevista com Pedro Tamen

 

     Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto 2 (2)

 

 

 

 

 

 

Estando em Lisboa em janeiro de 1976, veio-me à cabeça entrevistar poetas portugueses, dentre outros procurei por Pedro Tamen, que foi presidente da Fundação Calouste Gulbenkian de 1975 a 2000.  Fui até esta instituição e solicitei uma audiência que me foi concedida com muita cordialidade. Disse, então, que o considerava um dos grandes poetas portugueses e gostaria de falar com ele. Fiz-lhe estas perguntas às quais ele me respondeu com grande gentileza. Conhecia alguns poemas que ele tinha publicado na Revista Colóquio que muito me agradaram. Sabia também que sua estreia literária foi com o livro Poema para todos os dias em 1956. Voltando ao Brasil publiquei esse texto que ora está apresentado em Estrela Binária e lhe enviei a Revista Geratriz na qual foi publicado. Continuei esporadicamente correspondendo-me com ele, enviando-lhe livros e algumas publicações. Ele sempre me respondeu com a máxima gentileza. Depois fiquei sabendo que ele publicara vários outros livros de poesia e traduções para o português de Gabriel Garcia Marquez, Marcel Proust e Gustave Flaubert. Sua obra continuou crescendo. Ele recebeu várias honrarias em Portugal como o Prêmio Literário Inês de Castro e o Prêmio de Poesia Luís Miguel Nava. Hoje, ele é um nome de grande importância no mundo literário português. Vi-o pela última vez fazendo leituras de poemas no Salon du Livre em Paris em 1998,em que homenageavam o Brasil.

 

 

Entrevista com Pedro Tamen, poeta português

 

 Por Adalberto de Oliveira Souza

 

                                         Pedro Tamen

Pedro Tamen (Foto APF) 

 

 

 

 

 

 

 

                                       

 

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Não há montanhas se não há palavras.

Não foge a bala se não há um espaço.

Não sobe o céu se não houver distâncias.

Não cabe o túnel se nunca estão paredes.

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Geratriz: Pedro Tamen, qual a função da poesia?

P. Tamen: A função da poesia é tornar o mundo habitável para os poetas. Respondo como poeta, naturalmente não como leitor. E respondo, por isso, como se perguntasse pela função da respiração, ou porque respiro eu. Escrevo porque necessito de escrever, porque isso é um termo da dinâmica própria da minha vida. Só depois do poema feito lhe posso atribuir finalidades – que alguém consinta comigo e com os avatares do mundo. Mas esse é um processo a posteriori , que nada tem a ver com a causa da eficiência do acto poético.

Geratriz:  O sr. Está satisfeito com o seu papel dentro da literatura portuguesa?

P. Tamen: Não sei bem qual é o meu papel; nem; por isso; se posso estar ou não satisfeito com ele. Sei que tenho o meu caminho próprio, enquadrado numa rede de múltiplas afinidades com outros caminhos que, de uma forma altamente grosseira, poderão formar uma corrente. Corrente que, a sê-lo, se definiria por uma comum exploração das possibilidades (semânticas, sintáticas e outras) da língua, no próprio acto do seu afeiçoamento á linguagem poética.

 

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Escrevo estes versos de grãos de terra na mão; eis a prova.

Tenho a certeza dos passos. Todos temos. Só nos mais diferimos.

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Geratriz: Em Portugal, haja vista a existência de uma maior tradição literária, é possível para os grandes escritores  viver de literatura?

P.Tamen: De um modo geral, não. Não creio sequer que haja um só escritor português que viva exclusivamente da criação literária, embora haja casos poucos de escritores que vivem predominantemente da literatura. Aqui não é a tradição literária que conta, mas o consumo de literatura, que não será maior em Portugal do que no Brasil.

Geratriz: Dentro de um processo histórico, as nossas literaturas, brasileira e portuguesa, foram se desvinculando uma da outra. Não caminharemos para uma desvinculação total.Uma perda de identificação de uma para outra?

P.Tamen: Só na medida em que as vidas dos povos se desvincularem, se desvincularão as literaturas por intermédio da língua. Explico melhor. Brasil e Portugal são povos diferentes, com tradições cultural de raiz comum, mas agora mergulhadas em conjunturas de metas bem diversas. O que lhes  une as literaturas é a língua comum, factor poderosíssimo que comanda a literatura desde dentro, e que desempenha um papel aglutinador que contraria os factores de desagregação da geografia e da vida colectiva. Essa língua será tanto menos comum quanto menos o for a mundividência dos dois povos. E da separação das línguas virá o inevitável afastamento das literaturas.

Geratriz: Através de sua poesia o sr. pretende transformar a sociedade ou apenas e ser o reflexo desta mesma sociedade?

P.Tamen: Eu não pretendo nada mais do que ser eu próprio e vivo, em cima da terra e do papel em branco. E esse eu próprio, que não é nem quer ser ilha, é necessariamente reflexo da sociedade em que é, em que está e em que gostaria de estar Sou o que penso e escrevo o que sou.

 

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Entre cacto e gato há um vaso de versos,

No branco das palavras nasce a lua.

No mais, é mais barulho que varejo

A perna assim, um braço assado ao fogo

Porque eu é que te vejo, que te creio, que te mato, que te morro.

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Assentar bem o papel e interpô-lo entre nós e nós

Sobre o que era largo e fresco e era ontem.

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Geratriz: Qual a relação entre a poesia e a política? (num âmbito geral e particularmente em Portugal)

P.Tamen: O acto poético é um acto político de dois pontos de vista. Enquanto acto repetido e atribuível a um grupo de indivíduos (os poetas, grupo localizável ,na sociedade segundo um dado critério) e enquanto acto público, ou publicado, que se insere no contexto social e nele vai de qualquer modo actuar.O poeta, esse é por definição, e em si mesmo, um fenômeno político, porque é um homem, e que tende, de forma eminente, para a expressão do Homem. Assim, é actuado e actuante, como qualquer homem, mas muito acentuadamente, porque, passivo, é particularmente transparente e, activo, possui meios e armas que se não esgotam no efêmero, Em Portugal viveu-se (vive-se? ) uma Revolução que naturalmente tocou os poetas ao tocar os portugueses. Mas não é de esperar, já, no plano da grande Poesia, resultados imediatos desse impacto, sabendo-se que é de uma lenta e misteriosa sedimentação que o poema surge no mesmo passo em que o homem se transforma.

Geratriz: É destino da Poesia ser um gênero literário nobre. Ou é característica de nossos tempos ser a poesia lida por uma elite intelectualizada?

P.Tamen: Esse é um terreno difícil eriçado de equívocos. Por mim, postulo que não é a poesia que tem de tornar-se “popular”, mas o povo que tem de tornar-se “leitor”. Donde resultam várias consequências, de que apenas salientarei duas:

a) É inerente à arte em geral certo aristocratismo na medida em que esta não é apenas facto de cultura,  mas de sensibilidade a qual, embora se eduque, não pode criar-se do nada e, portanto, generalizar-se.

b) Como a Poesia é, afinal, o próprio poeta, o seu acesso estará tanto mais facilitado a largas camadas quanto o poeta mais intensamente viver integrado nelas e com elas solidário.

Geratriz: Com a reflexão metalinguística, o poeta não corre o risco de afastar-se dos problemas sociais?

P.Tamen: Há caminhos diversos, muitas moradas para os poetas. Os que se dedicam com intensidade à “reflexão metalinguísticas correm efectivamente o risco que aponta, mas não estão sujeitos a qualquer fatalidade desse gênero. Mas, mesmo que se afastem dos problemas sociais, a sua pesquisa predominante nos domínios da linguagem irá fertilizar o terreno onde os outros, os “próximos”, irão, no futuro colher novas armas.

Geratriz: De que maneira o sr. vê o surto literário da América do Sul,nos últimos tempos?

P.Tamen: Depois de um Borges ou de um Guimarães Rosa, conheço mal o surto literário sul-americano. Mas o que conheço chega para admirar muito profundamente a convergência exemplar de um Antônio Callado, um Suassuna, um Cortázar, um Garcia Marquez, etc. Como elemento comum parece-me surpreender uma integração da cultura popular no próprio cerne da literatura e da linguagem, e não a sua exibição como elemento exterior e folclórico.

Geratriz: Em que medida, os últimos acontecimentos políticos portugueses colaboraram para um maior desenvolvimento cultural e artístico?

P.Tamen: Portugal recuperou a liberdade e, com ela, a abolição da censura. Este é um primeiro grau de dignidade para um povo e uma primeira condição de criação. Segunda fase, só muito imperfeita ou fragmentariamente conseguida, é a possibilitação da palavra ao povo, que ele próprio possa dizer quem é aos ouvidos dos intelectuais e dos artistas.

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Noé

 

 

                                                                 NOÉ

 

                                                                                                                                      Pedro Tamen

 

                                    Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão

                                    mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,

                                    gasto o martelo. E o pior também:

                                    correr o mundo a recolher os bichos,

                                    coisas de nada como formigas magras,

                                     os outros, os grandes, os que mordem

                                    e rugem. E sei lá quantos são!

                                    Em que assados me pões. Tu

                                    gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.

                                    Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,

                                    a escolher os melhores, os de melhor saúde,

                                    que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.

                                    Um por um, e por uma, é claro, é aos pares

                                    ― o espaço que isso ocupa.

 

                                    Mas não é ser carpinteiro,

                                    não é ser caminheiro,

                                    não é ser marinheiro o que mais me inquieta.

                                    Nem é poder esquecer

                                    a pulga, o ornitorrinco.

                                    O que mais me inquieta, Senhor,

                                    é não ter a certeza,

                                    ou mais ter a certeza de não valer a pena,

                                    é partir já vencido para outro mundo igual.

 

                                    (“Analogia e Dedos”, 2006)

 

arca de noé

 

 

Liquidificador

 

 

 

                                                Pegue tudo o que eu lhe disse

                                                misture bem

                                                com tudo o que você me disse.

 

                                                Pique.

                                                Repique.

                                                Triplique.

 

                                                Retire os caroços

                                                (nossos).

 

                                                Leve ao liquidificador

                                                (gelo e pimenta a gosto).

 

                                                Triture.

                                                Liquidifique

                                                (a dor).

                                                Liquide

                                                (e fique).

                                        

liquidificador 

 

 

O su su su do sax

 

Brenno Augusto Spinelli Martins

Brenno e o violão

 

 

 

                                   SAXOFONE AO CAIR DA TARDE

 

                                                                                                  Brenno Augusto Spinelli Martins

 

                                   A tarde cai

                                   como um desmaio…

                                   Ao fundo um som de sax.

 

                                   E a lua vai,

                                   por entre os galhos,

                                   mostrando a sua face.

 

                                   Num brilho breve,

                                   quase invisível,

                                   o espocar de um flash.

 

                                   Num sopro leve,

                                   quase inaudível,

                                   o su su su do sax.

 

 

 

Mandei e-mail pra você (via YouTube), contendo um poema (Saxofone ao cair da tarde), acompanhado de um vídeo como sugestão para a ilustração musical do mesmo.

Trata-se da canção do Ary Barroso “Pra machucar meu coração”, com o João Gilberto e o Tom, e o sax tenor do Stan Getz num improviso genial, que retrata a idéia do poema.

Tenho essa gravação em outras edições (LPs e CDs), mas me despertou a lembrança a reedição dela no sexto volume da coleção do Tom, da Folha, que você também está colecionando, com certeza.

O vídeo do YouTube é meio abafado, mas ouça num aparelho bom, bem equalizado e curta os sopros chiados nos tons baixos do sax do Stan Getz, fazendo su su su…

Nas outras faixas do disco também tem su su su, mas nessa faixa é exemplar.

 

 

stan getz e joao gilberto

  

 Para Machucar Meu Coração – Getz Gilberto

 ”Para machucar meu coração” (Ary Barroso), com João Gilberto e o su su su do sax de Stan Getz

 

 

A árvore siamesa

 

      Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto 2 (2)

 

 

 

 

 

 

 

                                                                       A ÁRVORE SIAMESA

 

                                                           O amor começa pelo pé.

                                                           Pela raiz,

                                                           segura-se o vento

                                                           e abana-se

                                                           o tempo que paralisa

                                                           a perna

                                                           da cadeira a esfinge

                                                           mostra a direção,

                                                           a paraplégica roda

                                                           indica o fundo,

                                                           a cisterna,

                                                           onde a árvore submerge.

 

                                                           E sobe.

 

 

                        L’ARBRE SIAMOIS

 

L’amour commence par le pied,

                        par la racine

                        on rattache le vent

                        et on évente

                        le temps qui paralise

                        la jambe,

                        de sa chaise le sphinx

                        montre la direction,

                        la roue paraplégique

                        montre le fond,

                        la citerne,

                        ou l’arbre submerge.

 

                        Et monte.

 

árvores siamesas 3 (2)

 

 

 

Camaleão

 

 

Camaleão 1

(Ilustração de Annibal Augusto Gama)

 

 

                                                CAMALEÃO

                                                                       (ou fim de tarde no Pinguim)

 

 

                                               Às vezes

                                               quero ser gordo e barrigudo,

                                               sossegado,

                                               mas de humor agudo,

                                               amigo de todos

                                               e de tudo.

 

                                               Outras vezes

                                               penso em ser franzino,

                                               frágil,

                                               pequenino,

                                               mas sem temor algum

                                               como Gandhi

                                               saído de um jejum.

 

                                               Noutra hora

                                               já muda minha meta,

                                               sonho ser robusto,

                                               decatleta,

                                               que em ação pelas pistas

                                               até prega susto

                                               com proezas nunca vistas.

 

                                               A cada instante

                                               sou um outro

                                               astronauta, cantor de bolero,

                                               poliglota, rei,

                                               somente não quero

                                               o que fui, o que sou

                                               e o que serei.

                                               

 

 

Acordo

 

Brenno Augusto Spinelli Martins

Brenno e o violão

 

 

 

 

 

 

 

                                       ACORDO

 

                              Não me olhe

                              Com esse olhar de cobre.

                              Não me cobre

                              Me cobre

                              Estou com frio

                              Vazio

                              Vadio

                              Amargo

                              Amanhã te pago

                              Te juro

                              Com juro

                              Amanhã me acorde

                              A manhã me acorda

                              ― D’accord?

 homem dormindo

 

 

 

Poema velado

 

      Selma Barcellos

Selma 2 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                      De tangerina

                                                                      Canela

                                                                      Açafrão

                                                                      ― e crepúsculo ―

                                                                      Perfuma-se.

                                                                      De brilhos

                                                                      Miçangas

                                                                      Contas

                                                                      ― e algemas ―

                                                                      Adorna-se.

                                                                      Sob o véu

                                                                      No chão

                                                                      ― que lhe impuseram ―

                                                                      A mulher

                                                                      Não se sabe.

                                                                      Aquiesce e ora.

                                                                      Deseja. E cora.