
Queria assim
um ano à esmo
sabático
em que todo dia
é sábado
e véspera de si mesmo.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=qfkz6eD8mn4]

Queria assim
um ano à esmo
sabático
em que todo dia
é sábado
e véspera de si mesmo.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=qfkz6eD8mn4]
Se for possível, manda-me dizer:
— É lua cheia. A casa está vazia —
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
— É lua nova —
E revestida de luz te volto a ver.
Hilda Hilst
(Júbilo Memória Noviciado da Paixão, 1974)
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=lCP4VFGm9aw]
Marisa Monte canta “Gotas de luar”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
Entre o feto e o defunto
a ávida amante
se intromete
a te exigir e subtrair
cada instante.
Por conta de tanta
graça
pede um diamante
sem jaça
a viagem mais distante
o verso perfeito
as benesses do prefeito
(e sempre reclama um defeito).
Arrasta-te pelo caminho
e nunca te deixa
sozinho
só para ver
o sol se pôr
ouvir estrelas
flertar com a lua
sentir o cheiro da chuva
conversar com teus botões.
Quando exausto adormeces
invade teu sonho
ou pesadelo
rola na cama contigo
e te sacode
aflita
mal a manhã se
agita.
Estes são teus pais
teus irmãos
teus filhos
teus amigos
inimigos
teu ofício
teu vício
resoluta te aponta
(e depois te traz a conta).
Na hora derradeira
da partida
vai te deixar
enfim
e seguirá faceira
esquecida do que havia
sem sequer se importar
se foi algum dia
querida.
Quando entra pé ante pé
a poesia não tem chave
que abre a porta
não tem boca
nem tem voz
que fala a nós
não tem nariz de cera
para nos aprazer ou entreter.
Na calada da noite
a poesia é toda ouvidos
para reverberar a nossa voz
se nada temos para nos dizer (a sós)
todos ouvidos são poucos
todos olvidos são moucos.
Ao ver a brincadeira acima, que anda circulando pela internet, lembrei-me desse poeminha que escrevinhei há algum tempo, quando dava aula de Filosofia na Faculdade de Direito, durante uma prova em que as questões tratavam dos assuntos e autores referidos, para desespero de diversos alunos.
O título, é claro, reporta-se ao memorável “Samba do crioulo doido” do genial Sérgio Porto.
Kant?
Não fui avante…
Nietzsche com seu Zaratustra
até me assusta…
Foucault?
Me sufocou…
Racionalismo
Empirismo
Jusnaturalismo
Positivismo
tanto antagonismo
me faz sentir
à beira de um abismo
e dessa agonia
não me livra
a vã Filosofia.
Direito e Moral?
É tudo igual…
Só conheço
o que esqueço!
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=3SfYMxPNVTE]
ALGUNS TÊM VOZ DE TROVÃO
E SEMPRE FALAM EM MAÍSCULAS.
eu, pouco e rouco,
escrevo apenas em minúsculas.
(ao cabo do dia, todavia,
todas as penas de viver
repetem uma letra só.)
Versión porteña
ALGUNOS TIENEM VOZ DE TROMPETA
Y SIEMPRE HABLAM EM MAYÚSCULAS.
yo, otro y poco,
escribo apenas en minúsculas.
(ao cabo de lo día, todavía,
todas las penas de vivir
repiten una letra sola.)