Que importa a casa
de telha-vã
se porta adentro
a vida afora
não for em vão?
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“Pois os deuses percebem as coisas futuras; os homens aquelas que ocorrem; e os sábios, as que se aproximam.”
(Filóstrato, “Vida de Apolônio de Tiana”, VIII, 7)
(Com perdão de Kaváfis e seu magnífico À Espera dos Bárbaros)
Aonde vai o velho boticário
com seu precário passo?
Por que não fica a aviar as receitas
que os médicos lhe passam?
É que ele está jubilado
e já não havia receita para viver.
Por que ele se dirige ao Parlamento?
Os senadores já não legislaram
o que lhes mandaram legislar?
Que outras leis haverão de fazer?
Os banqueiros que chegam as farão.
Os nossos governantes contam saldar
os banqueiros. Têm pronto para lhes dar
as nossas riquezas do passado,
filosofia, teatro, poesia, desporto,
todos os barcos fundeados no porto.
É que tais coisas deslumbram
os banqueiros, mas não os satisfazem.
Por que o velho boticário alvejou
a branca fronte, defronte daquela árvore?
É que ele não quer deixar dívidas
para que os filhos paguem aos banqueiros.
Prefere ter um digno fim antes
de ir procurar comida no lixo.
Por que a ágora agora
encheu-se de flores, velas e bilhetes?
Por que tão rápido são todos reprimidos
e obrigados a voltar para a casa?
(aqueles que ainda têm casa).
É que os banqueiros chegaram
e lhes aborrecem arengas, pendências.
Sem os banqueiros o que seria de nós?
Ah! eles sempre têm uma solução
(que lhes cai do céu)
e vão nos deixar o Cavalo de Troia.
como laurel da nossa infinda glória.
Leia aqui sobre o suicídio do velho farmacêutico grego
Jose Costa, ou Zsoze Kósta, protagonista do romance Budapeste de Chico Buarque, afirma que o húngaro é a “única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”.
Para nós, latinos, a língua polonesa com sua sopa de letrinhas não fica atrás na dificuldade.
Se bem que talvez muito em breve o português escrito abandone as inúteis vogais, a persistir o modo de redigir do internetês. Ainda hoje, na sua crônica na Folha de S. Paulo, Tatibitatês, Ruy Castro (que, felizmente, parece recuperado sem sequelas da crise convulsiva), conta sobre a intrigante mensagem que recebeu de uma amiga: “Pq vc tb ñ vai la em ksa nesse fds comer krambola?”. Diz, a final, que entendeu tudo, menos “krambola”.
Se a língua é uma barreira, a poesia pode ser outra, embora alguns gostem de poesia.
Nenhum espanto, pois, de que Wisława Szymborska (segundo a excelente tradutora Regina Przybycien pronuncia-se mais ou menos Vissuáva Chembórska) seja pouco conhecida no Brasil, mesmo tendo recebido o prêmio Nobel de Literatura em 1996.
Até então havia lido alguns poucos poemas dela, que muito me impressionaram, mas faltava-me uma visão geral da sua obra, que não é extensa. Falecida em fevereiro deste ano, aos 88 anos, Wisława Szymborska, ainda segundo Regina Przybycien, sempre foi muito discreta, zelosa de sua vida privada, e nunca se dispôs a desempenhar “[…] o papel de celebridade literária, dessas que aparecem na televisão e opinam sobre os mais diversos assuntos. Também não gosta de dar entrevistas. Uma vez declarou: Minha vida está nos meus versos”.
Foi, portanto, com doce e expectante estremecimento que tomei nas mãos o pequeno livro de poemas de Wisława Szymborska, ainda mais porque a fotografia da capa — ela por trás da fumaça do cigarro que tem entre os dedos, olhos semicerrados, a xícara de chá ou café defronte — lembrou-me de imediato minha mãe, que também se foi, levada pelo cigarro.
A começar pelo precioso prefácio da tradutora Regina Przybycien, o livrinho tem me encantado com a seleta de 44 poemas escritos por Wisława Szymborska de 1957 a 2002.
Um dos poemas mais conhecidos dela é Alguns gostam de poesia, e com esses divido parte do meu encantamento por meio dos três poemas que se seguem (muito difícil escolher entre tantas maravilhas).
É o meu presente de Páscoa, surrupiado da poeta. Mas quem furta (ou recepta) poemas, tem cem anos de perdão.
Alguns gostam de poesia
Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.
Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.
Escrevendo um currículo
O que é preciso?
É preciso fazer um requerimento
e ao requerimento anexar um currículo.
O currículo tem que ser curto
mesmo que a vida seja longa.
Obrigatória a concisão e seleção dos fatos.
Trocam-se as paisagens pelos endereços
e a memória vacilante pelas datas imóveis.
De todos os amores basta o casamento,
e dos filhos só os nascidos.
Melhor quem te conhece do que o teu conhecido.
Viagens só se for para fora.
Associações a quê, mas sem por quê.
Distinções sem a razão.
Escreva como se nunca falasse consigo
e se mantivesse à distância.
Passe ao largo de cães, gatos e pássaros,
de trastes empoeirados, amigos e sonhos.
Antes o preço que o valor
e o título que o conteúdo.
Antes o número do sapato que aonde vai,
esse por quem você se passa.
Acrescente uma foto com a orelha de fora.
O que conta é o seu formato, não o que se ouve.
O que se ouve?
O matraquear das máquinas picotando papel.
A alegria da escrita
Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio — também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra “bosque” originou.
Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.
Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.
Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo.
Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece.
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.
Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?
A alegria da escrita.
O poder de preservar.
A vingança da mão mortal.
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Edição de José Márcio Castro Alves
Não, este não é o meu rosto,
meu verdadeiro rosto.
Olhem para mim, é assim que eu sou?
Onde está meu verdadeiro rosto?
Este rosto parece uma foto descorada
descolada do álbum de família.
Este rosto é do meu avô, do meu pai, do meu tio.
Onde está meu verdadeiro rosto?
Talvez tenha se perdido
na poeira das pradarias do Velho Oeste
nas matinês do Cine Theatro São Carlos,
nas noites de lua cheia,
nas serenatas da madrugada,
nos acordes das canções,
em alguma página de livro,
no corpo perplexo da primeira mulher.
Pode estar distraído
nas cantinas do Bixiga,
nos arcos da Lapa,
a andar pela praia até o Leblon
após o pôr do sol no Arpoador
enquanto a tarde não parte
na última barca para Niterói.
Quem sabe vagueie mano a mano
pelas calles de Buenos Aires
com o fantasma de Borges,
ou se deixou ficar em Alfama, Baixa e Chiado,
Óbidos ou Cascais, na Coimbra do Choupal,
no Escorial, na Plaza de Salamanca,
numa ponte de Veneza,
no Batistério de Florença,
nas colinas de Roma,
nos cafés da Rive Gauche,
naquele longo anoitecer
em que o céu pouco a pouco se tecia
com todos os azuis de Tintoretto.
Não, este não é o meu rosto.
Este é o rosto que eu terei um dia.
Já fui Rei.
Hoje, não quero mais.
Os súditos se curvavam
e me abriam o caminho para passá-lo.
Hoje, prefiro vassalo.
Envergava meu manto de arminho,
que todos aplaudiam e admiravam.
Hoje, prefiro a nudez
(do menino que me fez).
Orgulhava-me da sapiência,
que a todos encantava
(ou enganava).
Hoje, me apraz a paciência.
Queria-me a todo custo adorado,
mesmo que traído pelo costado.
Hoje, basta-me ser gostável
(e gosto que me enrosco).
Já fui Rei.
Hoje, serenei.