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Es muele?

 

            Selma Barcellos

 Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

Um olho nos lírios de las esquinas, outro nos taxistas:

─ Te gusta Buenossaires?

─ Brasileños de onde?

─ Já estoy juntando la plata pra Copa de usted, ãh! Fiz las cuentas, voy precisar de unos 20000 dólares. Tengo mucho que trabajar neste taxi… hahaha…

─ Congratulatión por “Tropa de Elite”, ãh! Sensacional! Já assisti mijones de vezes. Capitán Nascimiento merece todos los prêmios.

─ Si necessitam de chaqueta de cuero, la garantia soy yo. Los reales están valorizados por acá. Muy bueno pra usted, ãh!

─ Visitaram el Zoo? Es una beleza. Mira mis fuetos com a família.

─ E La Bombonera? Brasileños no tienen buenos recuerdos deste estadio… hahaha… pero te lo juro que Pelé foi muuuucho mejor que Maradona.

─ …

Entregamos a Dios o trololó ininterrupto da criatura e revezamos nos monossílabos. A noite em Las Cañitas vale qualquer sacrifício.

No taxímetro, 38 pesos. Damos 50. Com rapidez e habilidade de um prestidigitador, o surreal condutor observa a nota contra a luz, dá um peteleco nela, esfrega-a com a ponta dos dedos e declara: _ Es falsa.

Conhecedores do golpe da troca, citamos os últimos algarismos da nota e falamos em polícia.

Evade-se o Copperfield bribón, milongueiro, safado.

Pra cima de nosotros…

 

 

                                       Caminho por calles

                                       Plenas de azul

                                       Florido.

                                       Trago poesia

                                       E todos os risos

                                       Comigo.

                                       Os lírios

                                       Das esquinas

                                       son testigos.

 

 

                                                                     Buenos Aires, novembro de 2011

 

 

lírios

 

 

 

Minha terra tem palmeiras

 

 

Do BLOGHETTO SELMA BARCELLOS, Barquinho e Estrelinha,  parceirinhos queridos, como Vinicius gostava de dizer.

 

 

barquinho e estrela

 

 

O amor de Vinicius pelo RIO DE JANEIRO…

 

Vejo de minha janela uma nesga do mar verde-azul de Copacabana e me penetra uma infinita doçura. Estou de volta à minha terra… A máquina de escrever conta-me uma antiga história, canta-me uma antiga música no bater de seu teclado. Estou de volta à minha terra, respiro a brisa marinha que me afaga a pele, seu aroma vem da infância. Retomo o diálogo com a minha gente. Uma empregada mulata assoma ao parapeito defronte, o busto vazando do decote, há toalhas coloridas secando sobre o abismo vertical dos apartamentos, dá-me uma vertigem. Que doçura!

Sinto borboletas no estômago, deve ter sido o tutu com torresmo ontem misturado ao camarão à baiana de anteontem misturado à galinha ao molho-pardo de trasanteontem misturada aos quindins, papos-de-anjo, doces de coco do primeiro dia. Digiro o Brasil. Qual canard au sang, qual loup flambé au fenouil, qual pâté Strasbourgeois, qual nada! A calda dourada da baba-de-moça infiltra-se entre as papilas, elas desmaiam de prazer, tudo deságua em lentas lavas untuosas num amoroso mar de suco gástrico…

– É a brazuca! – disse-me Antônio Carlos Jobim balançando a cabeça com ar convicto, enquanto empinava o seu VW em direção ao Arpoador.

Há uma semana e meia atrás, pelas cinco da manhã, eu tocava violão para uns brasileiros e espanhóis da terceira classe, no Charles Tellier, que me trazia da Europa. De repente, um clarão lambeu o navio e todo mundo correu para a amurada. Era um farol de terra, possivelmente o de Cabo Frio. Havia entre nós um padre que regressava depois de quatro anos de estudos em Roma e Paris, um bom padre mineiro cheio de zelo pela nova missão de que vinha investido. Juro que vi o velho palavrão admirativo, o clássico palavrão labial de assombro formar-se em sua boca sem que ele sequer desse por isso.

Domingo passado fui almoçar na casa materna. Muito mais que as coisas vistas, os sons é que me emocionaram. Lá estava na parede o velho quadro de Di Cavalcanti, representando um ângulo da rua Direita pouco depois do antigo Hotel Toffolo, em Ouro Preto, mas o que me chegou foi o tinir das ferraduras dos burrinhos nas velhas pedras do calçamento, de mistura ao soar dos sinos e à voz presente de minha filha Luciana chamando-me: “Pai… iê!” para que eu fosse ver qualquer coisa. Depois, o sussurrar de vozes se amando baixinho no escuro de um beco, sob a luz congelada de estrelas enormes…

– Você gosta de mim?

– Gosto.

– Muito?

– Muito!

Minhas artérias entraram em constrição violenta, o peito doeu-me todo e eu me levantei e fui até a rua para respirar. Sei que morrerei um dia de uma emoção assim. Mas não adiantou. Lá estava o capim brotando de entre os paralelepípedos, lá estava a ladeira subindo para o verde úmido do morro, ali à esquerda ficava um antigo apartamento onde eu morei. Naquele tempo eu ganhava novecentos mil-réis por mês e estudava para o concurso do Itamaraty. Dava apertado, mas dava.

Por que será que só no Brasil brota capim de entre os paralelepípedos, e particularmente na Gávea? Existe por acaso um sorvete como o do seu Morais às margens do Ródano? Vêem-se jamais as silhuetas de Lúcio Rangel e Paulo Mendes Campos numa cervejaria em Munique? Quem já viu passar a garota de lpanema em Saint-Tropez?

Adeus, mãe Europa. Tão cedo não te quero ver. Teus olhos se endureceram na visão de muitas guerras. Tua alma se perdeu. Teu corpo se gastou. Adeus, velha argentária. Guarda os teus tesouros, os teus símbolos, as tuas catedrais. Quero agora dormir em berço esplêndido, entre meus vivos e meus mortos, ao som do mar e à luz de um céu profundo. Malgrado o meu muito lutar contra, eis que me vou lentamente tornando – logo eu! – num isolacionista brasileiro.

 

 

 

Namorados da Noite

 

           Selma Barcellos

 Selma-no-Jardim-de-Luxumburgp

 

 

 

 

 

 

 

 

(ilustração do blog A pelada como ela é)

 

 

Começo a crer que deveríamos ter dado a largada para as comemorações do centenário de Vinicius de Moraes muito mais do que um ano antes. Há tanto o que relembrar e até mesmo descobrir sobre o poeta…

Leiam que delícia de pesquisa realizou o jornalista Sérgio Pugliese sobre o passado peladeiro de Vininha. Claro está que “peladas para o Poetinha só mesmo as musas inspiradoras e nessa arte ele certamente superou os mil gols, desbancando consagrados artilheiros” , mas há novidades sobre outra arte – a do encontro de “um pontinha individualista”, como ele se autoproclamava em campo, com os amigos e o prazer de viver. Crônica imperdível, queridos!

Petiscos:

[…] Nesse dia, decidiram oficializar o time, batizá-lo, criar um estatuto, um escudo, um uniforme, um hino e convidar Vinicius para técnico. Sabe-se lá quantos barris de chope depois, nascia o Namorados da Noite, o azulão estrelado.

– Ele topou, claro, afinal o importante era estar entre amigos. E com um nome desses, Namorados da Noite, ele tinha que estar dentro – brincou Carlinhos Vergueiro.

[…] Em sua partida de estreia como técnico, nenhuma estratégia e apenas um pedido aos craques do Namorados da Noite: “Entrem e vençam!”. Nas vitórias, claro, as resenhas eram mais divertidas e o uísque descia redondo.

[…] – Consta que Vinicius quando jovem jogava futebol, lutava boxe e jiu-jítsu e nadava muito bem, porém não há nada que comprove isso e quem viu já não está por aqui. O certo é que torcia pelo Botafogo e isso está registrado numa de suas crônicas, na qual ele chama a atenção de um bilionário americano, Mr.Buster: “…O senhor sabe lá, Mr. Buster, o que é um choro de Pixinguinha? O senhor sabe lá, Mr. Buster, o que é ter uma jabuticabeira no quintal? O senhor sabe lá, Mr. Buster, o que é torcer pelo Botafogo?” – divertiu-se Toquinho.

O prato cheio aqui. Deliciem-se.

 

E o hino do glorioso Namorados da Noite? “Com raça, elegância e galhardia” é tudo de bom… (já está no CD de Toquinho “Quem Viver, Verá” )

 

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Wf3uRzEUQnc[/youtube]

 

 

Anima

 

            Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

Coffee cup and croissant on a table

 

                                               Siga assim:

                                               A cama por fazer, a pintura,

                                               English tea latté

                                               Em mesa de arabescos…

                                               Turbilhão.

                                               Um para sempre feriado,

                                               Independência da alma

                                               Que sorve cada instante

                                               Entre batidas aceleradas

                                               E repouso, calmaria.

                                               Porque vida:

                                               Descompasso, sintonia.

 

                                                                 Santa Monica (CA), 4 de julho de 2008, Urth Caffe

 

 

 

Receba as flores que lhe dou

 

            Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sergio Porto (caricatura de Lan)

 

Tunica, eu tô apagando” foram as últimas palavras de Sérgio Porto, nosso Stanislaw Ponte Preta, em setembro de 68, vítima de infarto e possivelmente excesso de trabalho, uma vez que a amigos próximos andara se queixando de “levantar o olho da máquina de escrever só pra botar colírio”.

Forte, bonito, elegante, simpático, inteligente, Porto era um privilegiado sem exibicionismos, a quem “só faltava dinheiro, como de resto ao grupo todo,” ─ escreveu Paulo Mendes Campos, amigo de décadas ─ “que mesmo mal pagos, tínhamos de aceitar as ofertas que a imprensa nos fazia como um favor, bicando aqui e ali, sofrendo na carne os atrasos do caixa, brigando pelo dinheirinho de cada dia. Mas o clima não era de miséria nem de tristeza: bebíamos crepuscularmente nosso uísque escocês no Pardellas da Rua México, dançávamos no Vogue, andávamos de táxi. Já que o dinheiro era pouco, o jeito era gastá-lo no essencial: o apartamento próprio que esperasse.”

 Dono de tentações irresistíveis ─ “passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não é tão boa quanto pensa” ─ e medos absurdos ─ “qualquer inseto taludinho (de barata pra cima)”, Porto se aborrecia quando o julgavam um cínico; era apenas um sentimentalão que não “aguentava uma gata pelo rabo” . Em poucas palavras traçou o retrato de uma época dourada, mas repressiva em matéria de sexo, em que as praças e cantinhos escuros eram o desafogo: “Se peito de moça fosse buzina, ninguém dormia nos arredores daquela praça.”

 Numa chegada a Buenos Aires, ainda segundo Paulinho Mendes, “avião estacionado, entrou nele um médico da saúde pública, um homem ruivo e bastante calvo. Pedindo aos passageiros que exibissem o atestado de vacina, o médico estendeu a mão para Sérgio, ao mesmo tempo que dizia em tom cavo e impessoal: “Vacunación, señor.” Como se estivesse recebendo um cumprimento de boas-vindas, Stanislaw (aí era ele), muito grave, apertou a mão do médico, falando claro e efusivo: “Vacunación para usted también?” O médico, rubro de indignação, expulsou-nos do avião, sem mais exigir o documento sanitário e, enquanto eu explodia de rir, ele sussurrava-me entre os dentes: “Aguenta a mão, se não a gente acaba em cana.”

Lembro-me da comoção que a notícia da morte prematura (45!) de Stanislaw e, com ele, de Tia Zulmira, Primo Altamirando e Rosamundo, causaram em mim e no pai. Líamos e ríamos juntos daquelas tantas delícias.

Lan dedicou ao amigo a genial caricatura que ilustra o post. Admiravam-se em suas artes. Ainda que Stanislaw o entregasse em alguma coluna:

 lanestrela

 

Como tem bamba lá em cima. Já pensaram Stanislaw, Millôr, Braga e Drummond no uisquinho crepuscular? Se tiver primavera então…

 

 

Recado à Senhora do 301

 

          Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

Selminha levou seu sorriso para a Califórnia,

mas, com uma vizinha desavinda, a recíproca não foi verdadeira.

Melhor para nós, que temos ela e o sorriso bem-vindos de volta, à brasileira.

 

 

 

limoeiro

 

“– Mas que me seja permitido sonhar com uma outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou.” E o outro respondesse: “Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar que a vida é curta e a lua é bela.”

(Rubem Braga)

 

Vizinha,

Quem fala aqui é a senhora do 501. Sei que não está explícito no regulamento do prédio que ao menos um sorriso é obrigatório para quem entra ou sai do seu elevador (sim, é seu, estou de passagem), no entanto, se me permite, que desperdício de vida, vizinha… Reparou que sempre que nos encontramos, desejei-lhe um bom dia, segurei a porta quando a vi carregada de sacolas, quis até apertar o botão do seu andar e a senhora nem me deixou completar a pergunta, preferiu fazê-lo sozinha? Sequer uma palavra, um olhar de agradecimento… De todo modo, peço-lhe desculpas pela brincadeira de ontem – “Oh, there you are! The one that doesn’t smile! ” — e prometo silêncio.

Saudações.

 

 

Nota da RedaçãoNa esperança de que a criatura abra a janela e o sol lhe invada as manhãs e o coração, registrei em foto o que me levou a escrever este recadinho, ainda há pouco: o azul e o limoeiro siciliano que perfuma o jardim da casa do filho. Ah!, e uma canção de que gosto muito. Quem sabe?

 

“Canção da manhã feliz” (Haroldo Barbosa / Luiz Reis), com Nana Caymmi e Miltinho

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=FHDg4L7XJgQ[/youtube]

 

 

 

Recadinho da Selminha

 

Tempo!

 
 
 
 

 

 

My sweet embraceable navegantes, pulinho em Santa Monica. Vou ver a vida sobre as ondas, curtir o filhote aniversariante, reencontrar amigos que por lá deixamos, pedalar, pedalar… Férias.

O Bloghetto volta no início de setembro ou em edição extraordinária.

Até lá, queridos.

Beijocas,

Selminha 

 

 

“The Mermaid”

 

             Selma Barcellos

 Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

Fez-me descer até a garagem para mais uma de suas surpresas. Gosta de  surpreender e de nos ver sorrir, a mim e ao pai.

E voilà, cobertos por um lençol,  aguardando serem desvendados, literalmente, a branca tela no cavalete, as tintas, os pincéis e um livro para iniciantes com sugestões de pinturas e passos para realizá-las.

Da mesma forma que, um dia, aprendendo a andar de bicicleta, soltei suas mãos e disse “Vai, filho!”, aquele presente pareceu devolver-me o desafio: “Agora é com você!”

Algum dom sempre cultivei para desenho, bem sei. Porém, para pintura,  dominava apenas a básica noção de mistura de cores aprendida no longínquo primário.

Passados alguns meses, vendo-o partir em viagem, decidi ir às tintas e colorir o tempo de ausência.

Escolhi uma foto do painel de seu quarto – um entardecer em  Itacoatiara, local  da infância e dos primeiros anos de juventude, reserva do coração.

Insegura em minhas pinceladas iniciais, consolava-me saber que, mesmo não surgindo dali nenhuma obra-prima, em algum canto do quarto ele a penduraria. Afinal, a pintura lhe seria dedicada.

Tudo caminhava  razoavelmente, até que esbarrei na dificuldade do chamado  primeiro plano: uma enorme folha de palmeira que se impunha, soberba, na paisagem.

E sobreveio o desastre. A folha da amadora resultou em algo indecifrável, misto de imenso pássaro negro, nuvem de tempestade, avião queimado no céu. Não havia como esconder, não havia conserto possível. Não ao meu alcance.

A autocrítica foi demolidora. Resolvi desfazer-me do quadro, sem sequer assiná-lo.

Coloquei-o no alley, estreita passagem localizada atrás das casas americanas, onde os moradores têm por hábito deixar suas traquitanas, esperando que alguém as resgate.

Tanto é assim que, ao retornar de  breve caminhada, o quadro se fora.

Ato contínuo, assolaram-me a curiosidade, a dúvida, o arrependimento. Por onde andaria meu quadro? De quem aquela paisagem fizera a alegria? Quem acreditara naquela folha de palmeira?

O delírio levava-me ainda mais longe. E se, belo dia, de tanto errar, eu acabasse acertando e ficasse famosa?  E se me deparasse com o quadro sendo leiloado pela Sotheby’s por milhões e assinado por outra pessoa?

Durante semanas, ao passar pela discreta vizinhança, tão típica daqui, lançava um olhar sorrateiro pelas janelas, na esperança de vê-lo. Nada.

Contando aos amigos, o remorso aumentava. “Você deveria tê-lo guardado para verem a evolução de sua pintura!”. “Já pensou, daqui a gerações, sua família expondo a relíquia?”.

Não hesitei. Arregacei as mangas,  recoloquei o avental. Adiei aquela paisagem para quando minha arte estivesse mais madura e decidi começar um novo quadro, o meu “primeiro” quadro. Afinal, desistir e decepcionar são palavras que nos apequenam.

Assim foi que, ao retornar o filho, retribuí-lhe a surpresa. Na sala, igualmente coberta por um lençol, estava a pintura. Ao lado, um cartão de agradecimento pelo que ele representa de estímulo  em nossas vidas, belíssimo ser humano que é. Instigante, inquieto, propulsor.

Verdadeiramente, naquele instante, com o sorriso que me deu, percebi que minha obra acabara de receber o mais valioso dos lances. Já tinha preço a minha realização.

Ei-la, enfim: uma reprodução do quadro de Douglas Tharalson, “Malibu Mermaid”, meio sereia, meio mulher, meio maga encantando os pescadores.

Tal qual me sinto agora,  meio pintora, meio poeta, meio cronista. E, de alguma forma, também buscando encantar.

 

 

 

Veja o quadro original de Douglas Tharalson AQUI

Não mandou muito bem a nossa artista?

 

 

 

Dois chopes e uma pastel

 

         Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

Seria pedir muito que inventores de placas de banheiro fossem menos criativos? Por conta do exagero de suas genialidades e… hummm… de meus chopinhos, passo bons apertos. Cidadão adentra corretamente o recinto dele e eu mando um altivo “o que o senhor está fazendo aqui?”. Em outra ocasião, garçom supergentil bate à porta: “Madame, perdão, este toilette é masculiiiino!”.

Para completar, vou com certa frequência a um restaurante italiano em cujas portas de banheiro há fotos bem antigas, em preto e branco, do rosto do nonno e da nonna. O vovô tem bigodão e a vovó, um buço de responsa. Juro, gente, às vezes inverte… Se bobear, até de costeleta já vi aquela senhora. Mas agora fico esperta. Por alguns segundos, guardo distância regulamentar, ponho a mão no queixo e faço cara de turista no Louvre. Tem funcionado.

Observem, queridos do blog, a que nível de complexidade a coisa chegou: gírias australianas Blokes (garotos) e Sheilas (garotas) em restaurante de rede famosa; palavras celtas Fir e Mna em lounge badalado (ilustraram depois, a pedidos); garrafa e taça sugerindo pipiu e pepeca estilizados e minimalistas… Assim não dá.

Está de bom tamanho escrever MASCULINO e FEMININO, com ícones clássicos do gênero humano. Em português mesmo. Nada de M de men (ou de mulher?).

Nem de objetos em rosa, azul… A blogueira já é uma pastel. E pode ser daltônica, não?

 

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Canção da Espera

 

        Selma Barcellos

Selma-no-Jardim-de-Luxumburgp

 

 

 

 

 

 

 

 

                                               CANÇÃO DA ESPERA

 

 

                                                Na paisagem

                                                das janelas

                                                surge sempre

                                                           um rio

                                    que ela segue

                                                           com olhos de horizonte

                                   e sorrisos de lua

                                               até um estuário

                                               de versos

                                               onde as palavras

                                               — presas às margens

                                               feito musgo

                                               feito hera —

                                               aguardam que

                                               poema e vida

                                               se encontrem.

 

                                               E inaugurem a primavera.

 

 

                                                                       (Montelpuciano, verão de 2012)

 

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