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Chemin Vert

 

 

 

Ivan, João, Rube e Ariano 2

 

 

                                        CHEMIN VERT

  

Para Ivan, João, Rubem e Ariano

 

                              Do outro lado da janela

                              o muro.

                              Do outro lado do muro

                              (para aquele que pula)

                              pulula o caminho verde.

 

                              Na folhagem/voragem do tempo

                              recolho esse instante na brandura

                              das pétalas encerradas

                              entre as páginas dos livros

                              (mas jamais ressequidas)

                              e prossigo pelo além perfume.

 

                              Mais tarde, aquém muro,

                              tornarei às coisas que findam

                              e aos homens que morrem.

 

 

Ariano Suasssuna

 

 

 

Moto-contínuo

 

 

Passar do Tempo

 

                                       …

 

                                       o segundo exíguo

                                       inicia

                                       o dia contíguo

 

                                       no desvão

                                       dos dias

                                       os dias vãos

 

                                       por vias

                                       das dúvidas

                                       prossigo

 

                                       …

 

“Moto-contínuo” (Edu Lobo / Chico Buarque), com Edu e Tom Jobim

 

 

 

Canção do Amanhecer

 

 

 

“Canção do Amanhecer” (Edu Lobo / Vinicius de Moraes), com Edu

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=UlRmEIFZh00[/youtube]

 

 

                                               amanhecerá

                                               e a manhã será

                                               amanhã seremos

                                               talvez serenos

 

                                               Força, poeta Adalberto!

 

 

 

Lira dos Setentanos

 

 

Chico 70 anos 

 

Da nossa enviada especial a Paris:

“O que você preparou para Chiquito? Ele está aqui dando mole e a família chega do Rio hoje. Todos vieram comemorar os setentinha.

Selminha”

(Lá no Bloghetto tem mais: clique aqui)

 

 

“Chico Buarque é um dos maiores compositores do Brasil. É meu grande e querido amigo, muito bom de ter. Quieto e respeitador. Profissional extraordinário, estudioso, firme. É um homem lindo, maravilhoso, cavalheiro e deslumbrante. Comigo, é uma flor. Não poderia ser mais suave, amoroso e cuidadoso. Das canções que ele fez para eu cantar, não posso escolher uma. Todas são deslumbrantes. Estarão para sempre entre as melhores da minha vida. Isso já é um presente muito grande. Sou grata. Apaixonada por ele. E sua música alcança nobremente a todos. Com o melhor português, a melhor música, a melhor harmonia. Por isso é hora de parar de dizer que brasileiro tem ouvido burro. O brasileiro é sensível e sabe o que é bom. Chico faz aniversário um dia depois de mim. Sou do dia 18 de  junho e ele, do dia 19. Quando a gente estava fazendo o show de Chico & Bhetânia, no Canecão (no Rio em 1975), era um sucesso! Ficamos meses em cartaz. Estávamos no palco e resolveram fazer uma homenagem. No final do show, para tudo e entram as ‘canequetes’, de tapa sexo, cada uma com uma TV imensa e oferece para a gente. Chico me olhou e disse: ‘Nunca mais faço aniversário!’ Que vergonha que a gente passou! Mas ele é geminiano, adora fazer aniversário. Este ano ele não está aqui para eu dar um beijo nele. Mando de longe! Chico é tudo. É o máximo” (Maria Bethânia)

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=eCQi7KLxGOI[/youtube]

 

“Antonio, quando ela abre os braços para o Chico, a emoção é absolutamente visível. E a gratidão por cantar tamanha beleza com ele. ” (Selminha)

 

 

“Nossa parceria é fora do comum. Temos apenas duas músicas fora de projetos específicos, ‘Moto-Contínuo” e ‘Nego Maluco’. As outras 40 que fizemos jutos ‘têm patrão’: fizemos músicas para balés e musicais. O balé do Teatro Guaíra, de Curitiba, havia encenado ‘Jogos de Dança’, seis peças instrumentais que fiz. Eles me chamaram para fazer ‘O Grande Circo Místico’ e sugeri o Chico para fazer as letras, pela qualidade dele e porque ele tinha prática de teatro, a carreira dele foi por este caminho. Eu sempre interferi muito nas letras dos meus parceiros, pedindo para trocar uma palavra. Nunca fiz isso com o Chico na vida. Nenhuma letra eu tive que pedir algo, porque ele é completamente obcecado, escreve e reescreve. Crio a expectativa e normalmente vem uma letra melhor do que a que estou esperando. Além de ser um excelente compositor, ele consegue inventar um personagem, caso da ‘Lily Braun’ e da ‘Beatriz’ no ‘Circo Místico’. Nosso encontro foi bom para nós dois. Eu sou um melhor músico por conta do trabalho que fez comigo. Chico consegue adivinhar o que a música quer passar e, muito provavelmente, nem o autor da melodia pensou daquele jeito.” (Edu Lobo)

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=D207r2Te9U8[/youtube]

 

 

“Conheci o Chico na década de 1960 em festas na casa de amigos, em São Paulo. Carregávamos a indiferença pelos compromissos e as improvisações da juventude. O Chico ainda não era o Chico, era o ‘Carioca’, que começava a surgir com seu acanhamento e seu violão. Não pude deixar de atender ao chamado dele, em 1969, quando ficou exilado na Itália, me convidando para trabalhar com ele em shows. Chegando a Roma, não tinha show nenhum, e ainda dei dinheiro para o Chico saldar umas dívidas. Permaneci seis meses com ele na Itália, vivendo juntos momentos nem sempre animadores. Dois dias antes de voltar ao Brasil, deixei com ele um tema de despedida para que ele colocasse letra, consolidando o tempo que passamos juntos. Havia ser iniciado, em Fiumicino, pela última estrofe, o que, dois anos depois, seria concretizado como ‘Samba de Orly’, já com a sutil intervenção de Vinicius de Moraes. Porque Orly era o aeroporto no qual desembarcava a maioria dos brasileiros perseguidos pelo regime militar. Já éramos parceiros desde ‘Lua Cheia’, minha primeira composição. Depois fizemos ‘Samba pra Vinicius’. Recentemente, deixei com ele um tema, quem sabe não seja o prenúncio de uma nova canção. Mas nossa mais autêntica parceria é a amizade e a confiança que depositamos um no outro.” (Toquinho)

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=og0ecRWInQw[/youtube]

 

 

“O Chico é o mais completo letrista e poeta brasileiro. Se bem que chegando próximo dele vêm mais uns 8 ou 9. O que, no meu entender, prova que fazemos a melhor e mais rica literatura musical do planeta. E, além do letrista, é também um grande melodista. E conseguiu aliar em suas obras, lirismo, política, cultura popular e filosofia, dentro de uma poética surpreendente, rica, belíssima. Serviu de inspiração para tantos letristas novos, mantendo-se assim a tradição de qualidade de letras escritas no Brasil. ‘Renata Maria’, antes de lhe chegar às mãos, tinha o título provisório de ‘Buarquiana 1’. E lhe chegou às mãos através da cantora Leila Pinheiro, que foi a primeira a gravar. Chico me ligou um dia para dizer que iria colocar um nome de mulher, pois, na minha fita, havia um momentos em que ele achou que eu, no meu lararaiá, havia falado algo com sonoridade parecida. Também fizemos ‘Sou eu’, que era ‘Buarquiana 2’, e Diogo Nogueira gravou primeiro, com o Chico. Ele é metódico e meticuloso. E não corre contra o tempo, creio. Já tenho outras duas músicas guardadas para ele colocar letra. Mas não gosto de sair pedindo. Não sou ‘entrão’. Sou tímido com meus ídolos. E Chico é um deles. Nem sei como tive coragem de perguntar se eu podia mandar um samba pra ele.” (Ivan Lins)

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=wyVrBGuBCgI[/youtube]

 

 

A única unanimidade nacional.” (Millôr Fernandes)

 

“A coisa mais importante em matéria de música popular.”(Rubem Braga)

 

“Herói nacional, salvação do Brasil, mestre da língua. Tanta coisa que nem cabe aqui.” (Tom Jobim)

 

“De amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando (…) Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vêm trazendo…” (Carlos Drummond de Andrade, depois de ouvir “A Banda”)

 

Talvez mestre Millôr tenha exagerado.

Chico não é (ou já não é) uma unanimidade.

Mas continua uma sumidade:

soma idade, mas a idade some dele.

Que assim seja, benfazeja!

 

 

 

Não vai ter copa!

 

 

O zeloso Dicionário Houaiss, das oito acepções que arrola, não registracopa” como um dos cômodos da casa.

A liberalizante Wikipédia, sim, embora de maneira confusa: “Em uma casa, uma copa é um lugar onde se fazem as refeições (Pode-se chamar de cozinha também). O que geralmente a difere de uma sala de jantar é o fato de que na copa é anexada por uma porta, ou de outras maneiras de cozinha. Ou pode a fazer de biblioteca, ou cantinho de descanso.”

Parece, aliás, que a copa vai se confundindo ou desaparecendo nas casas e apartamentos contemporâneos, que integram cozinha, copa, sala de jantar e até sala de visitas num único ambiente. Menos mal que o banheiro ainda não.

Se um time de futebol fosse uma velha casa, a cozinha seria a defesa, e o ataque, a sala de jantar. Na cozinha se faz o trabalho duro (e por vezes sujo) de cortar, descascar, fritar, ralar, amassar. O fruto desse trabalho é degustado na sala de jantar, onde se reúnem os convivas, que aplaudem (ou não) os acepipes servidos. A copa, então, seria o meio de campo do time, encarregado de apanhar as sobras da cozinha, requintá-las com toques especiais, selecionar os vinhos, e distribuí-los como iguarias.

Os grandes times costumam ter um honorável meio de campo, composto de maîtres e garçons que fomentam os atacantes. Se estes têm apetite, a festa se completa.

A seleção brasileira que vai para a Copa de 2014 tem uma cozinha fornida e uma sala de jantar prazerosa, mas não conta com uma copa equipada. Falta o maître sapiente, os garçons atenciosos, que transitem entre a cozinha e a sala de jantar. Luiz Felipe, Paulinho e Oscar (e os demais convocados para o setor) são serviçais esforçados, mas lhes falta inspiração. Cheguei a pensar, anos atrás, quando despontava no Santos F. C., que Paulo Henrique Ganso seria o nosso maître d’hôtel, mas ele ainda não conseguiu se diplomar no Le Cordon Bleu.

Afinal, a trancos e barrancos, teremos Copa, até podemos ganhar a Copa, mas vamos para a Copa sem copa.

não vai ter copa 2

 

 

Sortilégio

 

universo paralelo-infinito

 

                                                  SORTILÉGIO

 

 

                                                  Como as estrelas,

                                                  que ao vê-las

                                                  já não são,

                                                  a semente e o fruto

 

                                                  a paixão e o luto

                                                  o dito e o desdito

                                                  a prisão e a janela

                                                  a nascente e a foz

 

                                                  os outros e nós

                                                  a calma e a procela

                                                  a praga e a prece

 

                                                  o quanto acontece

                                                  já se findou

                                                  e sequer começou.

 

 

 

 

 

Diálogos Impossíveis

 

 

Manuela de ponta cabeça 

 

 

No carro, enquanto a levo para casa, depois da escola:

─ Babu, seu cabelo é cinza e tá ficando branco! Por que você não pinta de preto?

─ Por que, Manu, tô muito feio assim?

─ Você é lindo, mas não quero que fica velhinho.

 

***

 

Dormindo em casa, acorda de madrugada e me chama, choramingando. Encontro-a sentada na cama:

─ Babu, Babu, eu estava no castelo e aí uma abelha veio e me picou!

─ Não querida, olhe só, você está na casa da vovó e do Babu. Foi só um sonho ruim. E eu estou aqui com você.

Sorri, me dá um beijo, deita-se e logo volta a dormir, enquanto lhe faço cafuné.

Na manhã seguinte, durante o café:

─ E então, Manu, você sonhou de novo com o castelo?

─ Sonhei, Babu. Mas aí você estava comigo e não aconteceu nada ruim.

 

***

 

Com a mãe, vendo as fotos do iPhone:

─ Mãe, quero enfeitar minhas fotos com diamantes (de um aplicativo).

─ Mas você sabe o que é um diamante, Manu?

─ Toda mulher sabe o que é um diamante, mamãe!

 

***

 

[youtube]http://youtu.be/ffDfOMfB23s[/youtube]

 

 

 

O silêncio

 

 

 

aves de arribação

 

                                                            O SILÊNCIO

 

 

                                                            O silêncio é um lenço

                                                                                                           que cai

                                                            num chão de algodão.

 

                                                            Mas se disso fazes alarde

                                                            já é tarde: ele partiu

                                                            como ave de arribação.

 

                                

 

 

Objeto Livro

 

 

                                                OBJETO LIVRO

 

 

                                                Palimpsesto

                                               cada camada

                                               superpõe ao texto

                                               todos os sentidos

                                               notadamente o sexto

                                               que não existe.

 

                                               Escreve-se

                                               com todos os erres

                                               mas com todos os erros

                                               leem-se só os esses

                                               desse plural singular.

 

                                               Veneno

                                               que se sorve sereno

                                               sabendo do reverso

                                               na página virada.

 

                                               Aberto

                                               é ave em voo pleno

                                               na esperança da aurora.

 

                                               Fechado

                                               sobre a mesa ensimesmado

                                               é a Caixa de Pandora.

 

 

 

 

 

Luzes da Ribalta

 

 

Theatre stage with red curtain

 

“Life’s but a walking shadow; a poor player,

That struts and frets his hour upon the stage,

And then is heard no more: it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”

(Willian Shakespeare, MacBeth, Ato V, Cena V)

 

 

 

                                                           A cortina se rasga

                                                           e me põe em cena

                                                           a contragosto

                                                           num palco mofino.

                                                           Enceguecido

                                                           pelas luzes da ribalta

                                                           tateante

                                                           tartamudo

                                                           guiado pelo ponto

                                                           recôndito

                                                           no proscênio

                                                           enceno

                                                           um texto obscuro

                                                           cheio de barulho e fúria

                                                           significando coisa nenhuma.

 

 

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=DlxaHMFkA3s[/youtube]

“Luzes da Ribalta” (Charles Chaplin, versão João de Barro (Braguinha) / Antônio Almeida); Texto de Fernando Pessoa; “Drama” (Caetano Veloso), com Maria Bethânia