A psicóloga, o Id, o Superego e o Ego

 

 

Para a Júlia

 

 

               O sol ainda espreguiçava quando o Ego me sacudiu e fez saltar da cama, me enchendo a bola: “Hoje é um grande dia! Formatura da Júlia, a caçulinha! Que beleza! Suas três filhas concluíram o curso superior! Duas já são profissionais de sucesso, e a Júlia vai no mesmo caminho! Você pode se orgulhar!”.

               No fundo, bem sei que o mérito é só delas, mas é difícil não se deixar levar pela comoção e adulação em momentos assim.

               Passei o dia nas nuvens, como o avião em que embarcamos logo depois com destino a São Paulo para participar das solenidades. O Ego na poltrona ao lado. Céu de brigadeiro.

               No finalzinho da tarde, quando me vestia para a colação de grau, o Id deu o ar da sua graça, refletindo no espelho as imagens terríveis do Real: “Engordei! Que droga de cabelo esbranquiçado, que ficou áspero e rebelde, difícil de pentear. E essas rugas? Ainda bem que os óculos disfarçam um pouco… Parece que foi ontem a minha formatura.” E ainda por cima começou a chover…

               Mas logo o Ego voltou a se sentar a meu lado no auditório. “A Júlia é a mais elegante e linda de todas! Olha só ela recebendo o canudo! E foi escolhida para homenagear o patrono da turma! Veja só como ele sorri, a abraça e beija, deve gostar muito dela!”.

               O Superego, sempre muito bem articulado, sistemático e legiferante, não poderia faltar. Pontificou nos tantos discursos, ressaltando o simbolismo da graduação, rito de passagem para os compromissos e as responsabilidades da vida adulta, etc. etc.

               No baile, o Ego novamente se engalanou. “Como a Júlia está exuberante! E que maravilha dançar a valsa com ela! Champanhe, uísque, tim tim!”

               O retorno para o hotel de madrugada foi na companhia do Id, cansado, suado, o estômago revirando dos comes e bebes…

               No dia seguinte, de volta a Ribeirão Preto, Júlia telefona, melancólica com o fim da sua vida estudantil, receosa da duríssima pós-graduação em psicologia hospitalar que já iniciaria no dia 1º de fevereiro. O Id e o Superego estavam com ela.

               Real, Simbólico, Imaginário.

               Id, Superego, Ego.

               Ela vai lidar com eles profissionalmente agora. E cada vez mais, já que pretende se tornar psicanalista.

               Talvez me explique um pouco mais sobre essa Santíssima Trindade lacaniana, se eu não estiver emburrecido demais para entender.

               Como vivente leigo, pressinto que os três se misturam e alternam a cada instante, e talvez a chave esteja nisso, em não se fixar em apenas um deles.

                Afinal, como viver sem a verdade, regras, tradições e uma boa dose de fantasia?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários

  1. 02/02/12 at 16:51

    Querido amigo , em se tratando das suas filhas, dou razão a seu ego! Beijos e parabéns novamente !

  2. sonia k.
    03/02/12 at 9:54

    Não tem Ego que não surja e acho que tem de misturar todos os seus sentimentos sim! Afinal 3 filhas prontas para a vida não é fácil. Parabéns a ela – Júlia, parabéns a você e Macena. Fiquei feliz por vocês e daqui, mesmo não tendo convivido com a Júlia nesses anos todos, também fiquei orgulhosa por todos vocês. ?E ela está linda! Sabe que meu neto Bruno, quando nasceu, usou todas as roupinhas lindinhas que ela tinha desocupado fazia pouco tempo. Tudo o que era branco, amarelinho e outras cores imparciais, sua avó e mãe mandaram pra mim. Coisinhas lindas, principalmente as feitas pelas mãos de fada de sua avó, minha tia querida.
    E então, meu querido, os anos passam e eis-nos aqui assistindo a vitória das vidas que nos são tão caras. Nossa rugas? Cabelos brancos e rebeldes? São as marcas de vidas bem vividas e desenvolvidas. E deixe o Id, Superego e Ego prosearem entre sí. Enorme beijo a todos e PARABÉNS!

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