Dorival
Tive a sorte existencial de nada ter me atrapalhado (pais, religiões, faculdades, essas coisas) e nunca ter sido obrigado a pensar no que ia ser quando crescesse. Pois, ainda menino, trabalhava na redação de O Cruzeiro (uma saleta de 20 metros quadrados que em dez anos seria a redação da maior revista do Brasil – 750 000 exemplares) com apenas três funcionários: Accioly Netto, diretor, Edgard de Almeida, paginador (hoje seria designer), e eu, contínuo, entregador, resenhador, colador, factótum, em suma.
Foi aí que vi entrar todo mundo e seu pai (Gago Coutinho, que tinha cruzado o Atlântico antes de Lindbergh, Manso de Paiva, assassino do candidato a ditador Pinheiro Machado, e um jovem mulato recém-chegado da Bahia).
Não encontrando quem procurava e vendo as figuras que eu recolava, esse jovem me disse: “Você ainda vai colar aí muito retrato meu”.
Tempo depois ele, Caymmi, me diria que fui a primeira pessoa que ele conheceu ao chegar ao Rio – glória da qual não abro mão. A vida nos juntou longos anos, até que o tempo nos afastou, nos esgarçou. A foto testemunha quando estivemos juntos em Itapoã (quase intocada), pra onde ele voltava pela primeira vez depois de muitos anos.
Mas esta nota não é pra lembrar Dorival e sua existência incomparável. É para lembrar Stela Maris, sua sempiterna companheira. A voz extraordinária de Stela, que me chegava orvalhada pela neblina da madrugada, nas ondas da Rádio Tupi fechando seu programa. A voz tonitruante de Caymmi vinha acompanhada pela voz dela, pelo contracanto inesquecível de Stela, na emoção do acalanto que encerrava o dia: “Boi, boi, boi da cara preta…”.
Millôr Fernandes
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Vamos por partes: a foto é linda, histórica; o texto é uma entrega de Millôr (era de raros adjetivos, não?); a música é evocativa de tempos literalmente áureos; e sua ideia, Antoníssimo, é genial.
Aguardo, ansiosa, o próximo encontro.
Beijocas!
P.S.: O que o mestre escreveu para Fernanda Montenegro é belíssimo!
Muito legal gama.
belíssima sacada. Precisamos mostrar essas “coisas” ao jovens , aos velhos alienados e deixar registrados para os que ainda vão chegar para saber que nessa terra sempre existiu vida.
Em tempo: Anos atrás um grupo, desculpe não me recordo o local, mas cada um tinha de levar uma foto, podia ser sacada de revista, jornal, de onde encontrasse. A minha foi a foto do Caymmi andando na Praia com as suas pegadas, como está no video que nos ofereceu. Um dia vou escrever sobre essa foto. É muito representativa.
tempo depois um capelão da Marinha rezando a missa de sétimo dia de um amigo. Começou seu sermão revivendo essa foto. ela é de uma grandeza sem fim.
Uma pena que não sei como tirar do vídeo para colocar na minha parede dos “placáveis”
Gama, como vc disse outra vez, imagino Caymmi tirando um cochilo na rede lá no céu, e o texto de Millor Fernandes é muito bom.
Dos grandes compositores da MPB, Caymmi é o que tem a obra menos extensa (pouco mais de 100 canções) mas é enorme na qualidade – talvez seja ele o compositor que mais cantou e amou o mar e a Bahia.
Abraços,
André