A arte do encontro I

 

 

 

Dorival

 

  

 

 

Tive a sorte existencial de nada ter me atrapalhado (pais, religiões, faculdades, essas coisas) e nunca ter sido obrigado a pensar no que ia ser quando crescesse. Pois, ainda menino, trabalhava na redação de O Cruzeiro (uma saleta de 20 metros quadrados que em dez anos seria a redação da maior revista do Brasil – 750 000 exemplares) com apenas três funcionários: Accioly Netto, diretor, Edgard de Almeida, paginador (hoje seria designer), e eu, contínuo, entregador, resenhador, colador, factótum, em suma.

Foi aí que vi entrar todo mundo e seu pai (Gago Coutinho, que tinha cruzado o Atlântico antes de Lindbergh, Manso de Paiva, assassino do candidato a ditador Pinheiro Machado, e um jovem mulato recém-chegado da Bahia).

Não encontrando quem procurava e vendo as figuras que eu recolava, esse jovem me disse: “Você ainda vai colar aí muito retrato meu”.

Tempo depois ele, Caymmi, me diria que fui a primeira pessoa que ele conheceu ao chegar ao Rio – glória da qual não abro mão. A vida nos juntou longos anos, até que o tempo nos afastou, nos esgarçou. A foto testemunha quando estivemos juntos em Itapoã (quase intocada), pra onde ele voltava pela primeira vez depois de muitos anos.

Mas esta nota não é pra lembrar Dorival e sua existência incomparável. É para lembrar Stela Maris, sua sempiterna companheira. A voz extraordinária de Stela, que me chegava orvalhada pela neblina da madrugada, nas ondas da Rádio Tupi fechando seu programa. A voz tonitruante de Caymmi vinha acompanhada pela voz dela, pelo contracanto inesquecível de Stela, na emoção do acalanto que encerrava o dia: “Boi, boi, boi da cara preta…”.

 

Millôr Fernandes

 

 

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3 comentários

  1. 19/07/12 at 17:54

    Vamos por partes: a foto é linda, histórica; o texto é uma entrega de Millôr (era de raros adjetivos, não?); a música é evocativa de tempos literalmente áureos; e sua ideia, Antoníssimo, é genial.
    Aguardo, ansiosa, o próximo encontro.

    Beijocas!

    P.S.: O que o mestre escreveu para Fernanda Montenegro é belíssimo!

    • Paulinho Lima
      19/07/12 at 20:03

      Muito legal gama.
      belíssima sacada. Precisamos mostrar essas “coisas” ao jovens , aos velhos alienados e deixar registrados para os que ainda vão chegar para saber que nessa terra sempre existiu vida.
      Em tempo: Anos atrás um grupo, desculpe não me recordo o local, mas cada um tinha de levar uma foto, podia ser sacada de revista, jornal, de onde encontrasse. A minha foi a foto do Caymmi andando na Praia com as suas pegadas, como está no video que nos ofereceu. Um dia vou escrever sobre essa foto. É muito representativa.
      tempo depois um capelão da Marinha rezando a missa de sétimo dia de um amigo. Começou seu sermão revivendo essa foto. ela é de uma grandeza sem fim.
      Uma pena que não sei como tirar do vídeo para colocar na minha parede dos “placáveis”

  2. André
    20/07/12 at 14:40

    Gama, como vc disse outra vez, imagino Caymmi tirando um cochilo na rede lá no céu, e o texto de Millor Fernandes é muito bom.
    Dos grandes compositores da MPB, Caymmi é o que tem a obra menos extensa (pouco mais de 100 canções) mas é enorme na qualidade – talvez seja ele o compositor que mais cantou e amou o mar e a Bahia.
    Abraços,
    André

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