Embora não seja a única, nem a mais confiável, a versão disseminada sobre a origem da Maratona remete ao ano de 490 a.C., quando soldados atenienses marcharam até a Planície de Marathónas para combater os persas, na batalha que fazia parte das Guerras Médicas.
Os persas haviam jurado aos gregos que, caso vencessem, invadiriam Atenas, violariam suas mulheres e matariam seus filhos. Temendo tal violência, os gregos combinaram que as mulheres matariam os filhos e cometeriam suicídio, caso não tivessem noticia sobre a vitória dentro de 24 horas.
Como os atenienses venceram, após uma longa e difícil batalha, Pheidippides foi incumbido pelo comandante Milcíades de correr todo o Vale de Maratona até Atenas, numa distância aproximada de 40 km, para levar a notícia e impedir a desgraça. Ao chegar, exaurido, Pheidippides só teve fôlego para dizer uma única palavra antes de cair morto: “Vencemos”.
O esforço desumano, e fatal, de Pheidippides já se afigura muito pouco diante das novas modalidades de Ultramaratona, Ironman, Triatlo, outras extravagâncias e exorbitâncias que ninguém haverá de me convencer que sejam benéficas à saúde e ao bem-estar dos praticantes. Os chamados atletas de ponta ou de alta perfomance excedem e desafiam os limites do corpo em busca de desempenhos sempre mais espetaculares, não raro recorrendo a variados e cada vez mais sofisticados tipos de doping. A grande maioria encerra a carreira em estado lastimável, com o físico e até a mente seriamente avariados, a negar a máxima mens sana in corpore sano.
Como é doloroso ver o grande Muhammad Ali, outrora falastrão ― a bailar pelo ringue com a graça de uma borboleta e a picar os adversários como uma abelha, segundo ele próprio dizia ―, agora cambaleante e trêmulo, com a voz quase inaudível.
Não é menos emblemático o rumoroso desfecho do caso envolvendo o cultuado Lance Armstrong, vencedor de nada menos do que sete Tours de France, e que após superar um câncer nos testículos ainda voltou a ganhar aquela prova. A investigação empreendida concluiu não apenas que ele se dopava, mas que montara um complexo esquema de produção e uso de doping, o que resultou no seu banimento para sempre do ciclismo e a cassação dos títulos. “Armstrong”, que pode ser traduzido como “braço forte”, infelizmente tinha o pé de barro, como tantos outros heróis de dantes e de agora.
Esses atletas, e também os grandes astros pops ((Michael Jackson e Amy Winehouse, apenas para lembrar dois exemplos mais recentes) constituem-se na representação contemporânea dos heróis ou semi-deuses da Mitologia Grega, como Aquiles, Hércules, Teseu, Perseu, Agamenon, Ajax, Édipo, entre outros, personagens que estavam numa posição intermediária entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais superiores aos dos homens comuns (força, inteligência, velocidade), porém eram mortais e apresentavam alguns dos defeitos humanos (psicológicos e corporais). Seus destinos quase sempre são trágicos, punidos impiedosamente por ousarem desafiar ou contrariar os deuses.
Tenho especial predileção pela saga do titã Prometeu, que rouba o fogo divino (para muitos, símbolo do saber), ludibriando os deuses, para proporcionar à raça humana um elemento que lhe garantiria a supremacia sobre os demais seres vivos. Em razão dessa afronta, Zeus decidiu puni-lo decretando ao ferreiro Hefesto que o prendesse em correntes no alto do monte Cáucaso, por 30 mil anos, durante os quais ele teria o fígado diariamente bicado e dilacerado por uma águia ou abutre. Como o órgão se regenerava, o ciclo de sofrimento e destruição se reiniciava a cada dia. Esse mito inspirou a célebre tragédia “Prometeu Acorrentado”, escrita pelo poeta grego Ésquilo, no século V a.C.
Não seremos todos nós, com todos os nós, Prometeus acorrentados?
E quantas outras tragédias ainda estarão por ser escritas sobre os grandes heróis e mitos dessa nossa sociedade do espetáculo?
Leia o poema “Prometeu” no post abaixo.
Mais que poeta, você é um pensador. A Carol faz um pequeno comentário no Whatsup e você o transforma em pensamento, associa… Por isso que ti doro! e te admiro!
pai no maximo do trocadilho infame, vc prometeu e cumpriu hahhaha mas esse poema é demais! faz jus ao mito mas acho mais sensacional tb.. t amo e livestrong
A saga dos titãs tão belos. Perfeitos na mitologia grega.
Comparto com vc a pena dos semideuses atuais. Para onde irão tão resolutos de cobranças externas?
PS: também me encanta Prometeu e sua latente humanidade. bjs
Lúcida Lúcia, sempre é muito bom, e refloresce, quando você aparece…
Muitos atletas, especialmente jogadores de futebol (alguns dele conhecidos, daqui mesmo, não vamos citar nomes) que atuaram há cerca de trinta anos, época em que se usava habitualmente o dopping através do extinto Glucoenergan (até eu…), manifestam agora efeitos hepáticos derivados desse uso, em alguns casos com consequências letais, que se confundem com o uso de álcool, mas na verdade são devidos aos resquícios desse medicamento, por impregnação residual, assintomática. Isso é objeto de estudo científico e têm sido registrados casos recorrentes.
Conversamos sobre isso há pouco tempo, não é Brenno?
Aliás, você é que me contou sobre a enfermidade dos jogadores e o estudo científico.
Se não estou enganado, o “Glucoenergan” era muito receitado para aumentar a disposição de mulheres grávidas, imagine só…
Lendo todas as façanhas, glórias e desenganos, tenho de aplicar um bordão muito usado por um querido amigo, também escritor e dos bons (Edson Marques), que considero aplicável a todas ou quase todas as colocações: …”É A VIDA!…” Beijos e carinhos
De um jeito ou de outro somos atletas a driblar – ou não – os obstáculos da vida, Antonio. Uns têm voz, outros violão, outros pé no chão…