
Os que costumam orbitar por aqui certamente já conhecem e admiram Selma Couri Barcellos pelos seus comentários deliciosos, pela sua sensibilidade e cultura, por sua delicadeza e irradiante luz.
Agora essa luz passará a aquecer e rebrilhar esta Estrela com intensidade ainda maior, pois consegui convencê-la (quase obrigá-la) a se tornar colaboradora permanente do blog.
Conhecemo-nos pela internet, no Bloghetto da Maria Helena, do qual, após o encerramento, ela e o blog que mantinha havia algum tempo tornaram-se os únicos sucessores possíveis, com a benção da própria Maria Helena.
Desde o primeiro encontro, muitas têm sido nossas conversas, trocas e parcerias, afinidades surpreendentes e complementares.
É ela a minha Estrela Binária, que doravante passamos a dividir e reduplicar.
Assim, singelamente, ela se apresenta no seu adorável Bloghetto:
“Fui menina em Niterói (RJ), cidade à beira-mar plantada.
Desde sempre me fascinou a palavra, a redação a partir daquelas imensas e coloridas gravuras postadas à frente da classe (ainda as guardo, todas, na retina e na memória), a leitura do texto pronto em voz alta…
Moleca ainda, mal chegavam as visitas, vestia correndo a bailarina e recitava poesias. A bem da verdade, algumas visitas nunca mais voltavam, mas eu ficava em estado de graça…
Formei-me em Jornalismo e Relações Públicas pela PUC/RJ e UnB/DF.
Porém, seguindo um pensamento de Confúcio, escolhi um trabalho que amei. E não precisei trabalhar um só dia de minha vida.
Sim, exerci o magistério por mais de 25 anos. Por puro prazer, de forma apaixonada, respirando poesia porque lidei com crianças, criaturas poéticas em sua essência, viajando e acreditando na força encantatória e transformadora da palavra.
Em 2004, fui agraciada com o 1º lugar no Concurso de Redação para Professores da Academia Brasileira de Letras e do jornal Folha Dirigida. O tema, sugerido pelo poeta Ivan Junqueira, então presidente da ABL, foi “Por que Poesia em tempos de indigência?”.
Atualmente, enquanto aguardo os netos que me darão os dois filhos, seres adoráveis, tão diversos quanto únicos, escrevo crônicas, ensaios, poemas, pinto quadros…
E agora, com este blog, irei partilhar memórias, experiências, reflexões.
Vem comigo?”
Vamos todos…
Por que Poesia em tempos de indigência?
“Repetir, repetir – até ficar diferente.”
(Manoel de Barros)
Porque precisamos, mais que nunca, de lirismo que é libertação, delírio do verbo. De tocar tango argentino e dançar sobre um palco iluminado até o sapato pedir pra parar. De ser gauche na vida e ouvir estrelas, que felicidade aparece mesmo é em horinhas de descuido.
Porque temos visto demais o beco. E no meio do caminho, pedras. E rostos assim tristes, assim magros, olhos tão vazios. Temos tido febre, dispnéia, suores noturnos. Diante de nossas retinas fatigadas, o horizonte é apenas o da fotografia na parede. Isso dói. Navegar é preciso e nosso barco, estranho barco, navega a remo, a dor de braço; de vela é rico, de vento é escasso.
Porque nos têm sufocado a mediocridade pachorrenta; a miopia displicente das elites, mudas telepáticas; o vazio absoluto das ideias, falácias que não sabem de rima, nem de solução.
Porque José nunca tivera querido dizer palavras tão loucas a sua Fulô. Mas a mão que afaga também apedreja. E agora José, sem carinho, em total solidão, fim de quem ama, vai viver da poesia que entorna no chão, inventar o cais, se lançar. Ainda que o Tejo não seja o rio de sua aldeia. O resto é mar.
Porque é mentira que basta de lero-lero, vida noves fora zero e um dia estaremos mudos – mais nada. A alquimia do verbo sempre irá nos lembrar de nunca morrer assim, num dia assim, de um sol assim! Pois para isso fomos feitos: para a esperança no milagre, para vermos a face da morte e, de repente, nunca mais esperarmos. Apenas nascermos, imensamente. E, na medida do impossível, renascermos. A cada dia, Fênix. A cada dia. Vida é para ser reinventada.
Assim, que poesia é voar fora da asa, migrando ao sabor dos voos e vertigens das redondilhas, pedirei à cotovia que leve aos céus este avigrama redentor:
Senhor, poupai os poetas! Eles abriram janelas, salvaram afogados. Teceram as palavras em poesia, oráculo pelo qual rompestes Vosso silêncio. Deixai que flutuem para o Amanhã, livres de correntes, remidas, suas almas nuas!
Em tempos de carências, bem-vinda a poesia, louvados os magos-poetas que nutrem nosso espírito e nos afagam os sentidos. Jamais seres acima do bem e do mal. Tampouco o novo homem. Apenas vetores de sentimentos, emoções e ideias e por isso mesmo, de mudanças onde toda indigência se dilui.
Seja-lhes sempre fontana a inspiração, pois daqueles a quem deu o dom de conceber ideias ou emoções especiais e exprimi-las de forma estética, parece claro que Deus espera algo. Quem dá os meios, dá a missão.
“Não me acorde, se estou sonhando” ─ disse Dom Quixote, o maior dos sonhadores, ensinando-nos que a utopia, da qual nasce a esperança, é parte da condição humana, assim como transcender, superar ou modificar essa mesma condição é necessidade indispensável ao homem, justo porque essa condição é imanente.
A cada um de nós é dado ver as coisas como são e perguntar-nos: por quê? E sonhar como as queremos ver e perguntar-nos: por que não?- refletiu Bernard Shaw.
Assim também, em tempos tais que vivemos, sejam abençoados os magos-professores, esses desdobráveis de pés no chão e olhos nas estrelas, a quem cabe o cotidiano desafio de soltar amarras, romper margens, dissipar sombras e conduzir barcos a ultramares onde a Educação, plasmada em novo código genético, há de diluir indigências e tecer mais luminosas manhãs.