Posts from outubro, 2012

Canção do dia de ontem

 

 

A poesia de Selma Barcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

(by Dennis Stock)

 

 

 

                                  Deste cais

                                  De revoos

                                  E migração

                                  Dos sonhos,

                                  Sob sol e azul

                                                  Em deslimite,

                                  O poema,

                                                   Em vertigens,

                                  Insiste.

 

 

                                  Anoiteço ali,

                                                  Em silêncio,

                                  Alumiando candeias.

                                  Ainda

                                  À espera

                                  De que versos

                                  Jorrem-me das veias

                                  E celebrem esta ânsia como finda.

 

 

Itacoatiara, primavera de 2011

 

 

 

 

A certeza absoluta

 

 

 

 

 Uma das coisas de que mais tenho saudade da minha infância é da certeza absoluta.

Eu tinha certeza, enquanto colecionava os pôsteres do New Kids on the Block, que o Jordan gostava de mim. Eu sabia que do outro lado do mundo (não sabia nem de  que lado), ele pensava em mim telepaticamente. Não importava a nossa diferença de quase 15 anos de idade, nem o fato de eu não falar inglês e ele ser o maior astro da cultura pop da época.

Quando alguém me perguntava com quantos anos eu queria casar, respondia num relance: 24. A amiga fazia um quadradinho envolta, perguntava o nome de três pretendentes e de três lugares onde eu queria passar a lua de mel (lua de mel?). Eu respondia coerentemente Estados Unidos, Guarujá e Istambul. Em cima, ela colocava 1,2,3 (número de filhos) e ao lado R,P,M (Rica, Pobre ou Milionária). A partir da idade citada, ela ía eliminando os nomes e as possibilidades. Apesar de sempre torcer para ser milionária, eu nem me importava muito com os resultados. O importante é que naquele pedaço de papel estava um decreto, uma certeza absoluta: me casaria com o X, passaria a lua-de-mel em X, teria X filhos. Era um alívio ter aquela certeza aos 11 anos.

 

 

 

 

Na época a AIDS era avassaladora. Depois do dono da floricultura, levou Cazuza e Renato Russo. Era o pior diagnóstico que alguém poderia ter. Tranquei-me dias na casa da Kel tentando descobrir a cura. Ao bebermos água na talha (filtro de barro, tá gente?) tivemos a certeza absoluta de encontrar a solução: tiraríamos o sangue todo do corpo do doente e colocaríamos litros e litros de sangue novo. Kel também tinha a certeza absoluta de que seríamos alquimistas quando crescêssemos.

Minha certeza era tão absoluta que uma vez peguei o Opala Comodoro escondido do meu pai e bati a lateral inteira. Para disfarçar, colei lama na lataria do carro e achei que ele nunca veria!

E aí um dia o pai vê, no outro você se estrepa, no seguinte toma um chute na bunda e depois do quinto ou sexto tombo vê que cresceu e que nenhuma certeza é absoluta.

 

Bell Gama

Outubro 2012

 

 

(Dedico esse texto a Kel, amiga que me deixou um recado lindo no Facebook nesta semana. Depois de ler, tive a certeza que mesmo sem nos vermos há décadas, nossas lembranças são absolutas)

 

 

Parceria em foco

 

 

 

 

 

 

 

Ele é bem mais velho do que eu.

Nasceu no mês de agosto de um longínquo ano…

Eu, no mês de novembro!

Natural, pois, que a catarata o pegasse primeiro (se bem que a dele foi causada por uma pancada que sofreu).

Mas isso pouco importa. 

O que importa (com ou sem catarata) é que desde os verdes anos observamos as mesmas estrelas, ainda que de navios diferentes (com sua licença, Aldir).

 

 

 

Em homenagem aos seus novos focos,

permita-me que lhe dedique novamente

esses flocos

de poesia:

 

 

                                      DEJÀ-VU

 

 

                                    De olho no olho que não vê

                                    já vejo tudo.

                                   Como um dejà-vu constante,

                                   tenho registrado cada instante

                                   de um tempo antecedente,

                                   quase oculto,

                                   por detrás das cataratas

                                   e das corredeiras.

                                   Onde ordeiras baratas

                                    e satânicos colibris

                                    faziam seu festim macabro…

                                    acabo já-já com esse passado!

                                    levado embora

                                   pela impávida aspiração

                                   que seca a neblina,

                                   que embaça a nitidez

                                   da paisagem cristalina.

 

                                    Mas as cortinas já se abrem

                                   para o segundo ato

                                   e o fato se submete

                                   ao enredo teatral.

 

                                   E a verdade aparece na revista

                                   mesmo vista

                                   com olho artificial.

 

 

(mas um pouco de miopia é bom, porque permite não se ver as coisas como de fato são…

 e deixa ver outras como gostaríamos que fossem. Lembra?)

 

                                                                                                                                                                                       Brenno Augusto Spinelli Martins

 

 

 

 

 

 

 

Desfocado

 

 

 

 

 

 

            Nunca antes na história deste país houve tanta gente focada.

            Os jogadores de futebol, nem se diga. Além do “grupo fechado”, estão sempre focados no próximo jogo, no campeonato, na busca da classificação e do título de campeão, na convocação para a seleção. Mas, como se sabe, o futebol é uma caixinha de surpresas, algumas vezes se ganha, outras, não.

            Os jornalistas e repórteres também estão sempre focados, mesmo aqueles que já não são focas. Focados na matéria que publicarão, na investigação e no furo que darão, na pauta que haverão de cumprir para satisfação do patrão.

            O povo em geral vive focado em sobreviver, ganhar a cada dia o pão, no mensalão e na eleição (menos), na Carminha e no Tufão, no Mengão e no Curingão (muito mais).

            Pagodeiros e sertanejos universitários (seja lá o que isso signifique), de cavaco e violão na mão, focam no CD ou DVD que lançarão, na próxima apresentação, no sucesso da canção, no Domingão do Faustão. 

            Políticos e governantes nunca perdem o foco em construir uma grande nação, combater a corrupção, acabar com a inflação, melhorar o transporte, a segurança, saúde e educação.

            Pastores e bispos, de sacolinha na mão, focam na salvação, nos demônios que expulsarão, nos templos que edificarão, no novo canal de televisão que comprarão ou ganharão.

            Eu, da minha parte, se não desde que nasci, mas assim que me tornei petiz, tenho sido um desfocado na vida, de óculos no nariz, que nunca sabia onde pôr.

            Depois de muito tropeção, um oculista de devoção, desses que nos tiram da sombra, de uma só cajadada me livrou da catarata e corrigiu a visão: “Vai, Antonio! ser focado na vida”.

            Não chega a ser um homônimo. Nem sei se será uma solução.

 

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=UqtfjsvrptI[/youtube]

 

 

 

Românticos em alta

 

 

 

 

 

 

 

      Selma Barcellos

Leio que os homens não estão apenas mais românticos, como andam desejando plateia para suas declarações de amor e pedidos de casamento.

Veríssimo. Nas redes sociais, nas novelas ou aqui mesmo, na rua mais movimentada de Icaraí, o apaixonado chegou numa Kombi pink cheia de balões coloridos, e depois daquela clássica do Wando, do hino do Flamengo (na voz de João Bosco!) e do foguetório, declarou-se em vários decibéis. Pena que a moça, uma atendente da loja, ficou envergonhada e se trancou no provador. Não houve jeito de convencê-la que lá fora poderia estar o amor de sua vida. Tentamos. “SUENEIDE, TE AMOOOO!” , gritava ele no megafone. Soube depois que ela não gostava do nome e ouvi-lo assim amplificado, complicou.

E no cinema? O rapaz ficou na fila da pipoca e a namorada foi guardar lugar. Quando ele finalmente entrou, luzes já apagadas, nem titubeou: – Gildinha, cadê você? Levanta a mão, aê! Tá com vergonha que eu tô falando alto, né? Eu amo essa mulher, gente! Aplaudidíssimo. Ri a sessão inteirinha.

Merecemos. Somos desde sempre tão românticas, concessivas… Lirismo puro ouvir minha manicure cortar o papo sobre abdômen ‘tanquinho’ : – Homem tem que ter uma barriguinha pra gente dormir de conchinha e ela se encaixar na nossa lordose… O côncavo e o convexo, meninas… Sabe tudo.

Os galanteios também evoluíram muito, convenhamos. “Não é placa, mas para o trânsito…” , “Você deve ser dentista, deixa todo mundo de boca aberta…” , “Ana Graça? Mas isso não é nome, é pleonasmo…” Só saber o que é pleonasmo já é meio caminho andado.

O que não vale é exagerar, ficar temático demais. Porque eram fazendeiros, precisava a declaração ser feita com feno e… estrume? Manda pastar.

Mas o que importa é o que interessa. É lindo o amor.

 

 

Post e música dedicados a Sueneide. Saudade dela

 

 

 

 

Nota da Redação: Não deixem de clicar no link acima “Manda pastar”, que leva ao post das declarações de amor referidas pela nossa estimada colaboradora.

 

 

Há de haver algum lugar

 

 

 

 

 

 

Estou abandonando aos poucos a minha velha conta de e-mail (acgama@netsite.com.br) por outra, mais moderna e eficiente (antonicogama@gmail.com). Valho-me do ensejo para pedir aos distintos amigos e leitores que passem a usar esta última para se comunicar comigo.

Sou apegado às minhas coisas, não por avareza, mas por razões outras, sentimentais. Avareza sentimental, talvez.

Aquela velha conta foi a minha primeira, e a gente nunca se esquece da primeira, seja lá o que for. Para o bem e para o mal.

Como as mensagens que recebo estão sendo encaminhadas automaticamente para a nova conta, esqueço-me com frequência de acessar a velha (sem malícia, por favor) e limpá-la do que já não interessa, ou nunca interessou.

É um martírio. Outro dia havia mais de duas mil mensagens esquecidas, a grande maioria propagandas de toda espécie, pps edificantes ou metidos a engraçados, correntes ameaçadoras caso sejam quebradas e outras chateações do gênero.

Passei um tempo enorme deletando tudo.

Enquanto me dedicava a essa operação de extermínio, com a frieza pragmática de um Capitão Nascimento, súbito o coração sentimentaloide me falou mais alto: “Para aonde vão essas pobres palavrinhas e imagens desprezadas?” 

O universo cibernético continua para mim um mistério tão insondável e profundo quanto o universo propriamente dito. Quem sabe mais intrincado ainda.

Os dois, por exemplo, têm “nuvens”, mas as do universo celeste eu posso ver, quase tocá-las quando viajo de avião (outro absurdo de lata que avoa que nem passarinho), e de vez em quando até me despejam água na cabeça para me despertar das minhas tontices.  Já as nuvens do ciberespaço não tenho a mínima ideia de como são, onde ficam e o que fazem.

Quando os seres físicos morremos, nossas almas vão para o céu, inferno, purgatório ― se cremos ― ou simplesmente nos decompomos, somos consumidos por outros seres e viramos pó ― se cremos apenas naquela outra entidade mítica, a Ciência.

E no mundo cibernético? 

O que acontece com as palavras e imagens desterradas?

Haverá um cemitério para elas, ou uma espécie de máquina fragmentadora virtual para torná-las pedacinhos coloridos de saudade?

Ou elas pairam eternamente por aí como almas penadas, até que um cracker as incorpore tal um pai de santo num terreiro de umbanda?

Saravá!

 

 

 

Por que Poesia em tempos de indigência?

 

 

 

 

 

Os que costumam orbitar por aqui certamente já conhecem e admiram Selma Couri Barcellos pelos seus comentários deliciosos, pela sua sensibilidade e cultura, por sua delicadeza e irradiante luz.

Agora essa luz passará a aquecer e rebrilhar esta Estrela com intensidade ainda maior, pois consegui convencê-la (quase obrigá-la) a se tornar colaboradora permanente do blog.

Conhecemo-nos pela internet, no Bloghetto da Maria Helena, do qual, após o encerramento, ela e o blog que mantinha havia algum tempo tornaram-se os únicos sucessores possíveis, com a benção da própria Maria Helena. 

Desde o primeiro encontro, muitas têm sido nossas conversas, trocas e parcerias, afinidades surpreendentes e complementares.

É ela a minha Estrela Binária, que doravante passamos a dividir e reduplicar.

Assim, singelamente, ela se apresenta no seu adorável Bloghetto:

 

 

“Fui menina em  Niterói (RJ), cidade à beira-mar plantada.

Desde sempre me fascinou a palavra, a redação a partir daquelas imensas e coloridas gravuras postadas à frente da classe (ainda as guardo, todas, na retina e na memória), a leitura do texto pronto em voz alta…

Moleca ainda, mal chegavam as visitas,  vestia correndo a bailarina e recitava poesias. A bem da verdade,  algumas visitas nunca mais voltavam, mas eu ficava em estado de graça…

Formei-me em Jornalismo e Relações Públicas pela PUC/RJ e UnB/DF.

Porém, seguindo um pensamento de Confúcio, escolhi um trabalho que amei. E não precisei trabalhar um só dia de minha vida.

Sim, exerci o magistério por mais de 25 anos.  Por puro prazer, de forma apaixonada, respirando poesia porque lidei com crianças, criaturas poéticas em sua essência, viajando e acreditando na força encantatória e transformadora da palavra.

Em 2004, fui agraciada com o 1º lugar no Concurso de Redação para Professores da Academia Brasileira de Letras e do jornal Folha Dirigida. O tema, sugerido pelo poeta Ivan Junqueira, então presidente da ABL, foi “Por que Poesia em tempos de indigência?”.

Atualmente, enquanto aguardo os netos que me darão os dois filhos, seres adoráveis, tão diversos quanto únicos, escrevo crônicas, ensaios, poemas, pinto quadros…

E agora, com este blog, irei partilhar memórias, experiências, reflexões.

Vem comigo?”

 

 

Vamos todos…

 

 

 

Por que Poesia em tempos de indigência?

 

 

“Repetir, repetir – até ficar diferente.”

(Manoel de Barros)

 

 

Porque precisamos, mais que nunca, de lirismo que é libertação, delírio do verbo. De tocar tango argentino e dançar sobre um palco iluminado até o sapato pedir pra parar. De ser gauche na vida e ouvir estrelas, que felicidade aparece mesmo é em horinhas de descuido.

Porque temos visto demais o beco. E no meio do caminho, pedras. E rostos assim tristes, assim magros, olhos tão vazios. Temos tido febre, dispnéia, suores noturnos. Diante de nossas retinas fatigadas, o horizonte é apenas o da fotografia na parede. Isso dói. Navegar é preciso e nosso barco, estranho barco, navega a remo, a dor de braço; de vela é rico, de vento é escasso.

Porque nos têm sufocado a mediocridade pachorrenta; a miopia displicente das elites, mudas telepáticas; o vazio absoluto das ideias, falácias que não sabem de rima, nem de solução.

Porque José nunca tivera querido dizer palavras tão loucas a sua Fulô. Mas a mão que afaga também apedreja. E agora José, sem carinho, em total solidão, fim de quem ama, vai viver da poesia que entorna no chão, inventar o cais, se lançar. Ainda que o Tejo não seja o rio de sua aldeia. O resto é mar.

Porque é mentira que basta de lero-lero, vida noves fora zero e um dia estaremos mudos – mais nada. A alquimia do verbo sempre irá nos lembrar de nunca morrer assim, num dia assim, de um sol assim! Pois para isso fomos feitos: para a esperança no milagre, para vermos a face da morte e, de repente, nunca mais esperarmos. Apenas nascermos, imensamente. E, na medida do impossível, renascermos. A cada dia, Fênix. A cada dia. Vida é para ser reinventada.

Assim, que poesia é voar fora da asa, migrando ao sabor dos voos e vertigens das redondilhas, pedirei à cotovia que leve aos céus este avigrama redentor:

Senhor, poupai os poetas! Eles abriram janelas, salvaram afogados. Teceram as palavras em poesia, oráculo pelo qual rompestes Vosso silêncio. Deixai que flutuem para o Amanhã, livres de correntes, remidas, suas almas nuas!

Em tempos de carências, bem-vinda a poesia, louvados os magos-poetas que nutrem nosso espírito e nos afagam os sentidos. Jamais seres acima do bem e do mal. Tampouco o novo homem. Apenas vetores de sentimentos, emoções e ideias e por isso mesmo, de mudanças onde toda indigência se dilui.

Seja-lhes sempre fontana a inspiração, pois daqueles a quem deu o dom de conceber ideias ou emoções especiais e exprimi-las de forma estética, parece claro que Deus espera algo. Quem dá os meios, dá a missão. 

“Não me acorde, se estou sonhando” ─ disse Dom Quixote, o maior dos sonhadores, ensinando-nos que a utopia, da qual nasce a esperança, é parte da condição humana, assim como transcender, superar ou modificar essa mesma condição é necessidade indispensável ao homem, justo porque essa condição é imanente.

A cada um de nós é dado ver as coisas como são e perguntar-nos: por quê? E sonhar como as queremos ver e perguntar-nos: por que não?- refletiu Bernard Shaw.

Assim também, em tempos tais que vivemos, sejam abençoados os magos-professores, esses desdobráveis de pés no chão e olhos nas estrelas, a quem cabe o cotidiano desafio de soltar amarras, romper margens, dissipar sombras e conduzir barcos a ultramares onde a Educação, plasmada em novo código genético, há de diluir indigências e tecer mais luminosas manhãs.