O dito pelo não dito

 

       Annibal Augusto Gama

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Ulisses estava compromissado com Maria Amélia, e até já se marcara a data para o casamento. Mas, um mês antes, ela lhe disse, devolvendo-lhe a aliança retirada do anular da mão direita: “Cheguei à conclusão de não quero me casar. Você me desculpe, mas está rompido o nosso compromisso”.

Ele também retirou a sua aliança do dedo e, cheio de decepção, mas mantendo o seu orgulho masculino, foi embora.

Não se tornou um ébrio e na bebida não buscou esquecer. Dedicou-se com furor ao trabalho, aos empreendimentos e, dois anos depois, estava rico, muito rico.

Via Maria Amélia nas ruas, de vez em quando, mas não lhe tirava o chapéu, porque não o usava. Disputado desde então por outras moças casadoiras, rejeitava a todas com delicadeza. Ia ao bordel da Ambrosina duas vezes por semana, e preferia as putas. Com elas, paga-se e vai-se embora.

Sua mãe, que o criara com mimo, dizia-lhe: “Você precisa casar-se, para assentar a cabeça. Principalmente agora, que está rico. Tire da cabeça aquela Maria Amélia” 

Ambos permaneceram solteiros.

Quando lhe informaram que Maria Amélia estava doente, muito doente, e talvez desenganada, ficou abalado. Deveria visitá-la?

Afinal resolveu ir à casa dela. Achou-a quase deitada numa poltrona de inclinar, muito pálida, os olhos fundos, magra, e embrulhada numa manta grossa. Ela tinha então trinta e dois anos e ele chegava aos quarenta.

— Que é isso? Trate de se curar, você ainda tem muitos anos pela frente.

Ela sorriu e abanou a cabeça.

— E você, por que ainda não se casou? — ela quis saber.

— Acho que tenho vocação para celibatário.. 

Ela tornou a sorrir e fez-lhe outra pergunta inesperada:

— Ainda guarda as alianças?

Ele ficou vermelho e encabulado. Sim, guardava o par de alianças no bolso, desde aquele remoto rompimento.

 — Deixe-me ver. 

Ulisses retirou as alianças do bolsinho do paletó. Maria Amélia enfiou uma delas no anular da mão esquerda, e a outra no mesmo dedo dele. 

— Agora estamos casados, até que a morte nos separe…

Não foi preciso padre para formalizar o casamento. Isto é, o padre veio alguns dias depois para dar a extrema unção a Maria Amélia.

E assim, viúvo sem ser viúvo, Ulisses permaneceu sozinho pelo resto de sua existência. E mandou erguer, no túmulo de Maria Amélia, um anjo de asas abertas, prestes a alçar voo.

 

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3 comentários

  1. 13/05/13 at 15:40

    Armação de uma menina da Ambrosina. Duas vezes por semana, ela lhe cantarolava ao pé do ouvido: “Ulice, eu sempre lhe disse, amar é tolice, é bobagem, ilusão…” 
    Levou fé.
     
    Desperdício, né, Dr. Annibal?
     
    Beijocas!
     

  2. André
    13/05/13 at 21:17

    Como sempre, Dr. Annibal escreveu uma excelente crônica, que adorei da primeira à última linha. O título me fez até lembrar da música Pois é, de Tom e Chico:
     
    “Pois é
    Fica o dito e redito por não dito
    E é difícil dizer que ainda é bonito
    Cantar o que me restou de ti (É inútli cantar o que perdi)
    (…)”
     
    Abraçaço.

  3. Célia Soares
    14/05/13 at 15:45

    Guarda as alianças
    Guarda as lembranças
    Guarda a vida

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