“Core ‘Ngrato” (Salvatore Cardillo)
com Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=OogmLUJZVqI[/youtube]
“Core ‘Ngrato” (Salvatore Cardillo)
com Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=OogmLUJZVqI[/youtube]
Selma Barcellos
Era tarde quando se levantou da poltrona favorita. Assistira a um belo filme francês, cuja trilha incluía Core ‘Ngrato, música que adora, lera um pouco, recostara-se entregue a borboletas.
Interessante é que nunca saía dela sem uma grande decisão. Como agora, quando resolvera aproveitar o silêncio da casa, todos dormiam, e preparar crepes árabes de nozes e amêndoas para o café da manhã, receita com que o pai beirava o divino, e ela sempre errava a mão.
Quem sabe acertaria assim, à noite, na companhia de Chopin, das boxers, dos fantasmas amigos a olharem-na de soslaio…
Enquanto media o fermento, recordava a história daquela poltrona que atravessava décadas, mudanças, reformas, cores tantas, sem jamais ser mero objeto de cenário, mas palco de uma vida, no centro de um feixe de luz.
No primeiro ato, seus pais escolhem o melhor lugar para colocá-la na casa nova, a pequena bailarina dança sobre o forro de veludo (um pito) ou se esconde dos irmãos espremida entre o encosto e a parede (mais pito); a mãe se acomoda para ouvir suas sonatas ao piano; namora nela, e uma noite vê o galã levantar-se com uma caixinha nas mãos e um pedido no céu da boca…
Segundo ato, a jovem mãe ali amamenta os meninos, corrige provas e inventa palavras de encantar criança; sente o tempo mudar com as marés, as gaivotas e a floração dos jasmins; recosta-se e chora um tantinho com saudade dos rapazes, que foram morar fora, e – hélas – abraça a mãe idosa, memória ausente, sentadinha à espera de proteção.
Para o próximo ato, em pleno ensaio, antevê a vó palhaça, feita de gato e sapato (sem pitos), contando histórias para os netos na bagunça do seu coração.
Os crepes ficaram deliciosos. Quase os ‘verdadeiros’, disseram.
Pena que quando se acerta na vida o ponto do doce, tantos já não estejam mais ali para saboreá-lo conosco… – pensou enquanto observava o fio da calda de flor de laranjeira que, lentamente, vertia no prato.