Selma Barcellos
Era tarde quando se levantou da poltrona favorita. Assistira a um belo filme francês, cuja trilha incluía Core ‘Ngrato, música que adora, lera um pouco, recostara-se entregue a borboletas.
Interessante é que nunca saía dela sem uma grande decisão. Como agora, quando resolvera aproveitar o silêncio da casa, todos dormiam, e preparar crepes árabes de nozes e amêndoas para o café da manhã, receita com que o pai beirava o divino, e ela sempre errava a mão.
Quem sabe acertaria assim, à noite, na companhia de Chopin, das boxers, dos fantasmas amigos a olharem-na de soslaio…
Enquanto media o fermento, recordava a história daquela poltrona que atravessava décadas, mudanças, reformas, cores tantas, sem jamais ser mero objeto de cenário, mas palco de uma vida, no centro de um feixe de luz.
No primeiro ato, seus pais escolhem o melhor lugar para colocá-la na casa nova, a pequena bailarina dança sobre o forro de veludo (um pito) ou se esconde dos irmãos espremida entre o encosto e a parede (mais pito); a mãe se acomoda para ouvir suas sonatas ao piano; namora nela, e uma noite vê o galã levantar-se com uma caixinha nas mãos e um pedido no céu da boca…
Segundo ato, a jovem mãe ali amamenta os meninos, corrige provas e inventa palavras de encantar criança; sente o tempo mudar com as marés, as gaivotas e a floração dos jasmins; recosta-se e chora um tantinho com saudade dos rapazes, que foram morar fora, e – hélas – abraça a mãe idosa, memória ausente, sentadinha à espera de proteção.
Para o próximo ato, em pleno ensaio, antevê a vó palhaça, feita de gato e sapato (sem pitos), contando histórias para os netos na bagunça do seu coração.
Os crepes ficaram deliciosos. Quase os ‘verdadeiros’, disseram.
Pena que quando se acerta na vida o ponto do doce, tantos já não estejam mais ali para saboreá-lo conosco… – pensou enquanto observava o fio da calda de flor de laranjeira que, lentamente, vertia no prato.
Que lindo… que esbanjamento de ternura!
No fio da calda
o fio da meada
a vida revelada
velando a insônia
da perene poltrona
Poeta Brenno, em cinco versos, a crônica…
Vou pintá-los à mão no pano rústico que recobre (e protege) a “perene poltrona”.
Beijocas!
Selminha, fui capturado pela beleza do seu relato desde a primeira frase, enredando-me cada vez mais ao longo de cada ato da narrativa, até acabar absoluta e docemente enlevado com o fecho, a ver e sentir o aroma do “fio da calda de flor de laranjeira que, lentamente, vertia no prato”.
Você acertou não apenas no ponto do doce, e que bom que estejamos aqui para saborear desta crônica de sua vida com você.
Beijocas caudalosas.
Antonio, doce é você.
Beijocas!
P.S.: Amei o intervalo para a pipoca entre um ato e outro!
Na poltrona da minha vida
Nesse livro dou uma lida
Deixo de lado o meu cansaço
E vou correr para o abraço
Da pessoa que amo:
Nesse momento tudo eu espero
Porque isso é o que eu mais quero
E nesse instante de nada reclamo…
Beijocas, Selma!
André, ler você também é correr para o abraço. Vai-se o cansaço…
Beijocas!
Linda crônica Selma!
A reconstrução do tempo na sólida cadeira habitada de tanta vida!
bjs, minha querida.
Lúcia, o que dizer então daquela sua rua de poesia…
Obrigada pela apreciação carinhosa.
Beijocas!