“Acontece” (Cartola), com ele
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=7oUdRG0lrBU&hd=1[/youtube]
Adalberto de Oliveira Souza
ACONTECIMENTO
Só o inesperado ocorre,
canastra de surpresas.
O previsível é uma ilusão,
canastra de enganos.
Inútil desejar,
atroz carícia
Inútil.
O mundo caminha
rematando calúnias e possibilidades.
Somos sem dúvida uma peça
desmascarada e caprichosa
dessa grande máquina e
dela não se sabe o vil calendário
que a move.
Participamos
vislumbrando miragens
avidamente
quase sempre.
“A foggy day” (George / Ira Gershwin), com Fred Astaire
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=QbgyZzJ7Oig[/youtube]
Annibal Augusto Gama
Quando vier o inverno, teremos possivelmente alguns dias e algumas noites de bruma. A bruma não apenas esconde as pessoas, transformando-as em vultos, mas também desfaz as arestas, deixando quase tudo sem contorno. Suponho que os mortos, durante algum tempo, vivam dentro da bruma, esbarrando-se uns nos outros, a perguntarem: Onde estou? Qual é o caminho? Tanto quanto nós outros, ainda vivos, que fazemos as mesmas perguntas. Mas, nas quatro estações, vivemos antes dentro da broma. Somos permanentemente embromados, e também embromamos. Os dicionários definem primeiramente “broma” como “inseto ou verme que rói a madeira”. Só ao fim do verbete é que definem “broma” como “gracejo, chalaça, troça”.
Na broma, neste último sentido, vivemos, passa ano entra ano, neste país das arábias. É a broma geral dos políticos, dos governantes, dos comerciantes, dos publicitários. A broma também e principalmente que toma o significado de trapaça, de engodo, de tapeação. E a broma rói, como o inseto ou verme.
Que são afinal essas cúpulas em que se reúnem periodicamente os governantes dos muitos paises, os economistas, os planejadores? Broma. Prometem auxiliar-se uns aos outros, a confraternizar-se, a acabar com as barreiras e as fronteiras, a diminuir os impostos, a trazer a felicidade para todos. Bromas. Tudo continua e continuará do mesmo jeito.
As eleições sucedem-se, e são as mesmas bromas. De vez em quando, alguns se irritam, e promovem as guerras, as revoluções. São outra espécie de broma
O homem é o animal que embroma. A mulher embroma o marido, e o marido embroma a mulher. As religiões e as seitas, não raro, também embromam. As utopias não passam de bromas.
Eis porque prefiro a bruma.
O APRENDIZ
Houve um tempo em que tudo era tão novo,
tão surpreendente, impressionante e aventuroso,
o clarão do sol, o luar, as estrelas frias,
o dia que sucedia à noite, os sons e as vozes
que às vezes se pareciam ou distinguiam,
o tesouro que se escondia do olho no fim do arco-íris,
as letras que pouco a pouco povoavam e se escreviam
em palavras e pensamentos que nele havia,
mas ainda não sabia.
“O poeta aprendiz” (Vinicius de Moraes / Toquinho), com Adriana Partimpim
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=GcwLeMiGF3g[/youtube]
“De amor e paz” (Luís Carlos Paraná / Adauto Santos), com Mart’Nália e Martinho da Vila
[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=e9aQ3NK2arI[/youtube]
Lúcia Dibo
nenhum pássaro voaria para outro lugar
e nada mudaria
a força estranha desses dias.
sei que não se passa impune pela beleza.
um vento que começa macio acaricia
os canaviais de outubro
gesta princípios de afagos
tuas mãos. minha fraqueza.
o amor é uma denúncia na casa
vazia a mover-se na tarde.
o amor sabe tão pouco voltar
como essa tempestade que se aproxima
onde as águas não chegam.
soubesse eu como se inventa
um outro nome
um outro corpo para as quatro da tarde
escrevo com o que de ti se perde
como já escrevi sobre terra arável
para não te esquecer.
abro mais uma das nossas garrafas de náufragos
cristal vermelho com tua itálica caligrafia
“vives só nessa terra de raios
tocando objetos pontiagudos
ensolarando palavras”
enfim me chega esse céu de chumbo
halo de águas com a marca do teu punho
as pessoas quando partem
não deveriam deixar seus fantasmas.
imagem: Koji Sekiguchi
“Vinho guardado” (Danilo Caymmi / Paulinho Tapajós), com Nana Caymmi
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=oJ0D2dRkZlU[/youtube]
LA GÉNESIS DE LA VENDIMIA
Desde la Cordillera, Afrodita exclama:
¨!Adornaré el piedemonte con viñedos,
Y tantos, que racimos, saltando los dedos
Sobre la tierra caerán como en derrame!”
Surge entonces Baco, y, ebrio, aterra:
¨Que sea, pero de las uvas, en mi honor,
Se haga el néctar más sabroso y embriagador
Bajo la línea de equinoccio de la Tierra! ¨
Venus se suma, y, vanidosa, dictamina:
¨!Que anime esa fertilidad y ese vino
La mujer bella y joven, cuál su endorfina!¨.
¨Amén, – dice la Virgen de la Carrodilla-
¡Pues ante el Poder Supremo del Divino,
Lo fértil, bello, el vino – todo se arrodilla!¨
Sergio Couri
Mendoza, enero 2014
Nota da Redação: Sergio Couri, poeta e diplomata, como Vinicius de Moraes ─ cuja cadeira na Academia de Letras de Brasília ocupa e honra ─ é autor de diversos livros, entre os quais “Timós” (Editora 7 Letras), que reúne as obras “O vento e a vela”, “Luz e sombra” e “Pós-poesia”. Nascido em Niterói, estado do Rio de Janeiro, tornou-se cidadão do mundo não apenas em virtude da sua carreira diplomática, mas sobretudo pela virtude do poeta que se abre à vida e às pessoas de todos os cantos. Reside e trabalha atualmente em Mendoza, Argentina, onde se farta das belezas da vindima à borda da cordilheira. Após a colheita, bebemos nós dos seus versos e nos embriagamos de poesia. Não bastasse, é irmão de Selma Barcellos, levando-nos a concluir que o talento, pelo menos no caso, é genético.
“Inútil Paisagem” (Tom Jobim / Aloysio de Oliveira), com Paula & Jaques Morelenbaum & Ryuichi Sakamoto
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=HG8IIui-8A0[/youtube]