Posts from outubro, 2014

Bluebird

 

 

bluebird (Bukowski)

 

 

                                               o pássaro azul

 

(Charles Bukowski ─ Tradução: Pedro Gonzaga)

 

                                               há um pássaro azul em meu peito

                                               que quer sair

                                               mas sou duro demais com ele,

                                               eu digo, fique aí, não deixarei

                                                que ninguém o veja.

                                               há um pássaro azul em meu peito que

                                               quer sair

                                               mas eu despejo uísque sobre ele e inalo

                                               fumaça de cigarro

                                               e as putas e os atendentes dos bares

                                               e das mercearias

                                               nunca saberão que

                                               ele está

                                               lá dentro.

 

                                               há um pássaro azul em meu peito

                                               que quer sair

                                               mas sou duro demais com ele,

                                               eu digo,

                                               fique aí,

                                               quer acabar comigo?

                                               quer foder com minha

                                               escrita?

                                               quer arruinar a venda dos meus livros na

                                               Europa?

                                               há um pássaro azul em meu peito que

                                               quer sair

                                               mas sou bastante esperto, deixo que ele saia

                                               somente em algumas noites

                                               quando todos estão dormindo.

                                               eu digo: sei que você está aí,

                                               então não fique

                                               triste.

                                               depois, o coloco de volta em seu lugar,

                                               mas ele ainda canta um pouquinho

                                               lá dentro, não deixo que morra

                                               completamente

                                               e nós dormimos juntos

                                               assim

                                               como nosso pacto secreto

                                               e isto é bom o suficiente para

                                               fazer um homem

                                               chorar, mas eu não

                                               choro,

                                               e você?

 

 

 

 

Play it again, Sam!

 

 

Parafraseada pela Selminha no post abaixo, a frase “Play it again, Sam!”, talvez a mais lendária da História do Cinema, jamais foi dita, seja por Ingrid Bergman, seja por Humphrey Bogart, no cultuado “Casablanca”. Ilsa (Bergman) fala ao pianista: “Play it, Sam. Play As Time Goes By”. E depois, quando Rick (Bogart) manda que Sam toque também para ele a mesma música, diz: “You played it for her, you can play it for me.”

Nos idos de 70, Wood Allen escreveu o roteiro (a direção não é dele, mas de Herbert Ross) do filme “Play it again, Sam” (cujo indigente título em português é “Sonhos de um sedutor”), no qual interpreta um crítico de cinema que tem idolatria por “Casablanca e, depois de abandonado pela mulher, tenta conquistar a mulher do melhor amigo (Diane Keaton) seguindo os conselhos de um imaginário Humphrey Bogart. O filme é uma delícia! Vale dar um play again… Em “Casablanca” também!

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=zaAqze81y4Y

 

 

 

 

Click it again, Sam!

   

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lembra aquele restaurante aconchegante de mesa romântica à luz de velas, arranjo de flores, piano ao fundo, garçom discreto com os torpedos, dando sugestões, curvando-se com uma das mãos para trás e com a outra dando aquela giradinha na garrafa de vinho ao servi-lo? Acho que adeus…

Faz sucesso em Londres um restaurante que dispõe de sistema interativo em que o cardápio é projetado na mesa do cliente. A um simples toque dos dedos você faz o pedido – enviado à cozinha via Bluetooth – , muda a decoração e a iluminação da mesa conforme seu humor ou o estilo de quem o acompanha, joga uma partida de batalha naval (uau!) ou assiste aos bastidores da cozinha (nossa!), janta, pede a conta e ainda chama o táxi. Passa a noite apertando botão. Não é meigo?

Sinceramente, ainda que Richard Gere me convidasse para tão romântico momento… digital, eu o deletaria. Tudo bem, exagerei. Aperta F5.

Muita interferência tecnológica, gente. E começando tão cedo…

 

– Sam? Better forget this. 

 

 

 

Oui (Apparitions)

 

 

 

OUI (APPARITIONS)

 

 

Nicolas Sauvage

 

 

oui

c´est une fenêtre qui donne

sur une autre fenêtre qui donne

sur le dehors

animé

 

oui

devant cette frondaison qui monte

au ciel comme um Himalaya je suis

prêt pour mourir

 

oui

puis me tourner vers toi je suis prêt

à vivre et à

 donner

 

NO SILÊNCIO DOS CORPOS( A dança dos amantes - pintura de Jacqueline Klein)

 

 

 

SIM (APARIÇÕES)

 

 

Tradução de Adalberto de Oliveira Souza

 

 

sim

é uma janela que se volta

sobre outra janela que se volta

sobre o exterior

movimentado

 

sim

diante dessa folhagem que sobe

ao céu como um Himalaia eu estou

pronto para morrer

 

sim

depois de voltar-me para ti estou pronto

para viver e para

oferecer

 

 

 

 

Da arte de cobiçar a mulher do próximo

 

 Annibal Augusto Gama

Annibal e Pichorro 3

 

 

 

 

 

 

 

 

O Decálogo determina que não devemos cobiçar a mulher do próximo. Mas não estabelece qual é, em metros, ou quilômetros, a distância do próximo e da sua mulher. Suponho que, até uns trinta ou quarenta metros, estejam o próximo e sua mulher. A partir daí, a mulher não será mais do próximo, e você pode cobiçá-la.

E se o próximo mudar de casa? Se mudar de vizinhança? Então, você poderá não só cobiçá-la, mas também cortejá-la. Da mulher do distante, você poderá cobiçar à vontade.

Digamos que você é que muda para outro quarteirão. Neste caso, não há impedimento em cobiçar a mulher, seja de quem for.

Talvez seja porque, achando-se distante a mulher, você não pode vê-la, nem amá-la. Ora, você tem pernas, pode andar e aproximar-se da mulher que se acha a quinhentos metros de distância. Esta você pode cobiçar à vontade, que não há mal.

O único mal é que o marido da mulher distante seja feroz e esteja armado.

São questões muito complexas, essas de cobiçar ou não cobiçar a mulher do próximo. Além disso, o mundo se tornou muito pequeno, com os muitos meios de comunicação e tecnologia. Você pode cobiçar a mulher do próximo ou do distante através da internet, do telefone e dos e-mails. Ou através do sedex dos Correios.

Por que não haveria pecado em cobiçar a mulher do distante?

De outra parte, “a galinha do vizinho bota ovo amarelinho”, que são deliciosos.

E se for o próximo que cobice a sua mulher?

Comigo não, violão! Saia para a rua, pegue o próximo pelo colarinho, e lhe dê uns sopapos.

A arte de cobiçar a mulher do próximo tem muitas implicações.

Caso ela adira, vá em frente, mas com muito resguardo.

Como é que você poderia cobiçar uma mulher que more na Inglaterra, achando-se você no Brasil?

Só se for através de fotografias publicadas nas revistas e nos jornais. Ou se ela aparecer na televisão.

Eu, por exemplo, sempre amei Marilyn Monroe, apesar de que ela se manteve muito longe de mim. Assim também amei muitas outras mulheres.

Você até pode amar uma mulher que nunca viu, mas imagina, com as suas fantasias.

Sem dúvida, o próximo é um sujeito muito incômodo. O próximo faz barulho na sua casa, tarde da noite, e me perturba. Briga com a mulher e a espanca. E você, não irá acudi-la e consolá-la? Seria falta de caridade da sua parte.

O Decálogo também dispõe que você deve amar a Deus sobre todas as coisas, e a próximo como a ti mesmo. Não seria então inadequado não amar a mulher do próximo como a ti mesmo?

Você me responderá: amar pode, mas não cobiçar.

Ora, ora, ora…

Ame, meu amigo. Ame tudo, todas e todos, que tudo se resolve.

 

marilyn-monroe-ballerina

 

 

 

Corazón y Tu

 

                              

AAlfredo Fressia 2lfredo Fressia nasceu em Montevideo, em 1948. Destituído da cátedra pela ditadura uruguaia, instala-se em São Paulo, onde reside. Lecionou literatura francesa durante 44 anos. Sua obra poética inclui títulos como Esqueleto azul y otra agonía (Mvdeo., 1973); Clave final (Mvdeo., 1982); Noticias extranjeras (Mvdeo., 1984); Destino: Rua Aurora (São Paulo, 1986 e 2012, México, 2012); Cuarenta poemas (Mvdeo., 1989); Frontera móvil (Mvdeo, 1997); Veloz eternidad (Mvdeo., 1999); Eclipse, cierta poesía, 1973-2003 (Mvedo, 2003, México, 2006, Buenos Aires, 2013); Senryu o El árbol de las sílabas (Mvdeo., 2008); Ciudad de papel (Mvdeo., 2009); Canto desalojado (São Paulo, 2010), El memorial de los hombres que me amaron (México, 2012), Poeta en el Edén (Mvdeo. e México, 2012), Clandestin (París, 2013).

 

 

                                                            CORAZÓN Y TÚ

 

Alfredo Fressia

 

                                                           Este es tu corazón.

                                                           No es un reloj

                                                           ni un pájaro enjaulado.

                                                           (No te dejes engañar por los poetas)

                                                           Es sólo un corazón

                                                           con su tejido fibroso de músculo

                                                           obstinado

                                                           y cierta vocación para el secreto.

                                                           A veces la mano sobre el pecho

                                                           indaga los latidos. Entonces

                                                           mano y corazón dan miedo.

                                                           Ya sabes que lo ciñen válvulas

                                                           como coronas majestuosas.

 

                                                           No es de león.

                                                           Más bien palpita buey,

                                                           a sí mismo obedece.

                                                           Lo oirás, lo oyes, lo has oído

                                                           y tú ignorarás siempre las respuestas.

                                                           Mueres cada noche sobre él

                                                           y al despertar auscultas su rumiar,

                                                           agitados o calmos, él y tú,

                                                           por el mismo temblor.

                                                           Tú respiras, él cava una vez más

                                                           el surco de la mansedumbre

                                                           e inexplicablemente

                                                           es sólo un corazón.

 

 

coração

 

 

                        CORAÇÃO E TU

 

                        Este é o teu coração.

                        Não é um relógio

                        nem um pássaro enjaulado.

                        (Não te deixes enganar pelos poetas)

                        É só um coração

                        com seu tecido fibroso de músculo

                        obstinado

                        e certa vocação  para o segredo.

                        Às vezes a mão sobre o peito

                        indaga os batidos. Então

                        mão e coração dão medo.

                        Já sabes que o cingem válvulas

                        como coroas majestosas.

 

                        Não é de leão.

                        Antes palpita boi,

                        a si mesmo obedece.

                        Tu o ouvirás, ouves, ouviste

                        e ignorarás sempre as respostas.

                        Morres a cada noite sobre ele

                        e ao despertar auscultas seu ruminar,

                        agitados ou calmos, ele e tu,

                        pelo mesmo tremor.

                        Tu respiras, ele cava uma vez mais

                        o sulco da mansidão

                        e inexplicavelmente

                        é só um coração.

 

 

Menos, meninas…

 

like-e-dislike  

Almoço mensal da amizade em dia. Elegantes como sempre, trocam impressões sobre aquele objeto de desejo, ali, tão próximo, a lhes alvoroçar os seis sentidos.

─ Estrutura robusta, hein…

─ Mas é de comportamento pouco coerente, observa só. Isso dá um trabalho pra cultivar…

─ Questão de amadurecimento. No final é compensatório. Reparou que tem desenvoltura e expressão? Passa longe de modesto.

─ Ainda não senti a necessária untuosidade.

─ A necessária… o quê? ─ interrompo.

─ Aquela suavidade guardada num cantinho especial da língua que implora por… uma lagosta grelhada com molho de manteiga e arroz de amêndoa.

Aaaah, não. Cortei a pauta das enlouquecidas. Chatice de harmonização, gente. Tão mais simples dizer ‘gosto’ ou ‘não gosto’.

Quase apanhei. Até praga de Baco eu ouvi.

Mas nossa amizade continua firme. E rara. Vinho de boa cepa.

 

Selma Barcellos

Selma (perfil) 

 

 [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=4oWbzT_oAJ0#t=39[/youtube]

 

 

 

Ladainha

 

 Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

                                                 LADAINHA

 

                                                 É preciso continuar

                                                 passo a passo,

                                                 é preciso demolir

                                                 de todos os lados,

                                                 é preciso revisar

                                                 linha por linha,

                                                 e preciso resistir

                                                 em todos os momentos,

                                                 é preciso tergirversar

                                                 de todas as maneiras,

                                                 é preciso controlar-se

                                                 a si mesmo,

                                                 é preciso compreender

                                                 muito,

                                                 é preciso reiterar

                                                 o que a gente crê,

                                                 é preciso cruzar

                                                 os olhares,

                                                 é preciso dominar

                                                 nossa conduta,

                                                 é preciso reter

                                                 o que apreendemos,

                                                 é preciso ultrapassar

                                                 os obstáculos,

                                                 é preciso ousar

                                                 continuar,

                                                 é preciso voltar

                                                 ao ponto de partida,

                                                 é preciso se ater

                                                 ao que se ama,

                                                 é preciso esquecer

                                                 o que não se ama,

                                                 é preciso recuperar

                                                 o que se perdeu,

                                                 é preciso contar

                                                 a verdade,

                                                 é preciso atingir

                                                 a liberdade,

                                                 é preciso rever

                                                 os anos passados,

                                                 é preciso prever

                                                 o futuro duvidoso,

                                                 é preciso perder-se

                                                 para se encontrar

                                                 é preciso pesquisar

                                                 para encontrar alguma coisa,

                                                 é preciso extenuar-se

                                                 para se repousar,  

                                                 é preciso…

                                                 é preciso…

                                                 é preciso…

 

ladainha

“Força Estranha” (Caetano Veloso), com Gal Costa